Fantasma da Orquestra
Aquela figura negra que se senta no fundo da orquestra, o violino que se ouve ao longe na noite de espectáculo. Os bastidores da alma e do concerto que se leva nos ouvidos já bem depois de ter sido tocado. E treze fogos fátuos em cima da corda Lá.
01 de Março de 2012

   ...podia ser um dia perfeito.

   Tudo bem.

 

   Mesmo que o arco tenha dado de si, o que num arco com três anos de uso e o epíteto "Corcundinha" não é de estranhar. Bom, porque ao menos, espero eu, que me deixe de andar stressada com barulhos que não era suposto estar a ouvir. Não era totalmente culpa minha.

 

   Não gosto lá muito deste arco que tenho agora...

 

   Mas, sim, hoje foi um dia perfeito. Acho que sim. É tão simples estar bem e feliz como estive, e ainda assim, tão complicado. Simplesmente eu, o que eu mais gosto e os meus pequenos prazeres. Só isso. Sem pressões de outros lado, sem pessoas.

 

   Deixem estar que daqui a três dias já me passo dos carris com a audição.

Orquestrado por Violinista às 23:37
No momento, estou: Well
Música do momento: I Hate You - Saltillo
Palavras soltas: ,
14 de Janeiro de 2012

   Achei Tubular Bells em orquestra. Épico. Há três dias que não ouço outra coisa, no dia em que ouvi isto pela primeira vez ia chorando de tão epicamente perfeito que está.

 

   O que não contei ainda foi que tive de ir à cidade de tarde, e acabei por descobrir numa livraria, três livros de Doctor Who a um euro cada. Da série antiga, para aí das primeiras temporadas (porém, estando mal habituada aos episódios vistos quando comecei a tocar, vou estar a ler e a imaginar o Tennant). Como grande fã a ter um ataque fanático, trouxe os três com um sorriso digno de gato chesire. Os três são antigos, nota-se que são antigos, têm manchas amareladas e cheiro a livro velho. No entanto, estão ainda em condições muito apresentáveis (as capas não têm um risco sequer), e ao preço a que mos venderam, caramba. Nunca tinha comprado livros tão baratos.

   Era suposto só estar a ler o volume de História da Música, mas mandei o bom senso às urtigas e já comecei por um deles.

   Espero não voltar a ter ataques parvos destes (mas vou voltar a ter, tenho sempre que vejo um violino à minha frente, só aprendi a disfarçar melhor).

 

   O ensaio de orquestra correu bem. Mesmo com o que aconteceu. Vamos tocar Salieri (e já posso riscar mais um compositor da minha lista mental dos compositores cujas obras quero tocar), uma sinfonia. Já todos viram o filme Amadeus, todos comentaram aquilo de Salieri ter ou não morto Mozart. Não. O homem tinha uma imaginação um tanto fracota quanto às peças (como pude ver por uns bocadinhos da minha parte da peça), mas não era mau a esse ponto. Uma serenata de Elgar. O resultado final deve ser lindo, isto agora tinha umas frases que soavam bem, mas ao todo ainda não é lá muito. E Holst. Uma coisa chamada St. Paul Suite, que me entrou para o ouvido e acho que vou ficar um bocado viciada em tocar aquilo (o único defeito é que aquilo é absurdamente rápido).

   E em duo, Shostakovich, hoje, para fazer uma alma feliz.

 

   No entanto, nada me faz tão feliz quanto aquilo.

 

   Eu estava muito descansada da alma (nem tanto), sentada no meu cantinho da segunda estante dos segundos violinos ao lado da M, à espera de novas partituras, porque já tinha deixado umas quantas em casa. Ouço a voz de maestro dele a pedir-me o Lá para uns quantos afinarem, nada de muito surpreendente. Manda a C para o lado do concertino. E diz o meu nome outra vez e manda-me para trás dele. Novas partituras para mim, aquelas. E fico eu naquele cantinho novo. A tocar nos primeiros violinos, ainda por cima feita fina a tocar a voz de cima.

 

   A tocar nos primeiros violinos. Segunda estante, vá, primeiros traseiros violinos.

 

   Ó, EU ESTOU NOS PRIMEIROS VIOLINOS!!!

 

   E é isto, eu estou tão feliz que não me aguento, provavelmente ainda levo uma desanda da parte de cima (que não quero, porque tenho estado a estudar essa hoje). Espero (com um medo desgraçado e danado) não ser despromovida. Bom, tinha o mesmo medo quando fui dos terceiros para os segundos, e não me aconteceu nada de mal.

Orquestrado por Violinista às 13:15
No momento, estou: I'm so fucking happy
Música do momento: St. Paul's Suite, Jig - Holst
13 de Janeiro de 2012

   "Na sexta-feira, treze de Janeiro..."

 

   E desta vez é mesmo sexta-feira 13.

 

   Este blog é uma parte significativa de mim. Não pelos pouquíssimos comentários que tenho, ou da sua fraquíssima qualidade que nunca fez dele ponto de referência para ninguém, nem nunca mereceu destaque. Porque desde aquele 13 de Janeiro, que este blog tem sido uma extensão de mim, da minha alma e consciência, para o bem ou para o mal. Em dias menos bons, venho aqui. Em dias bons, também. Já cá apanharam as minhas mágoas, as minhas felicidades, os meus rasgos meio geniais e as ideias não tão boas assim.

   Ainda me lembro, como se fosse ontem, do dia que precedeu a abertura deste blog, e que praticamente foi o estopim para o criar. Parecia um dia normal. Tinha uma das minhas aulas no conservatório, no primeiro ano em que lá estive, e apanhei uma das maiores vergonhas da minha vida lá, que foi o telemóvel tocar a meio da aula. O toque (ainda hoje é o mesmo telemóvel e o mesmo toque) era, muito originalmente, o Capricho nº13 de Paganini. O professor de violino aproveitou para comentar, tocar, e brincar com a situação. Sim, senhora, excelente toque de telemóvel.

   Nesse Natal tinha visto o Fantasma da Ópera.

   Ainda hoje me vejo assim, como um fantasma da orquestra. Nessa altura, estava a dar os meus primeiros passos na orquestra, hesitante, e sentia-me assim: apagada num grupo que se conhecia muito bem e no qual eu era a estranha, a pessoa à parte, ao fundo, na sombra. Hoje as coisas não estão muito diferentes. Sinto-me mais separada, mais de lado. Mantenho conversas algo amigáveis com algumas pessoas, incluindo uma das violoncelistas, respeito toda a gente, lá está, mantenho-me simpática para todos. No entanto, continuo a afastar-me, a sentir-me distante. A faltar a almoços de convívio, a desaparecer de concertos.

   Não deixo de ser um fantasma.

 

   Não deixo este blog, por nada. Criei o hábito de cá vir, hábito que não largo. Já experimentei outros blogs, ir para outras plataformas, tentar apagar este e as suas más recordações. Não consigo. Não são só as más recordações, mas as boas, o que eu já escrevi, o que eu já vivi. Este blog sou eu, sou eu reflectida nestas páginas, eu com todos os meus defeitos e as minhas poucas virtudes. Eu e o meu violino. Como tal, é um blog fantasma, um blog sinistro, de ideias diversas e em conflito, de embirrações, coisas que me saem dos dedos para fora e nem deviam. A minha música favorita ecoa aqui.

   Este blog começou com uma rapariga triste de dezassete anos, um violino, um telemóvel com o Capricho nº 13 de Paganini, o medo e a busca do talento, um interesse estranho e obscuro numa pessoa que ainda hoje admiro, um carinho absurdo para com o pai e a infância, uns quantos pontapés à sociedade e à humanidade em geral, para além de uns quantos textos. Conta com 382 posts (383 com este) e 153 comentários (thank you!).

   Este blog seguirá com uma jovem de dezanove anos, o seu violino que foi batizado Monstro, o telemóvel com o Capricho nº 13 de Paganini cuja bateria está uma inválida e tem de ser carregado de dois em dois dias, o seu medo avassalador e a sua busca incessante pelo talento e perfeição, o melhor pai que me poderia calhar, uma infância cada vez mais distante mas sempre recordada, e ainda a sua admiração pela mesma pessoa, sempre aquele interesse velado e que dói. Muitos mais pontapés à sociedade e à humanidade em geral, e de quando em quando, uns textos e contos que escrevo nas margens das folhas. A minha imaginação continua. A tristeza do meu cérebro também. Os rasgos de felicidade que o violino me traz, idem.

 

   Há hoje um conto de surpresa, postado mais logo. No dia 24, começo a rúbrica periódica deste ano. Lamento não fazer uma festa maior, eu tentei, mas o ânimo aí desse lado, leitor, foi tanto, tanto...

 

   A mais um ano de blog da Violinista. Ergam os copos de Zubrowka. Brindemos a isto, que é o primeiro blog que tenho com uma vida tão longa, e esperemos que o único.

  

Orquestrado por Violinista às 07:57
No momento, estou: Este estaminé faz anos, bebam.
Música do momento: Tubular Bells em orquestra - Mike Oldfield
31 de Dezembro de 2011

   A conclusão a que chego agora é que 2011 foi um ano mau com pequenos momentos de pura glória. Uma linha torta, com borrões negros ao lado de arco-íris. Uma coisa a ir de um extremo ao outro em questão de segundos.

 

   Tive o meu primeiro Concerto de Ano Novo, primeira experiência de dia de concerto mais a doer. Gostei. Com alguns momentos menos bons, as coisas até pareciam estar a andar. Era chamada para a frente do naipe quando alguém faltava. Tinha as minhas pequenas confusões e ataques de nervos antes das aulas, mas parecia tudo normal. Apesar de tudo, eu já estava a começar a ficar meio cinzenta. Sorriso apagado. Fui aprender a arte da guerra. Descobri, entre outras coisas, que tenho boa pontaria, sou potencialmente perigosa com uma pressão de ar nas mãos, e ultimamente deu-me para andar com um cinto militar (do pai). Fiz merda na audição, e fui-me abaixo. Creio que desde esse ponto que iniciei uma espiral descontrolada e vertiginosa para baixo. Recebi a proposta que poderia ter sido um autêntico raio de sol, e por meu medo e impossibilidade de uma parte, não aconteceu. Depois, o negrume. O que me aconteceu nesse tempo levou-me a perder por completo a confiança nas pessoas, levou-me a perder o pé por um largo tempo. Vivi um pequeno inferno nesse tempo. Acreditei que realmente só seria aquilo: eu merecia era um futuro onde não teria nada e seria mal olhada. Voltei a entrar em estupor. Julguei que sua excelência me tinha ódio. As coisas correram muito mal nos últimos dias, mesmo muito. Ouvi e li palavras que não queria, que me racharam por dentro de uma forma que eu acredito que não se cura. Mesmo assim, no exame em que fiz merda, tive 96%. No de passagem de grau que pensei que pudesse estar melhor por não ter tido brancas a meio, desci vergonhosamente para os oitenta e tal por cento.

   As coisas eventualmente regressaram a uma aparente normalidade, que se mantém. Aliás, neste momento parece que esse momento negro só existiu na minha cabeça, e mais ninguém toca nele. Estive um verão inteiro a lembrar-me do mau que foi, e agora desapareceu.

   Tive muitos e bons concertos. Tive a minha primeira experiência nos primeiros violinos. Estive no lugar de concertino durante parte de um ensaio (coisa que não deve nunca mais voltar a acontecer-me, acho).

   Vibrato! Supostamente, neste ano consegui dominar essa coisa (pelo menos, está melhor e já se parece com qualquer coisa de jeito).

   Finalmente tive direito a ter o canal Mezzo na televisão. Julguei que começava mal este ano lectivo, mas ao que parece sua excelência deu-me o desconto e tem vindo a amenizar um bocado as coisas. Não sei como. Fiz a passagem de grau para o 5º grau de violino e orquestra.

   A Cantata do Padre Cartageno, tocada duas vezes, dois dias que acho que me vão ficar na memória até ao dia em que eu entre na cova.

   Foi também o último ano com Mestre P. Apesar de tudo, vou ter saudades do tempo que lá estive, das aulas, dos pequenos momentos. Houve dias em que eu fui a única aluna a aparecer-lhe lá. Há coisas de lá que eu também não vou esquecer. Afinal, foi ali que eu me vim a encontrar a mim mesma. E ao violino.

   Mas o negrume não se foi embora. Agora estou a braços com ele. O meu cérebro apodreceu, é a única coisa que posso dizer aqui e agora, porque me enfiei num belo de um buraco negro, e há coisas que não posso ainda dizer, certezas que ainda não tenho. Há parte de mim que já não se recupera. Tão depressa posso estar bem, como ir-me abaixo num momento qualquer.

 

   2012. O ano do apocalipse, o ano do fim de qualquer coisa. Quem sabe, do meu fim? Quem sabe, talvez o mundo fique melhor sem pessoas nele. Tlvez melhor se eu não estiver cá. Não sei. Mas vai ser fácil pedir os desejos nesta passagem de ano. É uma frase já pensada. E vai ser repetida doze vezes, pode ser que resulte. Bom ano.

 

Orquestrado por Violinista às 23:59
No momento, estou: Not so confident
Música do momento: The End - The Doors
16 de Dezembro de 2011

   Já tinha tido algumas experiências do que é estar no naipe de primeiros violinos umas vezes, na segunda estante, uma vez mandada para a primeira ao lado do concertino para impedir que ele continuasse a falar pelos cotovelos (foi o que me disseram para o caso, não sei se é inteiramente verdade porque na altura eu estava vermelhíssima porque estavamos a comentar uma outra coisa cá atrás, e a rir). Daí que poderia até dar-me por feliz, por já ter experimentado isso (e já estive nos três naipes de violinos que existem, quatro se contarmos com o concerto de Vivaldi para quatro).

   Pois hoje só havia um primeiro violino. Uma, no caso. Como era o Canon, e entre os primeiros e os segundos, era normal que ele pedisse a alguma de nós que tomasse o lugar principal. Não foi normal que em vez de chamar aquela que costuma ir para reforçar o naipe dos primeiros, chamou esta aqui.

   Fui concertino durante uma peça.

   Como é óbvio, e aquela gente já me vai conhecendo, sabiam todos que eu estava enervada. Não me enganei. Mas estava enervada. E os primeiros têm mais uns compassos que os segundos não têm. Mas safei-me. Não acho que tenha jeito para líder: definitivamente, não sou lá muito do tipo de liderar alguma coisa e tomar iniciativas. Quem estava ao meu lado animou-me um bocado, porque tinha corrido bem. Na Sleighride voltei ao meu cantinho habitual.

   Devo aproveitar e ficar contente com este dia, porque não devo voltar a pôr os pés mais vez nenhuma naquele lugar.

 

   Ontem, depois de fazer o estudo e ele dizer que estava bem (na minha opinião, nem estava assim tão bem, e não sei como é que diz que estava melhor que na semana passada), mandou-me dois estudos, um dos quais é o último de Kreutzer, e mais uma peça, lenta, estilo irlandês, que me faz lembrar vagamente alguma coisa alla Doctor Who. Isso, mais o concerto do Kabalevsky, e suspeito que "férias" será uma palavra desconhecida no meu dicionário mental. Parabéns, estudaste bem o estudo. Ora toma lá estes e esquece o Natal. (No entanto, não estou nem triste, nem chateada. Não de todo.)

   Começo a entrar ligeiramente em desespero, porque não sei como fazer isto agora: é suposto tocar forte, mas estou a chegar àquela altura em que arranha por tudo o quanto é lado, sem falar noutros ruídos, porque supostamente atingi o limite do instrumento, e já lá vão três pessoas que o disseram. Não sei o que fazer.

 

   E hoje saí do ensaio de Orquestra (que era suposto ser um concerto no museu, mas ontem fui informada que não, afinal temos só um ensaio normal) e fui jantar ao japonês de violino às costas, com amigos. Foi o melhor jantar que já tive em muito tempo. Comi que me fartei (ali o sirva-se à vontade significa enfardar até cair para o lado, pelo menos no nosso grupo), serviram chá nas canecas mais engraçadas que eu já vi até hoje, e não importa que tenha chegado a casa com os pais a dizerem que aquilo é caro e não vale a pena. Valeu muito a pena. Adorei.

   Comi melhor ali do que em qualquer outro lado.

   E ainda com o extra de ter ido tocar para a rua, e de ficar a falar sobre música com eles.

 

   Eu quero fazer disto a minha vida, e tenho bons motivos para isso.

Orquestrado por Violinista às 23:33
No momento, estou: Feliz, porra. Bastante.
Música do momento: Canon de Pachelbell

Violinista, C. S. L. Stradivaria. 19. Nº 5. Nº 13. Pseudo Violinista. Estudante. Nerd. Chapeleira. Vitoriana. Dandy Lolita. Incerta. Inconstante. Sonhadora. Inteligente. Invisível. Tímida. Imprevisível. Intelectual. Estranha. Deprimida. Lacrimosa. Egoísta. Respondona. Obcecada. Cínica. Anti-social. Teimosa. Orgulhosa. Calada. Perfeccionista. Louca. Baixinha. Ridícula. Original. Solilóquio em Celulóide. Violino. Música. Letras. Notas. Pautas. Relógios de Bolso. Cartolas. Magia. Paranormal. Roxo. Vermelho. Raposa. Coruja. Melro, Corvo e Pêga. Cisne. Pássaro de Fogo. Chocolate. Chuva. Quinta Dimensão. Submarino Amarelo. Petrushka. Viajante do Tempo. Extraterrestre. Fantasma.
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