"Na sexta-feira, treze de Janeiro..."
E desta vez é mesmo sexta-feira 13.
Este blog é uma parte significativa de mim. Não pelos pouquíssimos comentários que tenho, ou da sua fraquíssima qualidade que nunca fez dele ponto de referência para ninguém, nem nunca mereceu destaque. Porque desde aquele 13 de Janeiro, que este blog tem sido uma extensão de mim, da minha alma e consciência, para o bem ou para o mal. Em dias menos bons, venho aqui. Em dias bons, também. Já cá apanharam as minhas mágoas, as minhas felicidades, os meus rasgos meio geniais e as ideias não tão boas assim.
Ainda me lembro, como se fosse ontem, do dia que precedeu a abertura deste blog, e que praticamente foi o estopim para o criar. Parecia um dia normal. Tinha uma das minhas aulas no conservatório, no primeiro ano em que lá estive, e apanhei uma das maiores vergonhas da minha vida lá, que foi o telemóvel tocar a meio da aula. O toque (ainda hoje é o mesmo telemóvel e o mesmo toque) era, muito originalmente, o Capricho nº13 de Paganini. O professor de violino aproveitou para comentar, tocar, e brincar com a situação. Sim, senhora, excelente toque de telemóvel.
Nesse Natal tinha visto o Fantasma da Ópera.
Ainda hoje me vejo assim, como um fantasma da orquestra. Nessa altura, estava a dar os meus primeiros passos na orquestra, hesitante, e sentia-me assim: apagada num grupo que se conhecia muito bem e no qual eu era a estranha, a pessoa à parte, ao fundo, na sombra. Hoje as coisas não estão muito diferentes. Sinto-me mais separada, mais de lado. Mantenho conversas algo amigáveis com algumas pessoas, incluindo uma das violoncelistas, respeito toda a gente, lá está, mantenho-me simpática para todos. No entanto, continuo a afastar-me, a sentir-me distante. A faltar a almoços de convívio, a desaparecer de concertos.
Não deixo de ser um fantasma.
Não deixo este blog, por nada. Criei o hábito de cá vir, hábito que não largo. Já experimentei outros blogs, ir para outras plataformas, tentar apagar este e as suas más recordações. Não consigo. Não são só as más recordações, mas as boas, o que eu já escrevi, o que eu já vivi. Este blog sou eu, sou eu reflectida nestas páginas, eu com todos os meus defeitos e as minhas poucas virtudes. Eu e o meu violino. Como tal, é um blog fantasma, um blog sinistro, de ideias diversas e em conflito, de embirrações, coisas que me saem dos dedos para fora e nem deviam. A minha música favorita ecoa aqui.
Este blog começou com uma rapariga triste de dezassete anos, um violino, um telemóvel com o Capricho nº 13 de Paganini, o medo e a busca do talento, um interesse estranho e obscuro numa pessoa que ainda hoje admiro, um carinho absurdo para com o pai e a infância, uns quantos pontapés à sociedade e à humanidade em geral, para além de uns quantos textos. Conta com 382 posts (383 com este) e 153 comentários (thank you!).
Este blog seguirá com uma jovem de dezanove anos, o seu violino que foi batizado Monstro, o telemóvel com o Capricho nº 13 de Paganini cuja bateria está uma inválida e tem de ser carregado de dois em dois dias, o seu medo avassalador e a sua busca incessante pelo talento e perfeição, o melhor pai que me poderia calhar, uma infância cada vez mais distante mas sempre recordada, e ainda a sua admiração pela mesma pessoa, sempre aquele interesse velado e que dói. Muitos mais pontapés à sociedade e à humanidade em geral, e de quando em quando, uns textos e contos que escrevo nas margens das folhas. A minha imaginação continua. A tristeza do meu cérebro também. Os rasgos de felicidade que o violino me traz, idem.
Há hoje um conto de surpresa, postado mais logo. No dia 24, começo a rúbrica periódica deste ano. Lamento não fazer uma festa maior, eu tentei, mas o ânimo aí desse lado, leitor, foi tanto, tanto...
A mais um ano de blog da Violinista. Ergam os copos de Zubrowka. Brindemos a isto, que é o primeiro blog que tenho com uma vida tão longa, e esperemos que o único.




