Fantasma da Orquestra
Aquela figura negra que se senta no fundo da orquestra, o violino que se ouve ao longe na noite de espectáculo. Os bastidores da alma e do concerto que se leva nos ouvidos já bem depois de ter sido tocado. E treze fogos fátuos em cima da corda Lá.
27 de Março de 2012

   Aquilo de há dias... conto-vos, deve ter sido o Prozac a falar.

 

   Porque hoje, depois de uma desilusão que quase me atirou para o chão, e de mais conversa que se calhar eu devia ter evitado, voltei a achar-me o maior traste que existe na cidade mais merdosa do país mais miserável do universo.

 

   Era suposto eu vir aqui fazer um post em que falava que me fartava das tais ditas actividades de orquestra que prometiam que as minhas férias fossem melhores. Não. Era suposto eu ser uma boa pessoa e ainda assim vir aqui falar que ri, e passei uma tarde fora de casa a tocar. Não sou capaz. As pessoas até agora têm-me visto com a imagem de rapariga boa, paciente, acertada, altruísta. Não sou. Portanto, eu fiquei como se tivesse levado porrada até descer... como chefe de naipe dos segundos violinos, quando as colegas melhorzinhas e com quem mais falava estão nos primeiros e eu estou limitada a aturar crianças. Abomino o lugar, abomino a parte de segundos daquelas músicas, abomino ter de estar a fazer harmonização em vez da melodia, detesto crianças. Eu não tenho capacidade de líder, nem capacidade pedagógica. Pelo amor do Karma, eu odeio crianças, eu não consigo dar-me com crianças, a não ser sendo tão falsa quanto uma boneca de plástico.

 

   Porquê? Porquê? O que é que eu fiz de mal para estar agora a levar com este mau karma todo? Bolas, eu já estou condenada a só sair deste buraco do mundo para Lisboa com muita sorte, porque não há como os meus pais me pagarem o curso, eu sei que muito provavelmente numa orquestra a sério não saio do último lugar dos segundos violinos, custava muito manter-me no lugar que eu já habitualmente ganhei? Ou vou ser despromovida muito em breve? Eu já não percebo nada, a única coisa que tenho feito é andar pela vontade, que até hoje me tem movido em frente. As coisas difíceis, por mais que eu choramingue, levam-me para a frente. A mal ou a bem, vou para a frente. Mas aquilo? Só me manda para trás, e cada vez mais para trás. Não sou capaz de ver o lado positivo disto. Não há lado positivo nisto.

 

   Lá está aquilo que receava sempre antes de uma coisa ainda melhor acontecer, o receio de cair. As quedas, aliadas à minha cabeça já nada segura, são catastróficas. Pensam que eu vejo isto com a mesma cabeça que eles, da mesma forma. Não. Eu vejo isto distorcido. Não devia, diz o psicólogo, não devia. Mas a verdade é que vejo. Não adianta nada todas as tentativas e pseudo-tentativas de tentar andar alegre com alguma coisa, mais dia menos dia gasta-se, evapora-se, regresso á realidade de pessoa mal amada e deslocada.

 

   A verdade é que agora tenho frustração. A verdade é que eu mais me valia ter ficado calada na minha. Não volto a falar com ninguém assim. A verdade é que volto para casa com a sensação que mais me valia ter ficado em casa a estudar do para lá ter ido.

 

   A verdade é que vou e vou calada.

Orquestrado por Violinista às 19:46
No momento, estou: Não quero falar com ninguém
Música do momento: Cantabile - Paganini
30 de Novembro de 2011

   Diz que as coisas estão melhores. Mas voltei àquela sensação de retardamento mental, emocional e musical ao lado de um piano.

 

   É sexta. Estou lentamente a entrar na espiral de decadência emocional que atinge o fundo no mais completo desespero e medo do que diachos vou eu fazer a armar-me em boa em frente de um público (que não inclui os meus pais, mas de quando em quando estou consciente que inclui pessoas que eu preferia que não me vissem a fazer tanta porcaria num compasso só).

 

   Uma peça a solo. Com cordas dobradas, e spicatos, e pizzicatos. O duo. Entradas que eu tenho de dar, atenção a manter e não a fugir.

 

   Se no ensaio marcado para mim chego lá a horas (e era suposto ele ter lá aparecido, mas não, nem deu ar de si, e eu não o fui chamar porque sei lá se está em aula ou não, ou quem sou eu para interromper alguma coisa), no ensaio a duo marcado para uma hora que eu tive dificuldade em lá chegar, e sem aquecimento nem nada, nem sei como é que não me enganei mais vezes, estava com os dedos engadanhados que até irritava.

 

   E acabo de ler uma que me diz que na próxima terça eu aqui não devo ter direito a jantar antes das nove. Ou sei lá de que hora. Uma que me diz que eu tenho de sair a correr de um lado para outro, à noite.

 

   Eu não queria que este ano fosse um reflexo do ano passado, mas não consigo. Mais uma vez, a carruagem vai a descarrilar para lá, e eu não quero. Eu não quero ver-me forçada a perder a minha vida por causa do meu mau relacionamento com as pessoas, mas eu já não estou a ver luz ao fundo do caminho. Em casa as coisas não vão bem, fora dela já não vai bem, eu estou a engolir tudo porque já percebi que não posso confiar em ninguém para me emprestar o ombro, quando tenho de dar o meu e fingir que está tudo bem, que gosto da minha condição e que estou de acordo com esta luta e com esta treta de estar a fazer algo que não quero só porque tem de ser. Está a perder o sentido, eu estou a perder o juízo, eu já não sei se ouço bem, se o que diabos é, eu tinha dito a mim mesma que não voltava a confiar e fui cair outra vez na esparrela. Eu não consigo mais. Eu não sei o que fazer mais. Eu não sei como ser sincera ali e não acabar a dizer alguma que alguém não queira ouvir.

   Eu gostava que as pessoas fossem sinceras, e sinceramente me dissessem: desculpa, mas não nos lembramos, nem nos queremos lembrar de ti, não estamos assim tão interessados em ti. Não és quem queremos. Dói. Mas ao menos que digam de uma vez.

 

   Eu só espero que ele não me faça arrepender ter-me ido embora das outras aulas. Porque não foi só um professor que eu perdi, foi um mestre, um amigo, um às vezes confidente. Coisa que ele não é.

 

   E agora há-de voltar a dizer que gosta de mim como aluna, porque eu, mais uma vez, não acredito.

 

   Mas porque é que eu não morri ainda?

Orquestrado por Violinista às 21:49
No momento, estou: Desesperada, é o termo
Música do momento: Em memória de uma camponesa assassinada - Carlos Paredes
22 de Novembro de 2011

   Lá no céu, o karma ou uma entidade dessas deve achar que só chove e bem quando eu saio de casa. Hoje levava guarda-chuva. Senão, era igual ao dia em que levei com granizo em cima (levei guarda-chuva por causa do violino, o guarda-chuva é para ele). Se fico em casa, não cai uma pinga.

 

   Ensaio com piano, e eu que já estava com tantas saudades dos ensaios com piano. Mais do mesmo, com uma peça que nem a vi na totalidade em aula: lá estou eu a comer tempos, a alargar tempos, a falhar as entradas (e isto a olhar para a fulana... na audição... é de costas!), um acorde desafinado que antes não estava, e aquela descida vertiginosa que eu tenho de ver aquilo porque... bem... segundo as palavras dela, ou eu decido o que quero fazer ali, ou não tem ponta por onde se lhe pegue. Mas de resto está bem.

   Não me convenço disso.

 

   Ouvi-o pela porta. Suponho que se estava a divertir. Pareceu-me que sim. E com isso demorei o passo por ali. Se por uma lado tive imensa vontade de perguntar, ora já que me parece estar lá sozinho e sem mais nada para fazer, podia dar ali uma ajudinha, uns conselhos. Mas o medo de fazer asneirada da grossa é grande, e a mão não tem sequer coragem de se descolar do corpo para bater à porta.

   Talvez para a próxima.

   Mas nunca é na próxima.

 

   O meu violino vai mudar de nome. Vou-lhe chamar Lestat, ou Drácula. À força de fazer os pizzicatos, abri um buraco no indicador direito de tal ordem que agora nem os consigo fazer, ou pelo menos não muitas vezes sem deixar um rasto de sangue nas cordas com pedacinhos de dedo lá agarrados, assim, numa visão não muito agradável de algo que era suposto ser tão bonitinho. Está-me cá a parecer que muitas vão continuar com o habitual "era o meu sonho tocar violino" como frase vazia, porque perder dedos nisto, ai não, não. Dói. Mas porque é que eu não escolhi uma coisa mais inofensiva?

   Bom, já percebi foi aquele lance do sangue, suor e lágrimas. Já não falta nenhum.

Orquestrado por Violinista às 23:32
No momento, estou: The pain...
Música do momento: Gymnopedie nº 1, orquestral - Satie
14 de Setembro de 2011

   Dejá vù do primeiro ano do conservatório: oh, nós gostávamos imenso de ter os horários como prometido hoje, mas a culpa é das escolas que ainda não nos deram os horários, e temos de organizar tudo. Ou seja, fui lá, pouquíssima gente numa reuniãozinha à qual não me dei ao trabalho de ficar lá muito mais tempo. E uma folhita meio improvisada para quinta-feira. Fui lá ver, o meu nome não aparecia em lado nenhum, nada das aulas de Formação Musical e classes de conjunto é melhor não se pensar nisso ainda, dispensada. Vejo na próxima semana.

   Aliás, depois de saber que tem o meu número de telemóvel e sabe muito bem como o usar, não vejo problema nenhum.

   E depois há esta universidadezinha que este ano resolveu dar início a aulas mais cedo, e assim arranjaram uma confusão tremenda com os horários, porque ao que parece os lindos horários que nós temos agora, e que eu fui entregar ao conservatório, vão mudar, sabe-se lá se para melhor ou pior, e quem dependia deles, está lixado com F grande. Tudo isto para acabarmos mais cedo (em Maio), porque aqui Mordor fica impraticável a partir de Junho.

 

   Esqueceram-se foi que Mordor em Setembro com um sol baixinho e venenoso, é impraticável para quem vai e volta a pé à tarde. Exactamente a mesmíssima coisa, ou ainda pior.

 

   Cheguei a casa e enfiei a cabeça no chuveiro de água fria.

Orquestrado por Violinista às 22:39
No momento, estou: Íssimo, íssimo cansaço.
Música do momento: Rhapsody in Blue - Gershwin
06 de Abril de 2011

   Era suposto que só a corda mi rebentasse. Mentira. A ré rebentou. Começou a fazer um ligeiro crepitar. E estalou. Mais uma vez eu a essa altura já tinha tirado o violino de perto da cara.

   Olhando bem para os restos mortais da corda, penso apenas que a ligação foi quebrada e posso aguardar agora pelo meu fim.

   Amanhã é a audição.

 

 

 

   A pilha de nervos, o medo. Eu toda sou medo. O grande demónio está cá dentro de mim, nunca saíu nem para dar um passeio. Está sentado em cima do meu peito a tomar chá.

 

   Eu estou num abismo e a corda à qual a minha mão a sangrar se segurava rompeu-se.

   Adeus, adeus, adeus, adeus. Adeus.

  

Orquestrado por Violinista às 21:46
No momento, estou: Amedrontada. Too much.
Música do momento: Luna - Moonspell
Palavras soltas: , , , ,

Violinista, C. S. L. Stradivaria. 19. Nº 5. Nº 13. Pseudo Violinista. Estudante. Nerd. Chapeleira. Vitoriana. Dandy Lolita. Incerta. Inconstante. Sonhadora. Inteligente. Invisível. Tímida. Imprevisível. Intelectual. Estranha. Deprimida. Lacrimosa. Egoísta. Respondona. Obcecada. Cínica. Anti-social. Teimosa. Orgulhosa. Calada. Perfeccionista. Louca. Baixinha. Ridícula. Original. Solilóquio em Celulóide. Violino. Música. Letras. Notas. Pautas. Relógios de Bolso. Cartolas. Magia. Paranormal. Roxo. Vermelho. Raposa. Coruja. Melro, Corvo e Pêga. Cisne. Pássaro de Fogo. Chocolate. Chuva. Quinta Dimensão. Submarino Amarelo. Petrushka. Viajante do Tempo. Extraterrestre. Fantasma.
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