Fantasma da Orquestra
Aquela figura negra que se senta no fundo da orquestra, o violino que se ouve ao longe na noite de espectáculo. Os bastidores da alma e do concerto que se leva nos ouvidos já bem depois de ter sido tocado. E treze fogos fátuos em cima da corda Lá.
22 de Abril de 2012

   Eu não sei gracejar. Quando tento brincar ou ser irónica, levam-me demasiadamente a sério. Quando quero apenas falar mais calmamente, penso que estou a ser uma cínica. Culpa da palavra escrita, de não ouvirem a voz e a expressão.

 

   O meu pai sabe de tudo. Desconfiou. Pensou. Descobriu uma boa fatia do iceberg. Deve-se ter começado a aperceber há mais tempo, por todas as situações, ou mais recentemente porque deixei escapar que só ia ver concertos se ele fosse. Não tem como dizer nada, não tem como fazer nada. Não há como. A não ser calar e comer. E esperar. E pelo meio engolir muitas palavras, umas doces, umas amargas, engolir medos, engolir pecados.

   Tal como não acredito em pessoas, deixei de acreditar em mim. Sou a pessoa de menor confiança, já que, aparentemente, não consigo nem sequer exprimir-me correctamente, nem dar-me com outras pessoas. Sim, pode dizer-se que como humana social, falhei redondamente. Não gosto de pessoas porque tenho um medo absurdo delas. E quanto mais gosto da pessoa, mais medo tenho dela. Medo de um julgamento que fica implícito no ar, de ficar apenas com a imagem de estúpida, burra. Um medo de falhar, enorme. Já perdi a conta aos anos que passei a acreditar que não tinha talento nenhum, eram todos bons a fazer alguma coisa que apreciavam menos eu. Consequências, talvez, de ter ouvido que não cantava nada e devia era nem ter voz depois de uma visita de estudo num autocarro. Talvez, desses anos todos em que também me chamavam "cadela".

   Os meus pais educaram-me, e eu tenho respeito pelas pessoas, algum carinho às vezes, evito aceitar coisas e favores, dou uma mão para ajudar quando posso. O problema foi ter dado uma mão, depois o braço, até me morderem nas costelas. Sabem aquela coisa que não se devia fazer, a de dar as respostas do teste ao amigo? Fiz, vezes e vezes sem conta. Pensei que isso era ser amiga, estar a ajudar, a mostrar que gosto dos meus amigos. Dá para perceber que já nessa altura eu era burra, e não mudei nada.

   Eu chegava a sentir "pena". Não creio que alguma vez alguém tenha sentido isso por mim.

   Fui do oito ao oitenta, da rapariga dócil a esta máscara impessoal que já não sabe o que contém. Não me reconheço nas fotos de infância. Perdeu-se o brilho nos olhos, o sorriso. A menina que se vestia de mil e uma cores, e saias. Não me interpretem mal, eu adoro preto, adoro vestir-me de preto, e calças, e roupas clássicas.

   Custa viver assim. Para os outros sou estranha. Para não dizer que, ao que parece, acabo por meter medo a uns, outros têm raiva de mim, seja do que faço, seja da inércia. Não dirijo isto em específico para ninguém.

 

   A verdade é que iniciei o blog com três fins. Buscar ajuda, relatar a vida musical minha (ui, que interessante que ela é) e de quando em quando desabafar estupidamente. Preciso de dizer merdas algum dia da minha vida, prefiro fazê-lo num blog do que rebentar à frente de pessoas que não merecem aguentar com a minha frustração e as minhas choraminguices da treta. Posso tentar engolir tudo, mais uma vez. E mais uma vez...

   O blog acabou por falhar em tudo. A ajuda de que preciso nunca vai chegar, é um daqueles milagres impossíveis de operar e eu não acredito em Deus. A partir do momento em que tenho de estar a explicar posts do blog para não me interpretarem de forma errada, tenho de apontar o que a sério e o que foi uma tentativa de ironizar num dia em que me correu mal, correu mesmo mal, perde-se o sentido de escrever num blog. A partir do dia em que temos receio de escrever no blog, caso não tenhamos o azar de escrever alguma coisa que ofenda alguém, acabou-se o blog. E, desculpem, eu cansei-me disso. Entendam: as pessoas que eu conheço, conhecem-me, e as que só lêem estas palavras; o problema não é, nem nunca foi, de vocês. Sejam meus conhecidos, tenham-me dito alguma coisa, nada disso me ofendeu ou provocou isto. Sou eu. O problema sou eu. A doença sou eu.

 

   Vou parar isto. De qualquer das formas, já não escrevo mais do que textos pseudo-intelectuais negros sobre suicídio, sangue, prozac, amor perdido e coração arrancado do peito e oh! a dor, num caderninho, que não publico aqui, nem penso algum dia publicar. Não há mais nada a fazer. Pode ser que algum dia me dê na telha voltar a escrever. Mantenho o pequeno projecto de blog para um dia, se começar o curso na Universidade, sabe-se lá onde. Até lá, deixo-vos apenas arquivos. Memórias. Aquilo que me impede de apagar isto tudo.

 

   Eu juro que não escrevi isto a pensar em ninguém específico. Foi em todos. Não quis, nem quero, ofender ninguém. Isto é um texto literal: qualquer tentativa de leitura entre linhas e significados é por vossa conta e risco, porque eu desisto de tentar escrever sem margem para erros de interpretação.

 

   Até breve. E já agora, tirando aquelas pessoas a quem eu faço questão de desprezar na cara, eu adoro-vos a todos, mesmo que me metam medo. Adoro as vossas conversas, os vossos bolos. Adoro a vossa atenção, porque às vezes sabe bem. Adoro-vos. E é só.

Orquestrado por Violinista às 01:11
20 de Abril de 2012

   Por favor, se alguém conseguir pensar numa coisa pior que ficar sem arco num ensaio da orquestra e ainda por cima num dia em que termino por aterrar lá à frente, aterrada, escreva isso num papel e depois queime-o que eu não quero saber disso. Seja como for, ainda devo de encontrar algo pior que isso, algum dia.

 

   Para já, fico-me a choramingar que não quero ir para o lugar de concertino e aquela gente hoje conspirou contra a minha pobre pessoa.

Orquestrado por Violinista às 23:54
No momento, estou: Perdi a paciência para
Música do momento: preencher estas coisas. Estou a ouvir clássica. Ponto.
19 de Abril de 2012

   Quando vou tocar para o museu de arte sacra e acabo, sabe-se lá como, a tocar na presença do padre que me baptizou, fez a primeira comunhão, acompanhou-me na catequese e gostava de me pôr a ler, porque pelos vistos tinha jeito e voz para ler passagens da Bíblia e sermões. Detalhe: já há cinco ou seis anos que não ponho os pés numa igreja, a não ser para tocar, e já há nove anos que não pratico catolicismo nem nada que pareça.

   Mas não me preocupo muito. Quando morrer, morri e desintegrei-me na natureza. Se houver inferno, não pode ser pior que isto.

 

   Encontro toda a espécie de pessoas, mesmo quem eu não quero encontrar. Em alturas que não quero encontrar. Jutem a isso o dom de saber informações sem querer e quando menos quero. Se calhar podia trabalhar para uma agência de espionagem.

 

   Também tenho andado muito saída da casca. Bom, pelo menos se neste ano der merda para o final, e já estou a prever, porque matricular para o curso complementar de música é o que se vê, a prova é melhor nem falar nela, já sei que a culpa é definitivamente minha. Ao menos desta tenho a fama e o proveito. Não que eu goste. Mas já estou farta de andar apoquentada anos a fio e no final ainda as levar porque sou introvertida e não falo com ninguém. O amigo que eu quero não quer ser meu amigo. Com os outros, já disse, não confio em humanos.

Orquestrado por Violinista às 22:50
No momento, estou: Hoje fiz merda
Música do momento: Concerto para piano nº1 - Tchaikovsky
Palavras soltas: ,
15 de Abril de 2012

   A pancada estrondosa ouviu-se pelo navio inteiro, acordando choros e abrindo olhos incrédulos, assustadiços. Lembro-me, são memórias difusas. Eu estava lá. E almadiçoei-me amargamente por ter aceitado ir ali naquele navio, depois de tudo o que já tinha corrido mal. No Lusitania e no Mauretania, ainda era listado como membro da tripulação. Agora veja-se: Titanic, maior e melhor cruzeiro do mundo, de uma companhia tão amável para os seus passageiros; e eu, primeiro violinista, obrigado a ir como passageiro de segunda classe e sem sequer estar seguro. Temia por mim. Temia pelo violino. Temia pela minha noiva. Queria apenas que a viagem terminasse e que eu pudesse voltar para casa, continuar um violinista vivo. Foi o que não fiz ao aceitar o convite para o Titanic.

   Reunimo-nos. Eu e os outros músicos. O trio de piano, violino e violoncelo e o meu quinteto. Foi a primeira noite que tocámos todos juntos como irmãos unidos pela música dos nossos instrumentos. Uma última tentativa de elevar o ambiente gelado a bordo daquele navio morto, agora uma carcaça à espera do inevitável desaparecimento nas águas profundas e escuras do oceano. Era uma questão de horas. Engoli em seco, apertei mais ainda o violino. Não ia voltar a casa.

   Deixámos de tocar quando o navio se inclinou, em rangidos sinistros. Lembro-me de cair à água e deixar de ouvir os meus irmãos. Mergulhei no líquido gelado agarrando o violino e nada mais que isso, enquanto facadas me arrepiavam os nervos do corpo. As luzes apagavam-se. Ouvia música ainda, nos meus ouvidos. No final, só me restou a música.

  

Orquestrado por Violinista às 00:24
Música do momento: Nearer my God to Thee
Palavras soltas: ,
10 de Abril de 2012

   Há notícias que nos dão um murro no estômago. Uma chapada na cara, arrancam-nos gradualmente as entranhas quando nos apercebemos que não éramos tão alheios à situação quanto se mostrava. A morte de uma pessoa. Uma pessoa que até era próxima. Isso põe um vidro entre o presente e o passado, e agora só podes olhar o teu tempo passado com essa pessoa com as mãos e a cara encostadas ao vidro, sem o transpôr. De repente, tenho medo, um medo insano. Não sabia que o tinha porque nunca tinha pensado nele a sério. Perder um conhecido para a morte.

 

   A Associação foi a minha primeira casa, o meu primeiro passo. A tímida rapariga de franja vermelha entrava lá porque as aulas de violino eram mais baratas, falara com aquela senhora, fizera a inscrição, esperava pelo professor. A rapariga passou a frequentar aquele edifício tosco, de cartaz gasto do sol, as paredes descascadas, as salas simples, com defeitos, com o aquecedor quase sempre ligado, as cadeiras para nós, as cadeiras para os violinos, o teclado. Aquele mundo. A senhora sorria. Sorria sempre, ou quase sempre. Também a ouvia reclamar, falar de outra forma, como outra pessoa qualquer comum, viva, humana. Foi sempre simpática comigo, e não era só por eu lhe despachar dinheiro para as mãos por mais um mês de aulas de violino. Lembro-me de a ouvir cantar. Lembro-me daquele concerto que dei, eu como solista de violino, e eles num grupo vocal. Com essa imagem feminina prendem-se memórias minhas, de sonhos, esperanças. De um início de eu com o violino, de um início de um eu que começava agora a levantar. Não me viu ir embora quando fui, quando percebi que se calhar estava na hora de ir para buscar algo mais. Tinha recibos de meia dúzia de meses que paguei e não tinha tido oportunidade de ir buscar os papéis. Parece-me que agora não os vou mesmo ter. Foram-se. Foi-se.

 

   Morreu na quinta. Eu, que estou afastada agora daquele espaço, sou apanhada de surpresa. Soube por ele, que gostou das publicações do professor que estava com a senhora, professor que eu conheço, às vezes falava (o como eu sou uma stalker de primeira água, as actualizações dele, mesmo as mais mínimas e idiotas, aparecem-me na dashboard). Soube tarde. Quero deixar uma mensagem de apoio lá, mas como? O professor não me conhece no Facebook, e eu também faço o favor de não ter nome de gente lá. Não somos tão próximos quanto isso. Tenho medo de soar mal. Deixo, ou não deixo? Escrevo, ou não escrevo? Por favor ajudem-me. Porque apesar de ter deixado a Associação, eu não me desliguei de todo destas pessoas.

 

   Eu costumo inventar histórias na minha cabeça. Histórias em que uma ex-amiga, uma inimiga ou uma estúpida qualquer chegava àquela Associação para se apoderar de algo musicalmente mágico. E matava as pessoas. Matava a senhora que sorria e que era a grande cabeça do lugar. Matava o professor. Matava o professor de violino. Matava-me. Eu regressava como fantasma, para ajudar a pessoa que restava a restaurar a paz naquele lugar. Todos voltavam. Todos voltavam vivos. Não sei qual é a inimiga. Talvez tenha que esperar até morrer, para descobrir isso, e ajudar todos a voltar. É uma fantasia. Um dia morrerei, sim, mas depois de morta não serei mais fantasma do que sou agora.

 

   A morte da senhora abriu a porta para o meu maior receio. A morte de conhecidos. A morte de amigos. Não suportarei se algum amigo se for para o outro lado e eu ficaar só com o passado envidraçado, estático.

 

   À senhora Maria João. Que encontre paz na alma. Que se torne una de novo com a natureza, respire o mais puro dos ares, seja a mais pura das terras. E um dia, talvez, nos voltemos a encontrar.

Orquestrado por Violinista às 20:31
No momento, estou: Tenho das mais duras dores.
Música do momento: Marcha Fúnebre de Chopin, Adagio de Albinoni, uma dessas

Violinista, C. S. L. Stradivaria. 19. Nº 5. Nº 13. Pseudo Violinista. Estudante. Nerd. Chapeleira. Vitoriana. Dandy Lolita. Incerta. Inconstante. Sonhadora. Inteligente. Invisível. Tímida. Imprevisível. Intelectual. Estranha. Deprimida. Lacrimosa. Egoísta. Respondona. Obcecada. Cínica. Anti-social. Teimosa. Orgulhosa. Calada. Perfeccionista. Louca. Baixinha. Ridícula. Original. Solilóquio em Celulóide. Violino. Música. Letras. Notas. Pautas. Relógios de Bolso. Cartolas. Magia. Paranormal. Roxo. Vermelho. Raposa. Coruja. Melro, Corvo e Pêga. Cisne. Pássaro de Fogo. Chocolate. Chuva. Quinta Dimensão. Submarino Amarelo. Petrushka. Viajante do Tempo. Extraterrestre. Fantasma.
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