Eu não sei gracejar. Quando tento brincar ou ser irónica, levam-me demasiadamente a sério. Quando quero apenas falar mais calmamente, penso que estou a ser uma cínica. Culpa da palavra escrita, de não ouvirem a voz e a expressão.

O meu pai sabe de tudo. Desconfiou. Pensou. Descobriu uma boa fatia do iceberg. Deve-se ter começado a aperceber há mais tempo, por todas as situações, ou mais recentemente porque deixei escapar que só ia ver concertos se ele fosse. Não tem como dizer nada, não tem como fazer nada. Não há como. A não ser calar e comer. E esperar. E pelo meio engolir muitas palavras, umas doces, umas amargas, engolir medos, engolir pecados.
Tal como não acredito em pessoas, deixei de acreditar em mim. Sou a pessoa de menor confiança, já que, aparentemente, não consigo nem sequer exprimir-me correctamente, nem dar-me com outras pessoas. Sim, pode dizer-se que como humana social, falhei redondamente. Não gosto de pessoas porque tenho um medo absurdo delas. E quanto mais gosto da pessoa, mais medo tenho dela. Medo de um julgamento que fica implícito no ar, de ficar apenas com a imagem de estúpida, burra. Um medo de falhar, enorme. Já perdi a conta aos anos que passei a acreditar que não tinha talento nenhum, eram todos bons a fazer alguma coisa que apreciavam menos eu. Consequências, talvez, de ter ouvido que não cantava nada e devia era nem ter voz depois de uma visita de estudo num autocarro. Talvez, desses anos todos em que também me chamavam "cadela".
Os meus pais educaram-me, e eu tenho respeito pelas pessoas, algum carinho às vezes, evito aceitar coisas e favores, dou uma mão para ajudar quando posso. O problema foi ter dado uma mão, depois o braço, até me morderem nas costelas. Sabem aquela coisa que não se devia fazer, a de dar as respostas do teste ao amigo? Fiz, vezes e vezes sem conta. Pensei que isso era ser amiga, estar a ajudar, a mostrar que gosto dos meus amigos. Dá para perceber que já nessa altura eu era burra, e não mudei nada.
Eu chegava a sentir "pena". Não creio que alguma vez alguém tenha sentido isso por mim.
Fui do oito ao oitenta, da rapariga dócil a esta máscara impessoal que já não sabe o que contém. Não me reconheço nas fotos de infância. Perdeu-se o brilho nos olhos, o sorriso. A menina que se vestia de mil e uma cores, e saias. Não me interpretem mal, eu adoro preto, adoro vestir-me de preto, e calças, e roupas clássicas.
Custa viver assim. Para os outros sou estranha. Para não dizer que, ao que parece, acabo por meter medo a uns, outros têm raiva de mim, seja do que faço, seja da inércia. Não dirijo isto em específico para ninguém.
A verdade é que iniciei o blog com três fins. Buscar ajuda, relatar a vida musical minha (ui, que interessante que ela é) e de quando em quando desabafar estupidamente. Preciso de dizer merdas algum dia da minha vida, prefiro fazê-lo num blog do que rebentar à frente de pessoas que não merecem aguentar com a minha frustração e as minhas choraminguices da treta. Posso tentar engolir tudo, mais uma vez. E mais uma vez...
O blog acabou por falhar em tudo. A ajuda de que preciso nunca vai chegar, é um daqueles milagres impossíveis de operar e eu não acredito em Deus. A partir do momento em que tenho de estar a explicar posts do blog para não me interpretarem de forma errada, tenho de apontar o que a sério e o que foi uma tentativa de ironizar num dia em que me correu mal, correu mesmo mal, perde-se o sentido de escrever num blog. A partir do dia em que temos receio de escrever no blog, caso não tenhamos o azar de escrever alguma coisa que ofenda alguém, acabou-se o blog. E, desculpem, eu cansei-me disso. Entendam: as pessoas que eu conheço, conhecem-me, e as que só lêem estas palavras; o problema não é, nem nunca foi, de vocês. Sejam meus conhecidos, tenham-me dito alguma coisa, nada disso me ofendeu ou provocou isto. Sou eu. O problema sou eu. A doença sou eu.
Vou parar isto. De qualquer das formas, já não escrevo mais do que textos pseudo-intelectuais negros sobre suicídio, sangue, prozac, amor perdido e coração arrancado do peito e oh! a dor, num caderninho, que não publico aqui, nem penso algum dia publicar. Não há mais nada a fazer. Pode ser que algum dia me dê na telha voltar a escrever. Mantenho o pequeno projecto de blog para um dia, se começar o curso na Universidade, sabe-se lá onde. Até lá, deixo-vos apenas arquivos. Memórias. Aquilo que me impede de apagar isto tudo.
Eu juro que não escrevi isto a pensar em ninguém específico. Foi em todos. Não quis, nem quero, ofender ninguém. Isto é um texto literal: qualquer tentativa de leitura entre linhas e significados é por vossa conta e risco, porque eu desisto de tentar escrever sem margem para erros de interpretação.
Até breve. E já agora, tirando aquelas pessoas a quem eu faço questão de desprezar na cara, eu adoro-vos a todos, mesmo que me metam medo. Adoro as vossas conversas, os vossos bolos. Adoro a vossa atenção, porque às vezes sabe bem. Adoro-vos. E é só.





