Fantasma da Orquestra
Aquela figura negra que se senta no fundo da orquestra, o violino que se ouve ao longe na noite de espectáculo. Os bastidores da alma e do concerto que se leva nos ouvidos já bem depois de ter sido tocado. E treze fogos fátuos em cima da corda Lá.
01 de Fevereiro de 2012

   Telly e Isabel estavam sentadas num banco perto da sala. Era época das primeiras avaliações do semestre, e naquela sala realizavam-se as primeiras provas dos alunos de violino. Telly já tinha feito a sua, e achava que se saíra razoavelmente bem para quem fizera o seu primeiro teste ali. Tinha tido a oportunidade de ver como funcionavam as avaliações, e o que esperar de cada professor. Mesmo que quisesse fazer melhoria da nota por algum motivo, já sabia com o que contava. Era a vez de Rosa; estavam a ouvi-la através da frincha da porta, esperando que nem Milkstein, nem os outros dois professores a enervassem demais. Telly achava que ela se estava a sair bem. Dominava a técnica, e de quando em quando era capaz de uns trechos da melodia bastante belos, como se fosse capaz de cantar aquilo com alma. Aquela era Rosa, através do violino. Rosa, uma miríade de cores psicadélicas condensadas numa frase melódica, numa corda do seu violino.

   Ouviram o professor dizer-lhe alguma coisa que não perceberam, no final, e nem repararam que Jascha também estava por ali, a ouvir. Seguravam o coração na expectativa de saber se lhe tinha corrido bem, ou se a tinham de amparar depois de um fracasso. Se bem que, pelo que tinham ouvido, duvidavam que tivesse tido um resultado mau. Quando Rosa saiu, estava de cabeça baixa e mãos lívidas. Conheciam-na, e sabiam que ela não lidava bem com o stress. Antes que pudessem dizer-lhe qualquer coisa, a voz dele soou atrás das suas costas.

   – Parabéns, Rosa. Tocaste bem.

   Telly estava hirto a olhar para ele, Isabel não sabia o que fazer ou o que dizer. Conhecia a inimizade de Jascha e Telly, e sabia que Rosa mantinha algumas horas de estudo partilhadas com o outro. Eles os dois, porém, não sabiam disto. Telly pensava que o outro também implicava com a colega, e foi com alguma surpresa que viu que os modos dele para Rosa eram totalmente diferentes. Pior ainda, eram correspondidos, porque ela respondia-lhe com um pequeno sorriso sincero de agradecimento, após um curto silêncio de hesitação.

   – Obrigada.

   – Vocês falam-se? – Foi a única coisa que verbalizou no momento. Tinha estado tão ocupado a implicar com Jascha que não reparara que ele tinha desenvolvido uma atenção especial sobre ela, e não estava a gostar daquilo.

   – Telly… eu e o Jascha estudamos juntos, alguns dias. Era a maneira mais fácil de arranjar uma sala, isto está tudo cheio.

   Ficou a olhar para ela, sentindo o olhar do outro preso em si. Ela não parecia ter a noção das intenções que Jascha tinha, e se havia coisa que Telly tinha aprendido, era que o colega teria sempre segundas intenções em relação a tudo o que fazia. Não confiava nele, e custava-lhe ver Rosa a confiar nele. Por momentos pensou, horrorizado, se o outro não a quereria afastar dele, ou virá-la contra ele. Imaginava uma meia dúzia de situações desagradáveis, todas elas um tanto infantis e tolas, com um Jascha maquiavélico e de riso escarninho.

   – Não vejo qual é o problema. – Jascha disse, olhando para um canto qualquer no tecto.

   Nesse momento, os dois fixaram-se, nos olhos. Seria possível dizer que soltavam raios pelos olhos, já de tantas tensões mal resolvidas entre os dois. Aquela seria mais uma discussão acesa nos corredores, se não fosse a intervenção da colega.

   – Não vos percebo. Vocês ganhavam muito mais se parassem com essa embirração, e resolvessem, para variar, tratarem-se pelo menos como colegas. Já estou farta de vos ver a serem infantis, um porque diz que o outro é mau, o outro porque diz que o outro não o respeita.

   – Estás a sugerir que nós sejamos amigos? – Olhavam-na com uma cara retorcida, de dedos apontados um ao outro.

   – Sim. Em vez de continuarem a ser umas criancinhas birrentas à briga.

   Telly olhou para os seus próprios pés. Tinha de abrir os olhos, e apercebia-se que Rosa tinha alguma razão. Na maioria das vezes, já só embirrava com o outro sem um grande motivo, só porque ele era quem era e já era hábito implicar. Jascha também não falava, um tanto envergonhado. Não gostava de ser chamado uma criancinha, muito menos quando quem lhe chamava isso tinha razão. Não era muito de sua vontade chamar amigo a Telly. Mas sabia que era essa a jogada a fazer, se queria manter a amizade de Rosa por mais tempo.

   – Não é má ideia.

   Olharam-se ainda. Finalmente, com um aperto de mão, davam por terminados os desacatos no corredor, ou assim faziam aparentar. Não sabiam ainda, mas tinha muito em comum, mais até do que imaginavam. Bastava um bocado de confiança, e podiam, de facto, ser tão amigos quanto qualquer outro grupo de jovens que ali estudasse. Faltava-lhes uma tarde para se conhecerem melhor, e um bocado mais de cordialidade de ambas as partes.

   – Pronto, não é melhor assim?

   A primeira resposta ainda seria não. No entanto, depois de passarem no refeitório para comerem qualquer coisa, sentados numa das mesas, à qual se juntaram Sunako e Constança pouco depois, aperceberam-se que eram agora um grupo completo. Telly tinha agora um rapaz com quem medir a força, se necessário, ou escapar dos assuntos feministas de Constança. E Jascha, não falava, mas já sentia falta daquele calor humano que era ter um grupo de amigos. Olhou para Rosa. Ainda teria muito que lhe agradecer, um dia. Por ora, preferia olhar para ela ao seu lado na mesa, e perceber que ela suspirava de alívio, com os demónios psicológicos calados.

Orquestrado por Violinista às 22:33
No momento, estou: Nervosa
Música do momento: Tubular Bells em orquestra - Mike Oldfield
01 de Dezembro de 2011

   Rosa estava na Orquestra, e estava nervosa naquele, e em muitos outros dias. Era uma das classes que tinha de ter, e o professor Milkstein dissera-lhe logo que não havia problema. Mas isso não lhe apagava os nervos de estar rodeada de tanta gente, e com tanta gente melhor que ela que a estariam a avaliar. Ficara colocada numa das cadeiras da segunda estante dos segundos violinos, com boa visão do maestro. Telly estava perto, mas na segunda estante dos primeiros. Na disposição da orquestra ficavam quase lado a lado. Jascha, como era mais que óbvio, estava no lugar de mestre de concerto.

   Nos primeiros dias estivera mais nervosa. Durante alguns dias, anteriores àquele, ainda estivera chateada demais com eles para lhes falar. Contudo, depois da breve conversa, voltara à mesma personalidade com Telly, calma e mais calorosa. Assim, de quando em quando olhava para ele, sorriam com algum erro, ou faziam caretas. Jascha observava-os pelo canto do olho, sorrindo levemente sempre que ela metia a língua de fora e torcia a cara com um acorde mais abrupto. Ela, no fundo, ia começando a ganhar alguma confiança, aos poucos e poucos, e a desinibir-se naquele lugar.

   Aquele espaço, no fundo, representava mais do que uma orquestra para ela. Eram amigos e desconhecidos misturados com pessoas que não apreciava, era o melhor da música, por vezes com uma ou outra peça que não lhe fazia muito o género. Era uma forma de se superar a si mesma e, ao mesmo tempo, deixar que o seu som se fundisse agradavelmente com os outros. Havia uma certa sensação de união, e de fazer parte de algo mais grandioso.

   Naquele dia, quando todos saíam para o intervalo, Rosa deixou-se ficar para trás. Não lhe interessava sair para ir falar de banalidades com os outros, interessava-lhe estudar e não parecer tão má a tocar aquilo como se achava. Sentada no chão, de surdina, tocava, e nem deu pela presença de mais ninguém a observar, ou sem sequer olhar para ela. Sabia que lá mais ao fundo estaria o maestro à procura de algumas partituras. Não fazia a mínima ideia de ter alguém a espiar atrás de si.

   Quando regressaram do intervalo, agiu como se não se tivesse passado nada. Iam ver uma peça nova, pela quantidade de folhas que o maestro lhes entregava e pelo sorriso que tinha na cara. Já estava à espera de alguma coisa particularmente custosa, que depois o irritasse por ter de fazer tantas correcções. Deparou-se com a Gymnopédie nº1 arranjada para orquestra nas suas mãos. Piscou os olhos, entre o espanto e o nervosismo latente. Ao lado dela, Telly sorria, enigmático. Rosa olhou então em volta, e os seus olhos cruzaram-se com os de Jascha, cuja escuridão, habitualmente metamorfoseada num mar, era agora da doçura do chocolate, com um certo divertimento a olhar para a peça. E depois para ela. E nela, ele lia aquilo que sentia e não revelava, o sentimento que o pequeno fragmento de música lhe podia produzir e que era tão contraditório com a sua imagem.

   Mesmo depois do ensaio, e já passadas horas perdidas entre o caminho a pé para a residência, e o jantar solitário, ainda a música tinia nos seus ouvidos. Algumas partes, compassos isolados, repetiam-se nos seus ouvidos até à exaustão. Tanto que dava por si a cantarolar as notas para dentro de si. A orquestra inteira parecia que tinha encolhido até atingir um tamanho absurdamente minúsculo e entrado na sua cabeça, fazendo dela o novo lugar onde viveriam, e comeriam com ela quando ela comesse, sem pararem de tocar, nem para dormir. Por vezes ainda podia sentir alguma resistência nos membros, como se os braços estivessem sob controlo do maestro e aguardassem as suas ordens. De cada vez que os olhos se iludiam a ver mãos suspensas no seu campo de visão, segurava a respiração.

   Aquela música fazia-a ainda mais sentimental. Obrigava-a a ir buscar o frasco de chocolate e a comê-lo às colheradas, fazia-lhe os olhos ainda mais vidrados que as lentes, fixos em ponto algum. Olhou para o telemóvel, e ocorreu-lhe a vontade de telefonar para alguém. Matava essa vontade com o receio de não ser atendida, ou de incomodar esse alguém que já não tinha nome, nem sabia se existia. Só nessa hora, no quarto, pela ausência de tudo sentiu o lugar nas costas onde os olhos se cravaram na sua pele. Não sabia quem fora, mas sentia algo de diferente. Também não tinha lágrimas, havia música a escorrer corpo abaixo.

   Mandou as regras à fava, e resolveu tocar. Tinha de voltar a fazer e a ouvir aquilo, mais uma vez pelo menos. O sentimento que aquilo lhe dava era mais poderoso que qualquer chocolate no mundo. Queria-o. Precisava daquilo, quase tanto como de ar.

   Tocava violino. À sua volta erguia-se uma parede de tijolos brancos, a sua protecção activada contra o mundo. Rosa estava a começar a ficar assustada demais com todas as coisas, e a desistir de tentar confiar no cenário que tinha. Dentro da parede, estava segura, confortável, e sozinha. Mas quem precisava de coração, quando este já se estilhaçara tantas vezes?

   Não ouvira as pancadas na porta, de novo. Cada vez mais fortes, compassadas. O gato estava de novo à janela, os seus olhos sinistros a olhar. Ouviu-se, ao longe, o suave ronronar de um motor, vindo em fiapos como um nevoeiro. Sentia as entranhas a moverem-se como o intrincado mecanismo de um relógio quando ouviu um sussurro mesmo atrás das suas costas, exactamente na última nota prolongada no silêncio abstracto.

   – Está aí alguém?

Orquestrado por Violinista às 23:55
No momento, estou: Confusa
Música do momento: Hey You - Pink Floyd
27 de Outubro de 2011

   Rosa entrou no edifício com os headphones na cabeça, que eram uma maneira fácil de manter as orelhas quentes e a mente distraída de todas as pessoas que encontrava na rua e para as quais nem queria olhar. Parecia um dia normal. Não o era, porém, e isso já se podia notar pelo simples facto que a jovem estava vestida de preto da cabeça aos pés, na sua totalidade, além da caixa do violino, essa que de preto não mudara. Aquela cor, ou ausência de cor, sempre tivera uma certa grande predominância nela, porém era a primeira vez em que todas as peças de roupa que envergava eram totalmente pretas. Não era dia de concerto, nem havia, aparentemente, algum motivo conhecido para tal.

   Mais estranho ainda foi ver Telly cumprimentá-la, também ele vestido de preto da cabeça aos pés. Se em Rosa parecia ser apenas coisa de um dia, em Telly era caso para levantar as sobrancelhas, porque era a primeira vez que o rapaz se arranjava assim sem estar a um passo de subir a um palco.

   Foi Sunako, no corredor ao lado dela, que finalmente verbalizou a pergunta que, com certeza, já passara pela cabeça de muitos perante aquela imagem:

   – Mas isto hoje é dia de funeral?

   – Não. É um aniversário!

   E Rosa exibiu um sorriso sincero de quem não esta a ver a confusão gerada, para deixar a violoncelista e uma colega de flauta atónicas, especialmente a última.

   – Irra! Que aniversário mais deprimente.

   – É Paganini. E não é deprimente, é uma boa homenagem. – Rosa tinha agora o ar impaciente que reservava a quem a irritava demais por não a acompanhar nos seus raciocínios originais, quando uma Isabel se juntava a eles com uma expressão triunfante.

   – Está pronto! Terminei o desenho!

   Quatro cabeças juntaram-se sobre um retrato do violinista, enquanto a outra se ia embora a abanar a cabeça. Elogiaram Isabel pelo bonito trabalho, coisa a que ela respondeu humildemente, como quem está deveras surpreso e agraciado por ver o talento reconhecido. E era também Isabel a única que, além deles, sabia o segredo das roupas. Tudo começara com uma proposta de Rosa a Telly: já que era Paganini, que se vestissem de preto da cabeça aos pés tal como se dizia que ele fazia, que Isabel ouvira. E agora, para confirmar, estava ali a ver. E, pelos vistos, Rosa tinha levado a coisa ao extremo: incluía roupa interior preta. Sem grande pudor, conseguiu exibir uma alsa para mostrar. Telly, no entanto, estava relutante.

   – Nós somos quase tuas irmãs. Se não mostras, é porque não tens…

   Isabel resolveu a questão de uma forma muito simples. Deixou cair um lápis mesmo ao lado do rapaz que, prestável como era, se baixou para o apanhar. E nesse processo, desmascarou-se. Rosa, num tom fresco e calmo, comentou-lhe.

   – Perdeste. São aos quadrados brancos e azuis.

   – Rosa! Vá lá, eu tenho a certeza que nem o próprio usava roupa interior preta.

   – E o que é que te diz que ele sequer usava roupa interior?

   O grupo separou-se a rir à gargalhada. Rosa seguiu para uma das salas, com um pequeno sorriso que se desvanecia a cada passo que dava. Chegou à porta e, com os nós dos dedos trémulos, bateu. Ao contrário do que esperava, foi o professor Milkstein que lha abriu, com umas quantas pautas desalinhadas numa mão. Jascha olhava-a do outro canto da sala. Esse já não era novidade nenhuma encontrá-lo vestido de preto.

   – Entra, entra, ele já me contou o que andam a fazer…

   Não era uma aula, era um simples encontro casual de colegas. O que começou com uma sala de estudo partilhada numa tarde em que estava tudo cheio, evoluíra agora para um dia de encontro fixo, sempre na mesma sala, à mesma hora. E o professor estava lá fora de horário, no que parecia ser, pelas duas caixas abertas e a larga profusão de partituras espalhadas por cima do tampo do piano, uma sessão em que cada um tocava à vez. De nada lhe serviria ficar emudecida à porta. Num instante se juntava a eles, nada surpreendida por Jascha ter pensado no mesmo que ela e limitado a sessão musical do dia.

   – E pelos visto hoje isto é a nossa festa privada. Que sorte que passei por aqui logo hoje. Bom, onde é que íamos? Era a tua vez, Jascha.

   E o rapaz avançou prontamente para o centro da sala, sob o olhar dos dois, sem grande preocupação. Aquilo começou por ser ele sozinho a tocar o Carnaval de Veneza, só que depressa Rosa deixou de querer apenas ficar sentada a observar, ainda mais quando estava um bocaado nervosa com o que faria quando lhe chegasse a vez. Juntou-se a ele, e pouco tempo passou até que o mestre se juntasse aos alunos. Notavam-se algumas gafes pelo meio, que por vezes lhes davam vontade de rir. Rosa fazia caretas, Jascha franzia o cenho e Milkstein divertia-se como nunca a ver-lhes as caras.

   – Está bonito, está.

   Recomeçaram, mas a meio despistaram-se. À terceira vez foi de vez, e passaram o resto da tarde naquilo, com algumas outras peças da mesma autoria, sempre no mesmo tom leve; afinal, não era uma aula, mas estudavam. Já tarde, ouviu-se um Capricho nº 13 vindo de uma das malas. O telemóvel da Rosa. Só sairiam depois disto, quando já era noite, e eram os únicos no edifício.

   – Não sei se já te disse, mas adoro o teu toque de telemóvel.

Orquestrado por Violinista às 13:24
No momento, estou: Black
Música do momento: Carnaval de Veneza - Paganini
13 de Outubro de 2011

   Rosa já tinha reparado no número de vezes que Isabel virava a cara para o grupo de estudantes do terceiro ano do seu curso, que era estranhamente grande, focando especialmente um em particular. Félix, o primo da Constança. Félix, o artista plástico que desenhava cisnes nas traseiras dos livros de partituras da pianista, que ela um dia apresentara a Sunako e a Rosa. Dos cabelos castanhos também compridos, como poucos usavam lá, e olhos bondosos, muito escuros, por trás de um óculos permanentemente sujos. E Isabel dizia que ele era o melhor do curso inteiro. Haveria, algures na cabeça dela, um botão de admiração que Félix, de alguma forma que não se sabia bem como fora ou como funcionara, atingira. Não sabia há quanto tempo a amiga o conhecia de vista e o admirava, nem sabia o que lhe dizer face a tal coisa. Sabia que, no fundo, Isabel morria de medo de ele não gostar minimamente dela. O facto é que, naquele momento, iam a passar, a caminho do refeitório, e ele também.

   Num dia normal, Rosa tê-lo-ia ignorado como pessoa pouco conhecida contra quem não tinha mal algum. Se ele lhe falasse, podia cumprimentá-lo e falar-lhe normalmente. Só não queria ter a obrigação de iniciar ela mesma uma conversa, um defeito que muitos lhe apontavam e para o qual ela não mexia um dedo sequer para encontrar uma solução. Naquele dia, porém, Jascha também lá estava, e de conversa com o artista plástico, o que significava que, apesar da sua vontade de lhe apresentar Isabel, a vontade de desaparecer da frente do outro colega era ainda maior. Não era por estar descontente com a atitude dele há algum tempo, era por ter a plena noção de já não ter a melhor das imagens aos olhos dele. Partia do simples princípio de que a partir do momento em que a chamava e ela lhe virava as costas, as coisas estariam a correr mal. Muito mal, na sua cabeça. Porque, para começo da conversa, se sentia triste com isso, e nem queria desenterrar lá do fundo o motivo para essa tristeza.

   Do outro lado, porém, Jascha já as tinha visto entrar no refeitório, e com uma ligeira cotovelada, apontara-as ao amigo. Assim, Félix, que até ao momento estava a ter um dia ligeiramente enfadonho, no qual só conversara com os colegas para discutir os resultados de um dos muitos jogos online que despertavam o interesse na turma, e poucas ideias novas lhe vieram à cabeça, dia que só melhorara quando reencontrara Jascha, viu-se frente a frente com Rosa e uma das caloiras do seu curso. Cumprimentou-as como quem saudava a vinda de um disco voador à terra num domingo de Verão. E Rosa rapidamente lhe apresentou a colega, evitando olhar muito para o lado.

   – Esta é a Isabel. Não se conhecem ainda?

   – Bem, sou capaz de já a ter visto algumas vezes, mas não sabia o nome. Muito prazer, Isabel, eu sou o Félix.

   Isabel estava ligeiramente corada e atrapalhada, mas mesmo assim estendeu a mão e aceitou o cumprimento com um sorriso, que Rosa diria bonito. Desejou que as coisas corressem bem entre eles, porque Isabel era bonita, e uma jovem de bom coração. Não conhecia Félix muito bem ainda, mas não lhe via ainda defeitos.

   – E este aqui é o Jascha. Não sei se o conhecem, ele é… bastante mais velho. Mas também está em Violino, Rosa, no… último dos últimos anos? – Félix, então, não sabia de nada, enquanto o outro a olhava de alto a baixo.

   – Sim, nós já o conhecemos. Uma vez no corredor.

   Apesar do nervosismo, Isabel fora mais rápida e objectiva a desenvencilhar-se daquele problema. Só o tinha mesmo visto no dia da discussão, e assumia que Rosa também só o conhecesse desse dia. Ninguém, além de Telly, sabia que partilhavam o mesmo professor. E nenhum dos dois confessara, ainda, os esporádicos encontros em salas de estudo, em que ela se sentia enervada e constrangida por tocar mal e porcamente à frente de alguém bem melhor do que ela, e ele a observava com extremo interesse. No momento, ele reparava que ela estava a fechar-se na sua concha, ainda mais do que quando se enganava.

   – Apesar da ocasião não ter sido das melhores, eu não costumo ser assim.

   Falava mais para Rosa do que para Isabel. Não cumprimentava ninguém com apertos de mão, apenas com os olhos. Era a sua maneira de ser, segundo o que Isabel perceberia, uma maneira que os óculos não ajudavam muito a quem não conseguissem entendê-lo bem depois de alguma prática. Apercebia-se também que a troca de olhares entre ele e a amiga era bem mais complexa do que se poderia esperar de duas pessoas que só se tinham conhecido naquele corredor. Além dele ser uma personagem boa para desenhar.

   – Ora, desentendimentos nunca duram muito. – Félix adiantou, com um sorriso.

   – Então porque continua a implicar com o Telly? Não conseguem mesmo sequer passar no mesmo corredor que não comecem essas discussões idiotas?

   – Não é… nós não nos entendemos. É da nossa natureza não nos entendermos.

   – Ah… então é desprezo por quem não é como o senhor Jascha.

   Naquele instante, ele sentiu que tinha deitado tudo por terra. Pois então era assim que ela se sentia. Era por isso que estabelecera amizade com o outro, que parecia muito mais amigável, mais próximo dos alunos mais fracos. E era assim que ela se via. As roupas não muito luxuosas, e já um pouco gastas, os olhos cansados, o medo e os nervos constantes para tocar na perfeição.

   O que tornava tudo um tanto mais interessante. E o seu olhar prendia-se a ela.

Orquestrado por Violinista às 00:47
No momento, estou: Triste, apenas
Música do momento: Gymnopedie nº 1, versão orquestra - Satie
03 de Setembro de 2011

   As mãos dela, finas e pálidas, tacteavam o violoncelo junto ao seu corpo franzido com o frio, pacientemente. Sunako tinha uma calma quase imperturbável a olhar para a pauta demoradamente, e lentamente começando a traduzir o emaranhado de notas numa linha melodiosa e agradavelmente bela. Um pouco a sua maneira de estar no mundo. Apesar dos comentários, das discussões mais ou menos acesas em que se metia, a japonesa simplesmente tinha aquela aura de calma e solidez na terra que tão poucos tinham. Especialmente ali. E sabia que era invejada por isso, ainda mais em dias de exames e audições.

   O facto é que nem o movimento à porta da sala a distraiu. Quando a sua professora levantou os olhos do seu trabalho, deu de caras com um par de olhos a espreitar o interior, que rapidamente se afastaram. Era comum que um ou outro aluno olhasse para dentro das salas à espera de estarem vazias, ou para descobrirem se era ali que deveriam estar, e não só. Naquele caso, porém, fora mais que um simples olhar. Fora uma observação, uma admiração, a qual também, de alguma forma, comum. Geralmente, eram alunos de Artes Plásticas, ou Teatro, ou Literaturas, que depois se juntavam em grupinhos e espiavam. Ignoravam-nos.

   Sunako abraçava o violoncelo e a música subia num crescendo, notado na sua cara apenas pelos cantos dos lábios. Elegantemente sentada, o seu porte metamorfoseava-se no som grave e encorpado do instrumento de madeira escura que exalava um leve odor a violoncelo antigo e valioso. E um sorriso sereno desenhava-se-lhe nos lábios.

   A temperatura começava a descer. Mas ali dentro daquela sala, o calor de Sunako era o calor que irradiava do violoncelo, um pequeno sol escondido não se sabia bem aonde entre os efes marcados e a alma, lhe subia pelos dedos, pelas mãos, pelos braços, pelo corpo. Aquela boa sensação que todos os que ali estavam buscavam, o prazer singelo daquilo. Mesmo que depois fossem ouvir coisas menos boas da boca de alguém. A começar pela professora ao lado, que espetava um dedo na partitura, porque se esquecera completamente da mudança de tonalidade. Com paciência, recomeçou aquela linha, aquela frase específica, tomando mais atenção porque antes a tinha começado a perder, embalada pela música.

   Sunako sabia que a professora já tinha sido jovem e bela. As feições, agora sulcadas, antes tinham sido belas e joviais numa cara alegre. Vira fotografias. Sabia o que acontecera. O facto de estar a ter aulas com aquela senhora não era mera coincidência, a avó conhecera-a. E nos tempos de juventude, Heszter Fiodorovna, fora não só um espírito vivaz, mas uma violoncelista de valor inestimável. Até à doença corroê-la por dentro. Começara por perder o controlo no seu próprio corpo, e aos poucos e poucos o seu sorriso apagara-se da cara. Tornara-se, como costumava dizer, cinzenta. Mas Fiodorovna continuava ali. Um dia teve de se acordar com um par de estaladas na cara e dizer para si mesma que ainda estava ali, ainda vivia, ainda respirava, ainda tinha braços e mãos, e graças a Deus não era surda.

   – Olha aí. Então? Estavas a ir tão bem.

   Recomeçou. Fiodorovna gostava de Sunako. Era uma boa pessoa, e uma trabalhadora afincada. Já não se lembrava de algum dia lhe ter conhecido a avó. Se se recordasse, estaria a rir-se e a dizer que Sunako tinha a mesma esperteza da boa velhinha que, também nos seus melhores tempos, se empoleirava num alpendre para os concertos no jardim. Uma memória que seria uma fotografia em sépia de uma mulher de quarenta anos a olhar para uma moça de vinte e poucos anos a tocar violoncelo como ninguém.

   Memórias que o tempo se encarregava de varrer para trazer lugar a outras.

   O tempo da aula estava quase a chegar ao fim. Haviam mais anotações a fazer naquelas folhas, marcações para tomar atenção às mudanças, e evitar deslizar tanto com os dedos que aquilo não era nenhum ringue de patinagem, mudar algumas dedilhações para umas novas que parecem mais fáceis. Sunako fechou o violoncelo no estojo rígido com um autocolante de bordas rasgadas e uma imagem desmaiada da Torre Eiffel, e apertou o casaco contra o corpo. Lá fora, a dona do par de olhos e do perfume adocicado nos caracóis loiros já há um bocado que tinha descido as escadas e arrastado os olhares de quem a via, sem, contudo, esquecer o que vira.

   Com ligeiro acenar de cabeça e uma despedida curta e contida, Sunako saiu da sala, com vontade de beber um chocolate quente. Sabia bem o que ia fazer. Ia, se Rosa não estivesse com Milkstein, arrastá-la a ela e à Constança até à máquina de cafés e chocolates quentes, ao lado da infame máquina de vendas com chocolates e pacotes de batatas fritas. Para o habitual, três copos, um cappucino, uma meia de leite e um chocolate quente, e conversa à mistura.

   Fiodorovna olhava para ela e via nela parte do seu passado. Desejava que Sunako não cometesse os mesmos erros que ela. Contudo, não lhe fora dada autorização pela vida para a ensinar antes de tempo. Tinha, como todos, que esperar e ver.

Orquestrado por Violinista às 01:09
No momento, estou: Não sei.
Música do momento: Alice - Cocteau Twins

Violinista, C. S. L. Stradivaria. 19. Nº 5. Nº 13. Pseudo Violinista. Estudante. Nerd. Chapeleira. Vitoriana. Dandy Lolita. Incerta. Inconstante. Sonhadora. Inteligente. Invisível. Tímida. Imprevisível. Intelectual. Estranha. Deprimida. Lacrimosa. Egoísta. Respondona. Obcecada. Cínica. Anti-social. Teimosa. Orgulhosa. Calada. Perfeccionista. Louca. Baixinha. Ridícula. Original. Solilóquio em Celulóide. Violino. Música. Letras. Notas. Pautas. Relógios de Bolso. Cartolas. Magia. Paranormal. Roxo. Vermelho. Raposa. Coruja. Melro, Corvo e Pêga. Cisne. Pássaro de Fogo. Chocolate. Chuva. Quinta Dimensão. Submarino Amarelo. Petrushka. Viajante do Tempo. Extraterrestre. Fantasma.
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