Telly e Isabel estavam sentadas num banco perto da sala. Era época das primeiras avaliações do semestre, e naquela sala realizavam-se as primeiras provas dos alunos de violino. Telly já tinha feito a sua, e achava que se saíra razoavelmente bem para quem fizera o seu primeiro teste ali. Tinha tido a oportunidade de ver como funcionavam as avaliações, e o que esperar de cada professor. Mesmo que quisesse fazer melhoria da nota por algum motivo, já sabia com o que contava. Era a vez de Rosa; estavam a ouvi-la através da frincha da porta, esperando que nem Milkstein, nem os outros dois professores a enervassem demais. Telly achava que ela se estava a sair bem. Dominava a técnica, e de quando em quando era capaz de uns trechos da melodia bastante belos, como se fosse capaz de cantar aquilo com alma. Aquela era Rosa, através do violino. Rosa, uma miríade de cores psicadélicas condensadas numa frase melódica, numa corda do seu violino.
Ouviram o professor dizer-lhe alguma coisa que não perceberam, no final, e nem repararam que Jascha também estava por ali, a ouvir. Seguravam o coração na expectativa de saber se lhe tinha corrido bem, ou se a tinham de amparar depois de um fracasso. Se bem que, pelo que tinham ouvido, duvidavam que tivesse tido um resultado mau. Quando Rosa saiu, estava de cabeça baixa e mãos lívidas. Conheciam-na, e sabiam que ela não lidava bem com o stress. Antes que pudessem dizer-lhe qualquer coisa, a voz dele soou atrás das suas costas.
– Parabéns, Rosa. Tocaste bem.
Telly estava hirto a olhar para ele, Isabel não sabia o que fazer ou o que dizer. Conhecia a inimizade de Jascha e Telly, e sabia que Rosa mantinha algumas horas de estudo partilhadas com o outro. Eles os dois, porém, não sabiam disto. Telly pensava que o outro também implicava com a colega, e foi com alguma surpresa que viu que os modos dele para Rosa eram totalmente diferentes. Pior ainda, eram correspondidos, porque ela respondia-lhe com um pequeno sorriso sincero de agradecimento, após um curto silêncio de hesitação.
– Obrigada.
– Vocês falam-se? – Foi a única coisa que verbalizou no momento. Tinha estado tão ocupado a implicar com Jascha que não reparara que ele tinha desenvolvido uma atenção especial sobre ela, e não estava a gostar daquilo.
– Telly… eu e o Jascha estudamos juntos, alguns dias. Era a maneira mais fácil de arranjar uma sala, isto está tudo cheio.
Ficou a olhar para ela, sentindo o olhar do outro preso em si. Ela não parecia ter a noção das intenções que Jascha tinha, e se havia coisa que Telly tinha aprendido, era que o colega teria sempre segundas intenções em relação a tudo o que fazia. Não confiava nele, e custava-lhe ver Rosa a confiar nele. Por momentos pensou, horrorizado, se o outro não a quereria afastar dele, ou virá-la contra ele. Imaginava uma meia dúzia de situações desagradáveis, todas elas um tanto infantis e tolas, com um Jascha maquiavélico e de riso escarninho.
– Não vejo qual é o problema. – Jascha disse, olhando para um canto qualquer no tecto.
Nesse momento, os dois fixaram-se, nos olhos. Seria possível dizer que soltavam raios pelos olhos, já de tantas tensões mal resolvidas entre os dois. Aquela seria mais uma discussão acesa nos corredores, se não fosse a intervenção da colega.
– Não vos percebo. Vocês ganhavam muito mais se parassem com essa embirração, e resolvessem, para variar, tratarem-se pelo menos como colegas. Já estou farta de vos ver a serem infantis, um porque diz que o outro é mau, o outro porque diz que o outro não o respeita.
– Estás a sugerir que nós sejamos amigos? – Olhavam-na com uma cara retorcida, de dedos apontados um ao outro.
– Sim. Em vez de continuarem a ser umas criancinhas birrentas à briga.
Telly olhou para os seus próprios pés. Tinha de abrir os olhos, e apercebia-se que Rosa tinha alguma razão. Na maioria das vezes, já só embirrava com o outro sem um grande motivo, só porque ele era quem era e já era hábito implicar. Jascha também não falava, um tanto envergonhado. Não gostava de ser chamado uma criancinha, muito menos quando quem lhe chamava isso tinha razão. Não era muito de sua vontade chamar amigo a Telly. Mas sabia que era essa a jogada a fazer, se queria manter a amizade de Rosa por mais tempo.
– Não é má ideia.
Olharam-se ainda. Finalmente, com um aperto de mão, davam por terminados os desacatos no corredor, ou assim faziam aparentar. Não sabiam ainda, mas tinha muito em comum, mais até do que imaginavam. Bastava um bocado de confiança, e podiam, de facto, ser tão amigos quanto qualquer outro grupo de jovens que ali estudasse. Faltava-lhes uma tarde para se conhecerem melhor, e um bocado mais de cordialidade de ambas as partes.
– Pronto, não é melhor assim?
A primeira resposta ainda seria não. No entanto, depois de passarem no refeitório para comerem qualquer coisa, sentados numa das mesas, à qual se juntaram Sunako e Constança pouco depois, aperceberam-se que eram agora um grupo completo. Telly tinha agora um rapaz com quem medir a força, se necessário, ou escapar dos assuntos feministas de Constança. E Jascha, não falava, mas já sentia falta daquele calor humano que era ter um grupo de amigos. Olhou para Rosa. Ainda teria muito que lhe agradecer, um dia. Por ora, preferia olhar para ela ao seu lado na mesa, e perceber que ela suspirava de alívio, com os demónios psicológicos calados.



