Fantasma da Orquestra
Aquela figura negra que se senta no fundo da orquestra, o violino que se ouve ao longe na noite de espectáculo. Os bastidores da alma e do concerto que se leva nos ouvidos já bem depois de ter sido tocado. E treze fogos fátuos em cima da corda Lá.
11 de Agosto de 2011

   Vim de uma volta dos tristes ao Cabo Espichel e a Sesimbra, em que vi muito pouco (resumo: toneladas de fotografias de uma falésia), em que passámos pelo mui original Jumbo Coina, roubaram-me a minha sandes, e basicamente o passeio foi assim meio triste por causa de umas finesses que foram levar duas horas e meia a enfardar vinte quilos de peixe, e o autocarro onde se não me engano, passou cerca de vinte ou trinta vezes a mesma música "lamengosa" (vamos ser francos, era um cd de um certo cantor lamechas que as cinquentonas adoram num horrível looping contínuo). E infelizmente o concerto de violino de Tchaikovsky não era alto o suficiente para o abafar porque os fones estão a cair de podres.

 

   Cheguei. E numa hora vim-me abaixo outra vez naquela tristeza extrema de me achar uma grande e real porcaria. Um sem nada de talento nas unhas. Todos os meses a mesma coisa. Chega a um ponto em que eu não aguento e desato a chorar por qualquer motivo. Como eu ando num acumular de coisas dentro sem eventualmente ter alguém a quem falar e que seja uma pessoa que de facto ajude, é um vomitar consecutivo de medos.

 

   E agora é uma da manhã e eu estou a tentar praticar vibrato em silêncio. Porque eu sei que está muito mau, nunca o fiz correctamente/como deve ser, aliás, um dia vou apagar todas aquelas gravações horríveis ali do lado porque eu toco muito mal.

 

   Mas eu não quero tocar mal e isso está outra vez a matar-me por dentro. Ninguém percebe. Não é uma coisa que eu vá desistir assim, já disse e repito que já não me interessa a vida, e se bem calha as pessoas que por cá andam, e também ninguém convenientemente me sabe dizer se eu tenho talento ou não. Logo, não devo ter. Porra.

 

   Sei que já me recomendaram ir a um endocrinologista.

Orquestrado por Violinista às 00:58
No momento, estou: I suuuuck.
Música do momento: Concerto para violino de Tchaikovsky
18 de Junho de 2011

   Engraçado que mais uma vez é no teste final de Formação Musical que tiro nota máxima (100%), o supostamente mais difícil (bom, na verdade, nem tanto mesmo). Engraçado que a coisa em geral até correu bem. As audições de conjuntos, a aula que nem parecia uma aula.

   Engraçado que aquela gente, que eu já esperava não me falar, que combinam almoços e festas e eu nem sei da missa a metade, lá me resolveram incluir na surpresa de dia 24. E não houve repostas tortas em lado nenhum, mas nós também já somos umas mestras a portar máscaras. E eu estava de saia (ago estranho, saia longa e um top rendado a dar para o gótico), portanto, comentários de que eu estava bonita (nem por isso) e que devia ir assim mais vezes (não, calças, calças) anderam por lá de mãos dadas.

 

   Seria um belo dia.

   Mas sua excelência não me falou. Aventou-me a ficha de avaliação do docente (ele mesmíssimo), disse-me que a tinha de dar à outra professora, e nada de nada. Repôr a aula? Não sei como, não sei quando. Dizem-me que passou mais de metade de uma aula a falar de mim, e devo imaginar que apenas mal, mal e mal. Mas não foi capaz de me dizer nada. Não sei a porcaria da nota, e não sei o que vou fazer na sexta feira, tocar sozinha a esmo, tresmalhada, sem indicações, não vou, não consigo.

   De que me serve que fale de mim, que nas aulas me diga coisas que se calhar até me agradam ouvir, se agora tudo me sabe a mentira na boca e não é capaz de olhar para mim e falar comigo fora da sala?

   Estúpida que eu sou. Preenchi a dita ficha com excelente nota para sua excelência. Quando bem sei que se diverte a ver-me quase em choro e a tocar caca.

   Vale a pena continuar no próximo ano? Se a única pessoa que eu pensava que me poderia ajudar, me odeia?

Orquestrado por Violinista às 22:30
No momento, estou: Confusa
Música do momento: Palladio - Jenkins
16 de Junho de 2011

   Era suposto eu hoje ter sofrido a saber a nota do exame, e o trabalho que terei pela frente nas férias, tentar adivinhar do meio de uma enxurrada de partituras que com certeza me farão chorar qual aquela que está marcada para ser a escolhida no próximo Setembro. Não. Um minuto antes da hora de me ir forçar a preparar para fazer caminho, telefonam-me a informar que sua excelência não vem à aula, que era, só assim por acaso, a última aula que eu teria porque na próxima semana há um estúpido de um feriado na quinta, mas "logo à tarde vem e depois combinam". Tive vontade de afogar o telemóvel na sanita.

   De tarde, a torcer-me e contorcer-me de dores, fui lá por causa do raio da audição dos miúdos. Acontece que a confusão estava instalada, não havia cadeiras para todos, eu não tenho as estúpidas das partituras de acompanhamento de músicas tão excitantes como A Estrelinha e Allegro e o raio que parta, cega de dores, não o vi. Como o telemóvel ficou sem bateria, e sabia lá eu a que horas terminaria o dito suplício, depois desta semana que, sinceramente, quero falar com alguém de confiança, quero abraçar e chorar muito, chorar rios, chorar imenso e deitar tudo cá para fora, prezando mais a aula do P do que outra coisa, agarrei nas minhas tralhas e fui-me embora.

   A orquestra, já percebi, é uma autêntica panelinha que lá está entre uns quantos, panelinha essa à qual eu não pertenço. Eu sei, aprendi à minha custa no ano passado, que sair de lá sem tocar só é frustração para mim e mais ninguém. Pois bem, não sentiram a minha falta e eu que viva com isso.

   Não falei nada com ninguém. Ninguém me tentou contactar. Das duas uma: ou ele delega essa tarefa para ela, que me ligue e diga qualquer coisa, pouco provável, ou o mais provável é ele ignorar. E se ignorar e não repôr a aula, eu não vou tocar a solo na audição de 24 de Junho porque: um, não toco bem e agora sim, a minha confiança levou uma machadada das grossas, dois, assim não, eu assim recuso-me a tentar dar-me com pessoas que parece que têm gosto especial em ignorar-me, e faltar precisamente às minhas aulas. Se vou sentir-me uma merda? Vou. Mas eu automaticamente já me sinto mal. Eu sei lá se ele ia falar comigo. Na verdade, não lhe pus a vista em cima e duvido que isso fosse acontecer.

   Bem, é mentira. Vi-o por cinco minutos à distância. O equivalente a duas pessoas de dois lados de uma rua sem se olharem quase.

 

   Sábado é Audição Geral. Penso que vá a essa, sei bem o que lá vão tocar, o Palladio que já detestei por tocar a parte de baixo toda e agora gosto um bocado mais por fazer aquela parte das semicolcheias de cima, o estúpido do Plink Plank Plunk que simplesmente abomino tocar daquela maneira, guitarradas nunca me seduziram, e o Alla Rustica. Não sei se Sábado ele me fala. Se falasse era bom. Se falasse de manhã, e não à saída da audição que mal o vejo, era muito bom. Se repôsse a aula, era uma maravilha, e eu iria tocar o Bach a solo (avec le piano de acompanhamento de novo, possivelmente melhor desta vez...)

   No entanto, já desconfio que não.

 

   Isto agora faz-me questionar. Já não tenho ninguém para falar, já que pelos vistos andam todos muito fartos de mim. Mas, que se lixe, o blog é meu. Sou a ovelha negra da família, e agora então a doente mentirosa compulsiva desacreditada e solitária. Porquê? Porque persigo o meu sonho. Como outros perseguem os seus sonhos e lutam imenso, e conseguem, eu devo estar a fazer alguma coisa errada, porque me sinto presa e mal, e não consigo. A ajudar tenho o facto de me achar a pior pessoa do mundo, que toco mal e ranhosamente, para confirmar tenho um excelentíssimo professor que já me desfalcou este ano em três aulas às quais só falta quando é a minha hora, que provavelmente não vai repôr a aula, que me pôs a tocar a parte reles de baixo de uma música de orquestra, fiz merda na última audição a solo, fiz merda no exame, rodeada de gente que não é capaz de falar comigo. Neste momento eu tenho vontade de vomitar emocionalmente, e não tenho confiança em ninguém para o fazer. Queria telefonar ao meu padrinho e chorar uma tarde inteira, mas não sei se posso.

   Em suma, mea culpa. Eu sou um monstro, literalmente.

 

   Mas, com muita sinceridade, senhor, depois não venha por a mão no ombro e dizer que você é que sabe, e esperar que eu acredite. Muito menos se depois me vier esfregar o erro trinta mil vezes na cara como me andou a fazer. Gostou de me ver a baixar a cabeça e tudo, foi? Pois agora pode dizer trinta mil vezes que eu toco bem porque eu não acredito.

 

   No meio disto tudo, estou outra vez numa crise existencial, refaço a matrícula, ou corto os pulsos? Eu explico muito explicadinho para as pessoas que ainda não perceberam bem, eu não me importa a vossa opinião, eu nem gosto lá muito de pessoas, eu não me interessa viver sem o violino, nem me interessa fazer outras coisas para andar contrariada e prensada por opiniões alheias.

 

   PS: Acabei agora de saber que pelos vistos vou apanhar um sermão dos grandes, porque "estava só a falar de mim no final da dita audição". Porquê? Leio isto e fico com cara de quem leva com um tacho pesado nas ventas. Estou com a ligeira e agoirenta sensação que Sábado eu estou lixada com F grande. Muito lixada. Terrivelmente lixada. Mas ao menos já sei que dê lá por onde der, ainda me há de falar neste restinho de ano, nem que seja para me tentar ferrar uma estalada nas fuças.

Orquestrado por Violinista às 22:21
No momento, estou: À lá merde!
Música do momento: Prelude 2 - Dustin O'Halloran
20 de Abril de 2011

   Julgo ouvir coisas, e viro a cabeça para não as encontrar em lado nenhum. Por vezes tem graça andar descalço e a imaginar que há o que falta na vida, como uma banda sonora no fundo e as três letras da esperada palavra a aparecerem nalgum lado à nossa frente, numa imagem congelada como uma fotografia.

   E na maioria das vezes só resta a sensação de falsa solidão. De estar sozinho e estar demasiado acompanhado ao mesmo tempo.

   Engraçado, ou com pouca graça, é que sempre que entro de férias, engripo. E ando dois dias com mal estar no corpo, garganta inchada e nariz transformado numa fornalha ácida. Isto é que deve ser uma doença com sentido de oportunidade aguçado. Por um lado, não me queixo. Não chateia assim tanto.

   Mas estou lentamente a regressar àqueles dias. A boca já me sabe a cinzas, as paredes estão cinza, os olhos das pessoas são cinzas acesas, a poeira que voa e me agride a cara é de cinza. A apatia sobe lenta. Não quero voltar a sentir o que senti naqueles dias. Só que eu não sei já o que sinto.

   Nada. Nada de nada. Está tudo a começar a escorrer, líquido viscoso, pelas paredes.

   Inspiro fundo.

   Deito-me.

Orquestrado por Violinista às 22:38
No momento, estou: ... ... ...
Música do momento: Prelude 2 - Dustin O'Halloran
18 de Dezembro de 2010

   Tivesse tudo corrido mal, e eu mal. E teria tudo um fim. Tivesse corrido tudo bem, então eu estaria bem. Mas não, isso já nunca acontece comigo. As coisas nunca são assim. São mais como ondas, e se eu me levanto lá vem outra que me arrasta.

   Cheguei lá e nada de ensaio. Não. Estivemos antes a assistir aos outros, incluíndo um dos coros articulados com a escola cujo professor e regente já ganhou a fama de manipulador, egoísta e megalómano. Pelos outros professores. De tal maneira que já circulava por lá que aquelas nove músicas cantadas, que duraram meia hora ou mais, foram uma seca. E nós sentados nos camarotes a ouvir aquilo. Posso dizer que o momento alto foi quando, antes de começarem, um menino pequenino, da assistência, gritar "Ele disse cocó!", e, depois, a meio, lá berra ele "Mano!".

   E nós ríamos. A J fazia de maestrina de coro para gozar. Sabe aquelas músicas todas. Mesmo que, tal como eu, já não tenha coro.

   Fomo-nos arranjar. E ainda me ofereceram bolos, e queques e tudo o mais, de forma a que eu comi e comi. Se eu ficar ainda mais lontra do que já sou, já sei a quem ir bater à porta a agradecer. Só encontrei a Kat e a Persa nos bastidores, e são ambas do coro dos mais novos. A Kat chama-me "as minhas ricas cábulas", ou pior, "Cábulas com pernas".

   No meio da confusão, perdi o telemóvel. Tivemos um ensaio de cinco minutos que mal deu para ver o que quer que fosse de muito jeito.

   Descobri, numa conversa e da pior maneira possível, que o professor da única disciplina da qual eu estava a gostar mais nas aulas da universidade, que é íncrivel e estupendamente exigente e todos dizem isso, é pai do Génio. Oh, bestial. O resto da conversa, aliada à minha crescente preocupação, foi um peso de todo o tamanho no estômago.

   No entanto, e apesar de tudo, a actuação foi bem. Disseram isso. Eu é que me vi a pior de todos. A maior porcaria.

   Encontrei o telemóvel, pelo que não houve assim nada de extraordinariamente grave. O facto de eu estar assim, ou ficar assim, já não é novidade. Eu ontem estava à beira do choro a falar com a Sarah.

   Sinto-me mal. Quero correr para um lado em que não esteja mal e não consigo. Eu já não sei quem sou, para onde vou, e não gosto disto, não gosto de não me conhecer, de não ter controlo em quem sou. Também não gosto da forma como me vêem. Erram. As pessoas julgam que me conhecem e erram. Não, eu não sou assim, eu não sou isso. Juro que por dentro sou menos do que estão aí a dizer.

   Talvez a única palavra que exista para mim seja negação. Anulação. Cada vez menos me sinto a viver, ou sequer a existir. Eu não posso ter gostos. Eu não tenho nada.

   O meu pior inferno era exactamente aquele que aparecia no filme do Pateta. Um lugar branco, só branco, completamente branco, sem nada, e eu lá. Se ao menos fosse preto, e eu me pudesse apagar. Mas, não, é branco e cega os olhos.

   O grande problema das conversas, é que há coisas que eu preferia não saber. Eu não queria saber disso, obrigada. Revelam também o grande poço que há entre mim e as pessoas, e as dificuldades que eu tenho em falar sem levar esta máscara. Sim, é verdade. Eu sou uma pessoa que não tem os gostos musicais que vocês pensam. Sim, eu gosto de erudita, e do período da música clássica, romântica, e mais dessas, do que o que há agora. Eu não gosto de quase nenhuma banda contemporânea, a não ser que andem próximo do symphonic metal. E eu sei o que sinto.

   Ou sentia. Agora, já não sei o que sentir, mais do que apenas que não sou capaz.

   Não sou capaz. Não sou capaz. Não sou capaz. Eu perdi a batalha, e está tudo a terminar para mim. Mesmo sendo o que mais sonhei. Mesmo preferindo morrer enquanto durmo a acordar e voltar ao que era antes, sem. É o que eu gosto. E isso implica tantas coisas que trago cá dentro e que simplesmente não sei explicar. Não sei se alguém nasce com isso, ou se vem de algum lado.

   Hoje, simplesmente, sinto-me negada a ser eu.

Orquestrado por Violinista às 19:54
No momento, estou: Eu não sei.
Música do momento: Intermezzo, Cavalaria Rusticana - Mascagni

Violinista, C. S. L. Stradivaria. 19. Nº 5. Nº 13. Pseudo Violinista. Estudante. Nerd. Chapeleira. Vitoriana. Dandy Lolita. Incerta. Inconstante. Sonhadora. Inteligente. Invisível. Tímida. Imprevisível. Intelectual. Estranha. Deprimida. Lacrimosa. Egoísta. Respondona. Obcecada. Cínica. Anti-social. Teimosa. Orgulhosa. Calada. Perfeccionista. Louca. Baixinha. Ridícula. Original. Solilóquio em Celulóide. Violino. Música. Letras. Notas. Pautas. Relógios de Bolso. Cartolas. Magia. Paranormal. Roxo. Vermelho. Raposa. Coruja. Melro, Corvo e Pêga. Cisne. Pássaro de Fogo. Chocolate. Chuva. Quinta Dimensão. Submarino Amarelo. Petrushka. Viajante do Tempo. Extraterrestre. Fantasma.
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