Há notícias que nos dão um murro no estômago. Uma chapada na cara, arrancam-nos gradualmente as entranhas quando nos apercebemos que não éramos tão alheios à situação quanto se mostrava. A morte de uma pessoa. Uma pessoa que até era próxima. Isso põe um vidro entre o presente e o passado, e agora só podes olhar o teu tempo passado com essa pessoa com as mãos e a cara encostadas ao vidro, sem o transpôr. De repente, tenho medo, um medo insano. Não sabia que o tinha porque nunca tinha pensado nele a sério. Perder um conhecido para a morte.
A Associação foi a minha primeira casa, o meu primeiro passo. A tímida rapariga de franja vermelha entrava lá porque as aulas de violino eram mais baratas, falara com aquela senhora, fizera a inscrição, esperava pelo professor. A rapariga passou a frequentar aquele edifício tosco, de cartaz gasto do sol, as paredes descascadas, as salas simples, com defeitos, com o aquecedor quase sempre ligado, as cadeiras para nós, as cadeiras para os violinos, o teclado. Aquele mundo. A senhora sorria. Sorria sempre, ou quase sempre. Também a ouvia reclamar, falar de outra forma, como outra pessoa qualquer comum, viva, humana. Foi sempre simpática comigo, e não era só por eu lhe despachar dinheiro para as mãos por mais um mês de aulas de violino. Lembro-me de a ouvir cantar. Lembro-me daquele concerto que dei, eu como solista de violino, e eles num grupo vocal. Com essa imagem feminina prendem-se memórias minhas, de sonhos, esperanças. De um início de eu com o violino, de um início de um eu que começava agora a levantar. Não me viu ir embora quando fui, quando percebi que se calhar estava na hora de ir para buscar algo mais. Tinha recibos de meia dúzia de meses que paguei e não tinha tido oportunidade de ir buscar os papéis. Parece-me que agora não os vou mesmo ter. Foram-se. Foi-se.
Morreu na quinta. Eu, que estou afastada agora daquele espaço, sou apanhada de surpresa. Soube por ele, que gostou das publicações do professor que estava com a senhora, professor que eu conheço, às vezes falava (o como eu sou uma stalker de primeira água, as actualizações dele, mesmo as mais mínimas e idiotas, aparecem-me na dashboard). Soube tarde. Quero deixar uma mensagem de apoio lá, mas como? O professor não me conhece no Facebook, e eu também faço o favor de não ter nome de gente lá. Não somos tão próximos quanto isso. Tenho medo de soar mal. Deixo, ou não deixo? Escrevo, ou não escrevo? Por favor ajudem-me. Porque apesar de ter deixado a Associação, eu não me desliguei de todo destas pessoas.
Eu costumo inventar histórias na minha cabeça. Histórias em que uma ex-amiga, uma inimiga ou uma estúpida qualquer chegava àquela Associação para se apoderar de algo musicalmente mágico. E matava as pessoas. Matava a senhora que sorria e que era a grande cabeça do lugar. Matava o professor. Matava o professor de violino. Matava-me. Eu regressava como fantasma, para ajudar a pessoa que restava a restaurar a paz naquele lugar. Todos voltavam. Todos voltavam vivos. Não sei qual é a inimiga. Talvez tenha que esperar até morrer, para descobrir isso, e ajudar todos a voltar. É uma fantasia. Um dia morrerei, sim, mas depois de morta não serei mais fantasma do que sou agora.
A morte da senhora abriu a porta para o meu maior receio. A morte de conhecidos. A morte de amigos. Não suportarei se algum amigo se for para o outro lado e eu ficaar só com o passado envidraçado, estático.
À senhora Maria João. Que encontre paz na alma. Que se torne una de novo com a natureza, respire o mais puro dos ares, seja a mais pura das terras. E um dia, talvez, nos voltemos a encontrar.



