Fantasma da Orquestra
Aquela figura negra que se senta no fundo da orquestra, o violino que se ouve ao longe na noite de espectáculo. Os bastidores da alma e do concerto que se leva nos ouvidos já bem depois de ter sido tocado. E treze fogos fátuos em cima da corda Lá.
09 de Março de 2012

   A viagem variou entre a calma e o facto de eu ter ficado com dois ganforinos sentados atrás de mim cujo passatempo era brincar com os bancos da frente, nomeadamente, o meu. Mas foi calmo. Deu para conversar um bocado (se bem que, eu já quase faço inconscientemente de propósito não gostar de lugares atrás, ser das últimas a entrar, ficar mais à frente e evitar ficar com um dos miúdos, o que equivale a mim a sentar ao lado de um professor). Portanto, tive boa conversa, como poucas vezes tenho, o que me leva a pensar que além da dificuldade em conversar, eu estou mais propícia a conversar com mais velhos, e não com mais novos.

 

   O Museu da Música era pequeno, tímido, enfiado ao lado do metro debaixo do chão como quem está a fugir do olhar. Tinha uma daquelas trompetes com cabeça de serpente (que eu costumo dizer que são as trompetes de Slytherin), tinha um violoncelo Stradivarius e violinos Capela. Paraíso. Já em relação a souvenirs (e eu que não esturrasse dinheiro nessas merdas), só trouxe um íman com um violoncelo e um caderno, o íman foi mais por aquela coisa de eu coleccionar ímanes. Os souvenirs ou eram caros, ou não eram nada do que eu pretendia; não tinham nada com violinos, e o raio das canetas nem eram daquele museu, eram de um museu de arqueologia.

   Porém, nunca lá tinha ido, aquilo é giro, fartámo-nos de rir à custa do serpentão.

 

   O concerto. Uma palavra: awesome. Eu estive para chorar, eu estive para me enfiar na cadeira, eu olhava para aquilo e bebia som e imagens e melodia. Acho que por mais que escreva não vou conseguir descrever aquilo. Foi a primeira vez que fui a um concerto assim, o máximo que tinha visto eram concertos da orquestra do Algarve, e eram coisa pequena. Aquilo... eu desejei que o tempo encalhasse e ficássemos eternamente ali, todos. Porém, doloroso. Aquilo é bom demais, e eu nunca vou conseguir lá chegar, nem aos calcanhares. Pelo que via, mais parecia que os tipos tocavam sem almofada, e eu acho que já não sou capaz disso. Além de um concerto inteiro para violino memorizado. A minha memória é um caos.

 

   Foi lindo, mas lindo que dói.

Orquestrado por Violinista às 23:57
No momento, estou: Cansada
Música do momento: Concerto para violino de Sibelius
Palavras soltas: , ,
18 de Janeiro de 2012

   No entanto, é mentira dizer que eu conseguiria não andar a falar dos concertos que tenho. Até porque tenho andado a ter uns dias de merda, literalmente, e hoje foi uma tarde melhor. Deu-me para rir, deu-me para tocar, resolvi, num acto assim saído do nada, ir de saia. Aquela saia preta longa, até aos pés, flutuante, com uma camisa e uma blusa de malha preta. Sim, ia tão bem vestida que foi uma sorte eu não ter encontrado a Komandante cá de casa à porta ou na sala antes de sair.

   Foi uma coisa pequena. Mas teve a sua graça.

 

   É precisamente por estas coisas, que acabo a ganhar força para mais um dia, quando isto anda tão negro.

Orquestrado por Violinista às 22:22
No momento, estou: Now I'm calm
Música do momento: Quarteto de cordas nº3 - Michael Nyman
07 de Janeiro de 2012

   Cheguei lá de manhã e ainda antes de tempo. Vou a passar a passadeira, passa sua excelência e a professora de carro mesmo à frente, enquanto eu segurava o pé suspenso. Desta vez fiquei com um camarim só para mim, onde pude encher a mesa com as minhas coisas à larga. Tocámos de pé. O ensaio todo de pé. Por isso, quando nos disse que tínhamos de fazer vénias a agradecer, foi um alívio (para as costas). O cravo, desta feita, era um daqueles pianos digitais a imitar um cravo, que sempre era mais fácil de transportar, e não exige tempo a afinar, nem cordas.

   Não fui ao almoço de convívio. A verdade é que, fora as conversas paralelas que ouvi em que uns queriam ir para um lado, e sua excelência ainda gozou quando nos disse que tínhamos marcado no restaurante mais fino e caro cá da terra, não sabia de nada, ninguém me esclareceu sequer quem é que pagava, e assim agarrei em mim e fui para casa. Azar o meu, sempre era almoço pago por eles. A verdade é que até acho que houve pessoal que gostou de eu ter desaparecido de vista.

   Eis que quando chego (outra vez cedo, e tive de esperar que abrissem a porta) e vou ao meu camarim, reparo que alguém foi lá deixar o seu violino. Levei um bocadinho de tempo a perceber de quem era. De todos os camarins que havia, e não é possível que não reconheça as minhas coisas...

   Em suma, lá foi sua excelência, eu estava sozinha lá dentro, comentou que eu não fui almoçar, pois não fui, foi lá buscá-lo (não acredito que ele não se lembrasse de onde tinha deixado o violino. Deixar as suas coisas ao pé das minhas na sala, quando fomos à cantata pela primeira vez, cheira a coincidência. Ir deixar o violino no meu camarim com tantos camarins à escolha...), e mais um ensaio.

   Depois, tempo morto em que estive no camarim, sozinha, como a estranha anti-social que sou. Havia bolo, não comi. Estava cheia de frio, até actuar. Aí, a tocar, fico mais quente, nem que seja pelo camadão de nervos.

  

   O concerto. Correu bem, eu diria. Não houve assim nenhum erro muito mau, acho que estivemos bem, o público até gostou (gostaram mais do Palladio do que de Corelli, Mozart, Pachelbel e Vivaldi's, o que é que se lhes pode fazer). Desta vez tive público para mim. O meu padrinho e a mulher dele estavam lá, de bilhetes oferecidos por mim, e parece-me que gostaram. Fico feliz. Com uma gerbera vermelha entalada nos dedos, saí dali, com aquela sensação de mais um concerto (bom) feito.

   E, ao que parece, a nossa popularidade é agora tanta que os bilhetes esgotaram-se na manhã do dia anterior, quando costumavam só esgotar-se no próprio dia.

 

   Amanhã aguarda-me o dia da tristeza pós-concerto.

Orquestrado por Violinista às 22:19
No momento, estou: Cansada, mas bem.
Música do momento: Palladio - Jenkins
20 de Dezembro de 2011

   Um ensaio de orquestra de três horas e meia é capaz de produzir mais frutos que uma semana a tocar sozinha em casa. Isto é, se dedicarmos duas dessas horas a ver uma das peças, que estava muito mal, dizia-se. Primeiro só orquestra, depois com solistas. Ontem e hoje não tive tarde nenhuma, praticamente, por causa dos ensaios. No entanto, tenho estado bem. Rio-me de algumas piadas. E, basicamente, é tocar, e eu enquanto toco estou demasiado ocupada para estar triste.

 

   Hoje foi o concerto no Hospital. E eu bem me parecia que a coisa soava mal aos meus ouvidos, mas pensava que era a minha pancada anti-hospitais a falar mais alto, isso e o facto de eu ter recordações vagas de infância nalguns lugares do dito. Bom, o conceito de concerto no Hospital é irmos ter a um dos edifícios e afinal ser no outro, termos de tocar de pé, num corredor, apertados, o meu arco prendeu-se no cabelo de uma, cotoveladas e pancadas de arco, notas longas encurtadas. Tirando isso, tocámos bem, no entanto achei de mau tom a orquestra ter de competir com uma televisão ligada num programa da manhã. Uma médica/enfermeira estava toda contente, a dizer que aquilo deveria era acontecer todos os dias.

   Não sei se alinhava nessa de tocar apertada num hospital todos os dias.

   Fora os dilemas pessoais de não conseguir encontrar uma blusa de malha numa cor fixa e que fosse bonita (encontrei uma verde num tom assim mais escuro e brilhante, seria esmeralda? Não sei. E a blusa não era propriamente minha...), ter quem me levasse o violino porque eu tinha de estar noutro lado antes (estava lá à minha espera, são e salvo, valha-me ao menos isso), e tocar com sua excelência o maestro mesmo à minha frente. Contacto de olhar quase constante e um medo insano de não me enganar em nota nenhuma.

 

   Hoje trouxeram cupcakes.

Orquestrado por Violinista às 22:40
No momento, estou: Fine
Música do momento: Concerto grosso nº 8 - Corelli
17 de Dezembro de 2011

   Engraçado que à semelhança do primeiro ano, apanharam-me outra vez a ir para a orquestra dos pequenos. Sabendo as tradicionais músicas (cordas soltas e Estrelinha), porque essas já devem estar gravadas permanentemente no cérebro, mais ou menos a música de Natal (aprendi-a... nesta manhã), e sem saber a outra. Isto só foi bom para uma coisa: criar estupidez natural a actuar, que serve para nas próximas vezes não me paralisar ao mínimo erro/ataque de nervos/branca. Isso, e eu fiquei ao lado do concertino, os dois a apanhar pancada um do outro com os arcos, no que deve ter sido um contraste interessante entre alguém muito baixo e alguém muito alto.

   Mas até foi giro.

 

   A actuação da orquestra correu bem. Mesmo com o grande intervalo entre o Canon e a Sleighride porque o concertino não tinha uma das folhas (vamos apenas dizer que se eu estivesse naquele lugar, naquele momento, naquela situação, apenas diria a mim mesma para correr para longe do maestro o mais longe possível e que as pernas permitissem... mesmo não estando, a vontade era essa. Juro que me calo agora, porque não o tinha visto antes assim, e não o quero ver assim por minha causa, que até se me arrepiam os cabelinhos).

 

   Falta o concerto no hospital. E a actuação de quarta. Temos ensaios, ainda. Vou estar ocupada, parece-me bem.

Orquestrado por Violinista às 23:12
No momento, estou: Bit tired.
Música do momento: U. N. Owen was her, em piano, Cool&Create

Violinista, C. S. L. Stradivaria. 19. Nº 5. Nº 13. Pseudo Violinista. Estudante. Nerd. Chapeleira. Vitoriana. Dandy Lolita. Incerta. Inconstante. Sonhadora. Inteligente. Invisível. Tímida. Imprevisível. Intelectual. Estranha. Deprimida. Lacrimosa. Egoísta. Respondona. Obcecada. Cínica. Anti-social. Teimosa. Orgulhosa. Calada. Perfeccionista. Louca. Baixinha. Ridícula. Original. Solilóquio em Celulóide. Violino. Música. Letras. Notas. Pautas. Relógios de Bolso. Cartolas. Magia. Paranormal. Roxo. Vermelho. Raposa. Coruja. Melro, Corvo e Pêga. Cisne. Pássaro de Fogo. Chocolate. Chuva. Quinta Dimensão. Submarino Amarelo. Petrushka. Viajante do Tempo. Extraterrestre. Fantasma.
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