“…Fazer pensar é tudo. E a agitação é a única alavanca que pode deslocar esse mundo: pois que agitar quer dizer instruir, ensinar, convencer e acordar.”
“…Fazer pensar é tudo. E a agitação é a única alavanca que pode deslocar esse mundo: pois que agitar quer dizer instruir, ensinar, convencer e acordar.”
Começou quando uma pessoa (não, não vou aqui falar dela) pôs no seu mural um vídeo da Sábado, a dizer-nos, a nós, conhecidos, aprendizes, "Vocês quando forem para a Universidade não me façam figuras destas!"
O vídeo é aquele vídeo que agora gera polémica. Eish, cambada de estudantes preguiçosos e ignorantes porque não sabem aquelas perguntas, cambada de bêbados incultos, estúpidos. No meu tempo não era assim (pois não, no tempo de quem diz "no meu tempo" eram poucos os que iam para as universidades e ninguém lhes andava a perguntar coisas destas na rua), a minha geração é muito mais inteligente que esta. E depois vão para os Facebooks discursar que o país está mal porque os seus estudantes são uns inúteis que não sabem nada e andam por ali a passear, e meu bom Merlin! são eles que vão politicar amanhã.
(Por mim podem ficar descansados que eu não nasci com o rabo virado para aí, para as politiquices.)
Só umas coisinhas a essa gente toda (incluíndo os caríssimos senhores jornalistas da Sábado):
- Só mostraram os que responderam mal, ou que não sabiam. E os que até sabiam a maioria das respostas, senão todas? Pois, não servem para entrar num vídeo que serve apenas para criar polémica, porque só mostram que estudam, que têm atenção e simplesmente que tiveram interesse por algumas áreas ao ponto de irem aprender alguma coisa sobre isso. Nem todos têm os mesmos amores pelas coisas, como a cultura, a química e o futebol. Eu sei disso, como amante de música erudita (e notem, já não digo clássica, como queria, porque isso é incultura, ou nerdice musical extrema), quando a maioria das pessoas prefere o Bruno Mars ao Chopin. A verdade é que só mostraram aqueles que falharam, aliás, sem nos mostrarem se esses eventualmente acertaram alguma das perguntas ou não (só os erros). Esquecem-se que quem vai para um curso universitário vai estar preocupado com o que tem de estudar na altura, com o curso que faz para seguir na vida ou cumprir as exigências da família, o que lhe vai sair para exame, e não com quem é o Manoel de Oliveira.
- Em muitas das famílias, os exemplos também não são melhores. E sei disso perfeitamente, porque a minha família tem os dois lados: o lado que vai à procura da cultura e o lado que acha que essa coisa é abominantemente aborrecedora e inútil. Felizmente, ou infelizmente para mim, saí ao primeiro lado. A verdade é que a sociedade também não quer saber muito dos cultos, mas aplaude as suas mãos gordas quando aparece algum ignorante a dizer bacoradas na televisão. Querem que os jovens estudem e sejam cultos, mas apresentam-lhes telenovelas pobres de argumento idiota e absolutamente irritante, com actores que entraram pela carinha laroca e têm talento zero, nicles, patavina, para o jovem ver e ir a correr comprar o merchandising. A sociedade formata as pessoas para não pensarem muito... e depois manda-as culparem-se umas às outras porque não pensam muito, e ai são tão ignorantes!
- A não ser que tenham estudado História da Arte, em Artes, ou que tenham ido à procura, desenganem-se que a escola normal não vos vai ensinar com grande foco quem é que pintou a Capela Sistina, ou a Mona Lisa. E estamos só a falar nas artes plásticas. Querem saber de música, vão para um Conservatório ou limitem-se a ser ignorantes. As escolas aqui não dão importância a esse lado da cultura. As disciplinas que se deviam encarregar disso (Educação Musical, Educação Visual) estão empobrecidas, e faltam-lhes defensores. Na verdade, ainda não sei como é que este novo ministro não se lembrou de as cortar ainda, porque entre não ter e ter uma vergonhosa amostra mal administrada. Porque nas escolas quer-se é ter ciências, e quem não é bom a Ciências, vá para Letras. Os de Artes são aqueles que todos apontam como os que vão dormir debaixo da ponte.
(Ironicamente, os de Artes, e Letras, que eu conheço, são na sua grande maioria, mais cultos que muitos que eu vejo aí a tirar um canudinho em Ciências. Giro. Supostamente, vocês eram os mais inteligentes, e nós os burros.)
- Por fim, nem todos os estudantes são pipas de álcool ambulantes. Mas um estereótipo é sempre bonito, ainda melhor quando empregue por pessoas que à tarde estão alapadas na tasca mais próxima, e a quem a vida já não vai andar muito mais para a frente.
É bonito ver todos aí à batatada, e a mostrarem vídeos, olhem a ignorância dos professores, olhem a ignorância dos não-sei-quem... faziam melhor se fossem para casa, ligassem a Antena 2 e lessem um livro, se a ignorância vos dói assim tanto nos calos. Querem fazer uma reportagem? Olhem, porque não fazem antes sobre a "Mediocridade do Ensino Artístico nas Escolas de Portugal"? Ou vão fazer essas perguntas aos senhores que se acham tão inteligentes, ou aos políticos (não, que desses já sabemos que contamos com concertos para violino de Chopin), ou melhor, aos médicos? Ou, cereja no topo do bolo, façam essas perguntas de cultura geral aos jornalistas.
Sinceramente? Acho mais grave que não saibam escrever ou falar bem em português. Acho mais grave que um estudante não saiba responder a uma pergunta da sua área, do que a uma pergunta qualquer sobre algo diferente. Se um estudante de medicina não me souber dizer quem foi O Padrinho, encolho os ombros, se não me souber dizer o que é uma mialgia, fujo do consultório o mais rapidamente possível. E acho isto uma pura de uma estúpidez.
Já agora, olá, sou uma estudante de dezanove anos de uma cidade de interior, quero ser violinista e estudo para isso, não fumo, bebo socialmente e ainda não exagerei ao ponto de perder a consciência, fazer palermices descontroladas ou vomitar. Não vejo novelas, nem aqueles pseudo-reality-shows degradantes da televisão, e gozo à força toda com a Maya, os políticos e os futebolistas quando estes me aparecem no ecrã. Gosto de ler, adoro música, até hoje nunca me dei muito mal com nenhuma disciplina (excepto Educação Física). Estive em Ciências e Tecnologias. Já estudei Literatura. Sabia responder àquelas perguntas (excepto a do Padrinho, que ignorante que eu sou), e achei o vídeo estúpido, bem como todas as pessoas que me esterotipam como tipa estudante ignorante bêbada que se veste mal e não serve para nada.
Não digo, no entanto, nada das pessoas que me mostraram este vídeo na primeira vez, até porque, pelo que eu julgo conhecer delas, sei que a intenção delas nunca foi a de nos chamar ignorantes, até porque sabem perfeitamente que nós, alunos e alunas dessas pessoas, podemos ter muitos defeitos, mas ignorantes não somos.
E já agora, Sherlock Holmes, nas palavras escritas de Conan Doyle, afirmava que só queria ter informação que lhe servisse para o ofício, nada mais, porque para ele o cérebro não era extensível ilimitadamente ao conhecimento. Sherlock Holmes dizia que nem sabia que a Terra gira à volta do Sol e não o contrário.
Sherlock Holmes, se apanhado numa destas, seria um pobre ignorante.
E como é da praxe, Feliz Aniversário Niccolò Paganini.
Mais uma vez, o cenário é o mesmo. Eu deitada, ou sentada, na toalha a ler.
O Código Secreto, da Priya Hemenway, é um daqueles livros que se eu visse à minha frente numa estante à venda, provavelmente lá continuaria e eu não me sentiria tentada a levá-lo para casa em vez de outros. Foi-me oferecido, e assim, li-o, porque geralmente leio tudo o que me dão para as mãos (salvo raras excepções). Apesar do título assim a dar para o sugestivo, não é um livro de ficção alla Dan Brown (se bem que... falo por mim, às tantas páginas dá para nos sentirmos como um Robert Langdon a vasculhar segredos na Mona Lisa), coisa que me deixou, por uns minutos, com o pé atrás. Só que eu estou mais habituada a esses livros do que às vezes me parece (e há uns que acabo mesmo por gostar deles).
O livro fala sobre o φ - Phi (ou Fi). Que, para quem não sabe nadinha de nada, é uma constante real algébrica irracional, também conhecida, entre outros nomes, por Proporção Divina. Isto porque está presente na natureza e, aparentemente, em todo o lado. Nas conchas dos caracóis, nas folhas, nos picos dos cactos. Foi também muito usado na arte e arquitectura. E, adivinhem lá, as nossas amigas oitavas, quintas e quartas, intervalos perfeitos e mais bonitos, também estão ligados a isso. E espirais. E pentágonos. E o Homem de Vitrúvio.
O livro tem muita matemática. Se gostam, leiam. Se não suportam a matemática, então é melhor pensar noutro. Se gostarem de teorias da conspiração, então este é daqueles para se ficar a ver o bendito do Phi até nos rolos de cozinha estampados da Renova (não estou a gozar. Há uns rolos da Renova com desenhos de ramos com folhas, e os ramos são espiralados... se lerem, perceberão).
Foi interessante.
A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells, e sim esse de ficção, é outra coisa. Para começo da coisa, quem viu o filme (com o Tom Cruise no papel de pai galinha desesperado e estoicamente heróico para uma filhinha loira sempre de aparência inocente e doente), esqueça o filme. A única coisa que deve ser parecida, é o aspecto das máquinas dos marcianos, e o discurso na voz de Morgan Freeman. O livro passa-se na época vitoriana, século XIX, no Reino Unido. Está dividido em dus partes. A primeira parte, quando os marcianos descem à terra, é... calma. Mais calma que o filme. E isso aborrece muita gente, porque os ditos marcianos só usam o Raio da Morte e divertem-se a incendiar quem se atravessa no caminho. O narrador, um homem filósofo que nos relata os acontecimentos, deixa a mulher e tenta ele mesmo encontrar um abrigo para fugir daquelas coisas, demasiado avançadas para o Homem dar conta delas. Estão um passo acima na evolução.
O verdadeiro desenvolver da expectativa está na segunda parte do livro, quando já estão sob o domínio dos marcianos e percebe-se o que é que os marcianos pretendem com os homens, ou melhor, o que é que eles lhes fazem. Não há tubos digestivos envolvidos, porque os marcianos não os têm, mas há... uma forma de alimentação.
E ao mesmo tempo em que o narrador nos conta isso, ele está escondido com um outro homem numa casa em ruínas mesmo ao lado dos marcianos. Estão os dois em desespero, e o outro resolve desatar a berrar sobre Deus e o Apocalipse (lembrei-me de uma cena semelhante em The Mist), chamando a atenção antes do narrador lhe dar uma boa cacetada na cabeça e o deixar inconsciente. E quando ele se esconde no carvão com um tentáculo de marciano mesmo a roçar as solas dos sapatos...
Chega a uma parte em que se perde a esperança na humanidade, e na possibilidade de esta, se existir, ser mais do que ratos escondidos no esgoto. Os homens são ali constantemente comparados com ratos ou coelhos quando estes eram caçados sem piedade por eles. Um adeus à existência de arte, cultura, possivelmente de conhecimento.
Porém, e a coisa que os salva, é que não há imunidade contra as bactérias por parte dos marcianos, e estes sucumbem. Estavam condenados a tal mal tinham posto os pés na Terra e respirado o ar. A humanidade salva pelos microorganismos que ela desgosta, para os quais pagou com vidas de antepassados até aprender por si própria a ter corpo para lhes resistir.
E eu dava tudo para ter ouvido a emissão do Orson Welles e o pânico que aquilo gerou.
Vi o site da autora do primeiro e deu-me vontade de ler o que ela escreveu de Wicca. Além de estar com vontade de tentar encontrar Soul Music ou Maskerade do Terry Pratchett. Aliás, qualquer livro do Pratchett.
Agora só tenho Indignação, do Phillip Roth, para ler, e ainda não lhe peguei. Ofereceram-mo no ano passado e ainda não lhe toquei. Nem sei o que esperar do livro, e por esquisitisse, ainda lhe estou a torcer o nariz. É um bom livro? Que outros livros recomendam?
Sonhador, idealista, emotivo e imaginativo. Profundamente humano, sensível, amoroso e bondoso, sem ser fraco.
Não gosta de fazer sofrer e evita conflitos, mas, ferido no seu orgulho, pode ser violento e cruel.
Grande capacidade de adaptação a coisas, ideias e seres, sem perda de carácter. Tolerância.
Inibido pelo sentimento do ridículo e medo da opinião alheia. Fortemente individualista, porém com um grande fundo de solidariedade humana. Forte espírito crítico e trocista, ironia pungente.
Saudade. Lírico sonhador, fáustico e fatalista. Fado. Grande apogeu e grande decadência.
Chamado a desempenhar um papel importante, põe em jogo todas as suas qualidades de acção, abnegação, sacrifício e coragem e cumpre como poucos. Com um papel medíocre, não satisfaz a imaginação, esmorece e só caminha na medida em que a conservação da existência o impele. Não sabe viver sem sonho e sem glória.
Em períodos de estagnamento nasce a apatia do espírito.
Não sabe separar o sonho da realidade.
Desprezo pelo interesse mesquinho.
O coração é a medida de todas as coisas.
Vários exemplos de grande e profunda dedicação, acompanhada de gestos de verdadeiro sacríficio. Desagradam-lhe os fins demasiado trágicos. Contudo não é fraco, nem covarde. Tem temperamento brioso que pode levar a reacções de extraordinária violência.
Religião de cunho humano, acolhedor e tranquilo. Expansão do estilo românico, profundidade e horizontalidade. O manuelino.
Movimento parado, ostinati dos compositores portugueses, fixidez da imaginação. Sequências obstinadas, desenhos musicais fixos, imobilidade. Ostinatismo. Intervalos paralelos e isométricos. Alma contemplativa e obstinada.
Crença na sorte. Imaginação sonhadora, antipatia pela limitação. Invulgar capacidade de improvisação. Boa capacidade de adaptação. Tolerante. Terrivelmente irónico e sensível à ironia. Cada vez mais individual.
Os seus defeitos podem ser as suas virtudes e as suas virtudes os seus defeitos.
Apontamentos meus tirados de um texto. Texto sobre portugueses. Sobre nós. Vocês. Eu. Texto que eu não podia deixar de ler sem um sorrisinho estranho nos lábios por coisas que encontrei aqui e em mim. E não sei se são boas.