Era suposto eu hoje ter sofrido a saber a nota do exame, e o trabalho que terei pela frente nas férias, tentar adivinhar do meio de uma enxurrada de partituras que com certeza me farão chorar qual aquela que está marcada para ser a escolhida no próximo Setembro. Não. Um minuto antes da hora de me ir forçar a preparar para fazer caminho, telefonam-me a informar que sua excelência não vem à aula, que era, só assim por acaso, a última aula que eu teria porque na próxima semana há um estúpido de um feriado na quinta, mas "logo à tarde vem e depois combinam". Tive vontade de afogar o telemóvel na sanita.
De tarde, a torcer-me e contorcer-me de dores, fui lá por causa do raio da audição dos miúdos. Acontece que a confusão estava instalada, não havia cadeiras para todos, eu não tenho as estúpidas das partituras de acompanhamento de músicas tão excitantes como A Estrelinha e Allegro e o raio que parta, cega de dores, não o vi. Como o telemóvel ficou sem bateria, e sabia lá eu a que horas terminaria o dito suplício, depois desta semana que, sinceramente, quero falar com alguém de confiança, quero abraçar e chorar muito, chorar rios, chorar imenso e deitar tudo cá para fora, prezando mais a aula do P do que outra coisa, agarrei nas minhas tralhas e fui-me embora.
A orquestra, já percebi, é uma autêntica panelinha que lá está entre uns quantos, panelinha essa à qual eu não pertenço. Eu sei, aprendi à minha custa no ano passado, que sair de lá sem tocar só é frustração para mim e mais ninguém. Pois bem, não sentiram a minha falta e eu que viva com isso.
Não falei nada com ninguém. Ninguém me tentou contactar. Das duas uma: ou ele delega essa tarefa para ela, que me ligue e diga qualquer coisa, pouco provável, ou o mais provável é ele ignorar. E se ignorar e não repôr a aula, eu não vou tocar a solo na audição de 24 de Junho porque: um, não toco bem e agora sim, a minha confiança levou uma machadada das grossas, dois, assim não, eu assim recuso-me a tentar dar-me com pessoas que parece que têm gosto especial em ignorar-me, e faltar precisamente às minhas aulas. Se vou sentir-me uma merda? Vou. Mas eu automaticamente já me sinto mal. Eu sei lá se ele ia falar comigo. Na verdade, não lhe pus a vista em cima e duvido que isso fosse acontecer.
Bem, é mentira. Vi-o por cinco minutos à distância. O equivalente a duas pessoas de dois lados de uma rua sem se olharem quase.
Sábado é Audição Geral. Penso que vá a essa, sei bem o que lá vão tocar, o Palladio que já detestei por tocar a parte de baixo toda e agora gosto um bocado mais por fazer aquela parte das semicolcheias de cima, o estúpido do Plink Plank Plunk que simplesmente abomino tocar daquela maneira, guitarradas nunca me seduziram, e o Alla Rustica. Não sei se Sábado ele me fala. Se falasse era bom. Se falasse de manhã, e não à saída da audição que mal o vejo, era muito bom. Se repôsse a aula, era uma maravilha, e eu iria tocar o Bach a solo (avec le piano de acompanhamento de novo, possivelmente melhor desta vez...)
No entanto, já desconfio que não.
Isto agora faz-me questionar. Já não tenho ninguém para falar, já que pelos vistos andam todos muito fartos de mim. Mas, que se lixe, o blog é meu. Sou a ovelha negra da família, e agora então a doente mentirosa compulsiva desacreditada e solitária. Porquê? Porque persigo o meu sonho. Como outros perseguem os seus sonhos e lutam imenso, e conseguem, eu devo estar a fazer alguma coisa errada, porque me sinto presa e mal, e não consigo. A ajudar tenho o facto de me achar a pior pessoa do mundo, que toco mal e ranhosamente, para confirmar tenho um excelentíssimo professor que já me desfalcou este ano em três aulas às quais só falta quando é a minha hora, que provavelmente não vai repôr a aula, que me pôs a tocar a parte reles de baixo de uma música de orquestra, fiz merda na última audição a solo, fiz merda no exame, rodeada de gente que não é capaz de falar comigo. Neste momento eu tenho vontade de vomitar emocionalmente, e não tenho confiança em ninguém para o fazer. Queria telefonar ao meu padrinho e chorar uma tarde inteira, mas não sei se posso.
Em suma, mea culpa. Eu sou um monstro, literalmente.
Mas, com muita sinceridade, senhor, depois não venha por a mão no ombro e dizer que você é que sabe, e esperar que eu acredite. Muito menos se depois me vier esfregar o erro trinta mil vezes na cara como me andou a fazer. Gostou de me ver a baixar a cabeça e tudo, foi? Pois agora pode dizer trinta mil vezes que eu toco bem porque eu não acredito.
No meio disto tudo, estou outra vez numa crise existencial, refaço a matrícula, ou corto os pulsos? Eu explico muito explicadinho para as pessoas que ainda não perceberam bem, eu não me importa a vossa opinião, eu nem gosto lá muito de pessoas, eu não me interessa viver sem o violino, nem me interessa fazer outras coisas para andar contrariada e prensada por opiniões alheias.
PS: Acabei agora de saber que pelos vistos vou apanhar um sermão dos grandes, porque "estava só a falar de mim no final da dita audição". Porquê? Leio isto e fico com cara de quem leva com um tacho pesado nas ventas. Estou com a ligeira e agoirenta sensação que Sábado eu estou lixada com F grande. Muito lixada. Terrivelmente lixada. Mas ao menos já sei que dê lá por onde der, ainda me há de falar neste restinho de ano, nem que seja para me tentar ferrar uma estalada nas fuças.