Fantasma da Orquestra
Aquela figura negra que se senta no fundo da orquestra, o violino que se ouve ao longe na noite de espectáculo. Os bastidores da alma e do concerto que se leva nos ouvidos já bem depois de ter sido tocado. E treze fogos fátuos em cima da corda Lá.
10 de Fevereiro de 2012

   ~ Vamos tocar a Passacaglia mais vezes do que as outras. Lixei o dedo e acho que ainda vou ganhar aversão ao raio da peça. Quando no final nos disse que íamos ver a Passacaglia mais uma vez, em vez das que não tocámos, ou das outras, estive para chorar.

 

   ~ Corda Ré PI usada sei lá eu quanto tempo. Durou duas semanas. Bolas, pá, porque é que não nasci com conservador de cordas nos dedos? Ou mais financiamento para as comprar.

 

   ~ Ontem não tive aula, tive prova. Acho que passei, mas fui um desastre. Tremia tanto que me era difícil escrever. Ainda pensei que me dissesse alguma coisa, iludi-me completamente. Passa por mim e não me liga peva. E hoje, peva foi o que me ligou. Sou um fantasma. Bonito.

 

   ~ Odeio quando me dizem uma coisa, que eu achava que estava a fazer bem, me explicam aquilo de uma maneira que eu não percebo, passo uma semana a tentar mudar, para chegar lá e afinal fazia bem à primeira vez e não era daquela forma. Porra pá, odeio passar por estúpida duas vezes. Ainda por cima, nem o do lado percebeu bem e foi escrever o mesmo erro nas minhas folhas.

 

   ~ Uma certa pessoa resolveu partilhar um vídeo que me dá arrepios de pavor. Ele acha-lhe muita graça. Todos lhe acham muita graça. Eu só sei que desde então não acho que vá conseguir ficar fechada numa sala com ele e sozinha. Marquês Machiavel de Sade.

 

   ~ Quem é que quer ser meu namorado no dia 14 de Fevereiro, para comer chocolates comigo, ouvir-me a tocar e dizer-me que eu sou muito bonita e toco maravilhosamente bem (ou seja, eu procuro um guloso que seja pacato e saiba mentir com todos os dentes que tem na boca)? Por favor. Eu até vos pago. Só precisam de passar um dia comigo, dar uns abracitos de quando em quando, comer chocolate comigo (claro que são do vosso bolso), e mentirem para que eu fique contente por um dia? Vá lá. Não custa. Pelo amor de Deus, alguém faça isso.

 

   ~ Porque, como é que eu vos explico, eu gosto muito de uma pessoa que me odeia, gosta de outra e que é mázinha como as cobras, e queria não ter de pensar nisso durante o pior dia do ano, coisa que é uma tarefa muito árdua.

 

   ~ Não sei se rio, se choro.

 

   ~ Ia ficando sem arco.

 

   ~ Porra, fiquei sem uma aula de violino, no me gusta.

Orquestrado por Violinista às 23:34
No momento, estou: Sei lá, sei lá
Música do momento: At the craddle - Grieg
07 de Outubro de 2011

   Estou farta daquilo.

   Não quero que me perguntem como estou lá. Não quero. Já passou um ano e não escrevo nada aqui sobre aquilo, porque não quero, porque na maior parte das vezes me faz sentir mal, apesar de lá ter amigos, apesar de ser um edifício lindo, apesar de eu ter vontade de lá andar um dia, mas não desta forma, nesta forma. Às vezes pergunto-me, e se eu tentar fazê-lo para o ano, mas acho, com muita pena e muita certeza e muita mágoa, que não seria capaz.

   E agora vem-me esta treta de questão. O traje. Porra, duas pessoas (vá, só uma é que falava abertamente nisso) que se mostraram anti-praxe, naquele ano tinham prazer em ver aquilo, e tudo porque havia de ser coisa linda ver-me num traje. Eu sei lá se quero. Já disse que não estou lá bem. Mas agora tenho de ir a correr comprar aquilo, sendo que vão ser eles a pagar. Gosto do casaco, é um casaco de corte clássico e eu gosto de coisas assim. Gosto da camisa, é apenas e só uma camisa branca. Gosto da gravata. Nunca tive uma gravata. Aquela capa, assim assim, mas não lhe quero pôr emblemas que me recordem da minha situação actual. Não quero. Saia, nem pensar. E os sapatos são mundialmente reconhecidos como tortura ambulante. Tenho a certeza que o nome chinês daquilo traduzido para português no Google é "pequenas doses de tortura excruciante em pézinhos de senhora".

   E porque eu sou gorda, ou melhor, tenho o cu grande. E porque não há um número bom para mim nas lojas. E porque vou ter de mandar aquilo à tia para ajustar. E porque já não tenho muito tempo. E aquilo é para vestir a 1 de Novembro, só a 1 de Novembro, e depois? E depois desta andança toda, sabem que mais, ó académicos?

 

   O traje é caro, é uma confusão que me está a dar nervos, pode ser que daqui a alguns anos a vida finalmente tenha assentado, e eu, muito sinceramente, vou agarrar na saia e aventá-la sabe-se lá para onde, vou agarrar na capa e usá-la como cobertor, a camisa e o casaco e a gravata podem muito bem entrar num armário comum. Pois bem, que sou uma herege? E vocês uma cambada de ladrões, com um fetiche absurdo por ver gente a rolar na lama.

 

   Estou farta disto. Estou farta de chegar a casa e estar nisto, a discutir isto. Eu estou à espera do dia em que alguém repare que, para além das calças rotas, sapatos rotos e mala quase rota, a minha cara também está rota e farta. É que nisso, ninguém repara, e continua toda a gente a agir como se estivesse tudo muito bem. Pois bem, não quero falar.

Orquestrado por Violinista às 21:12
No momento, estou: Farta.
Música do momento: As músicas da orquestra, porque acabei de chegar de lá
09 de Abril de 2011

   É sair de casa e estar já um belo de um sol que me queima. Ter imenso para andar e estar este calor, a vontade de ter litradas de água ao lado de uma maneira absurda agora apetecível. Eu bebo pouca água. Chega a esta altura, não me aguento. As roupas que tenho para este tempo, francamente, nem me seduzem. Quero as minhas camisas, os meus casacos pretos, as minhas blusas de malhas de padrões.

   E depois esta comichão, no céu da boca, nos olhos e por dentro dos ouvidos. Espirrar vezes sem conta. Irritam-me estas alergias tamanhas. Bem me lembro do da em que as descobrimos, no meio de tantas crises de falta de ar, um braço esquerdo cheio de picadas e gotinhas que vinham de plantas e plantinhas, florzinhas e gramínias e as primas destas, braço esse que inchou como um balão.

 

   Primavera, só és bonita nos concertos de Vivaldi, e mesmo assim o meu preferido é o Inverno. Especialmente o último andamento. Oh, volta, Inverno. Volta. Se isto é o calor da Primavera, no Verão andaremos nus, e esta será a cidade dos desnudados. Ou o próximo grande deserto. Que morram o raio das plantas.

 

   Além disso não gosto de estar de férias do conservatório.

Orquestrado por Violinista às 23:16
No momento, estou: Cheia de comichão.
Música do momento: Adagio do 1º concerto de Brandenburgo - Bach
23 de Novembro de 2010

   Aos caríssimos automobilistas portugueses que quando vêem chuva a cair a potes num dia nublado, de manhã, acham que é a altura ideal para fazer rali de tal forma que todos se sentem como se estivessem num Ferrari, a disputar o tudo por tudo numa corrida renhida a trezentos à hora, bem chegados à direita como bem manda o código: eu tomo duche em casa, obrigada pela vossa preciosa ajuda.

   Levar com ondas de água e lama mais altas que o corpo e o guarda-chuva não é de forma alguma a minha ideia de uma excelente manhã. Esclarecemos já aqui isto. E o facto de eu ir a ouvir a Primavera do Vivaldi também não serve, nem para abstrair, nem para usar como desculpa para me lembrar o belo dia que está.

   Por favor, quinta-feira não façam isso. Ou então vão repetir a gracinha lá para outro lado, para perto das vossas casas e famílias, se fazem favor. Reguem-nos a eles.

 

   Outra coisa: não é estranho que só depois de eu ter viciado naquela precisa peça, e ter varrido o youtube a ouvir tudo o quanto era vídeo, que agora é que meteram um vídeo dela no blog? Bem, mas também não me queixo.

 

   Um último à parte: eu estou muito feliz por ti, estou. Muito contente. Só, por favor, não me peças para andar muito nisso, que também não é a minha nóia.

Orquestrado por Violinista às 13:56
No momento, estou: Encharcada até à alma.
Música do momento: Intermezzo, Cavalleria Rusticana - Mascagni
07 de Novembro de 2010

   Não gosto de quando isto me acontece, deixa-me um sentimento forçado, que sabe a metal velho na boca, e a grilhetas pelos pés. Se eu soubesse, tinha refeito o horário de outra forma. Como eu não consigo ser sincera de outra forma, e já que por aqui não há berros ou interrupções, deixem-me dizer que sim, é normal estudar, sim, quem está de facto interessado, e há gente assim que eu sei, faz mais ainda do que eu. E não me venham obrigar a não ficar como estou, porque não, não vão mandar no que sinto. Eu ainda sou humana.

   E de nada vale a pena virem amigos a dizerem-me que tenho de relaxar, viver o presente, que ainda é Novembro. Pois é, é Novembro. E dia 28? Está por um fio outra vez na minha cabeça. Novembro, Dezembro. Parece que é muito, o suficiente, mas, na verdade, não é nada (que o diga a publicidade... não é, consumismo natalício?). Eu não sou, nem nunca fui, Hakuna Matata. Fui sempre mais preocupada, vê lá, olha os gastos desnecessários, não fumes, não percas o copo ou as tuas coisas de vista, não te embebedes, não fales com estranhos, não andes sozinha quando o sol perde a confiança, estuda.

 

   Agora estou com uma vontade absurda de tocar. Forcei-me a saber o Concertino de cor, sem papel, e por mim não parava até não ter falha nenhuma. São, com a Air Varié do Dancla, oito páginas para enfiar e manter na cabeça.

   Esta semana vai ser péssima, porque este fim de semana foi péssimo, e se não faço nada de jeito ao fim de semana, dificilmente o faço durante a semana. Além disso, devia ter falado com a professora já-não-me-lembro-qual-era-o-nome, por causa dos supostos ensaios. Não fiz. Este impasse dura à semanas. Vai reclamar, até aposto. A não ser que se esqueça disto também.

Orquestrado por Violinista às 21:25
No momento, estou: Pior que estragada
Música do momento: La Valse d'Amelie - Yann Tiersen

Violinista, C. S. L. Stradivaria. 19. Nº 5. Nº 13. Pseudo Violinista. Estudante. Nerd. Chapeleira. Vitoriana. Dandy Lolita. Incerta. Inconstante. Sonhadora. Inteligente. Invisível. Tímida. Imprevisível. Intelectual. Estranha. Deprimida. Lacrimosa. Egoísta. Respondona. Obcecada. Cínica. Anti-social. Teimosa. Orgulhosa. Calada. Perfeccionista. Louca. Baixinha. Ridícula. Original. Solilóquio em Celulóide. Violino. Música. Letras. Notas. Pautas. Relógios de Bolso. Cartolas. Magia. Paranormal. Roxo. Vermelho. Raposa. Coruja. Melro, Corvo e Pêga. Cisne. Pássaro de Fogo. Chocolate. Chuva. Quinta Dimensão. Submarino Amarelo. Petrushka. Viajante do Tempo. Extraterrestre. Fantasma.
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