Há quanto tempo esperava eu por esta festa? Queria ir ao Cup comer panini, queria estar de novo com amigos, queria afogar as minhas mágoas, queria divertir-me, nem que fosse com álcool à mistura, e queria ir à feira estampar a t-shirt que já tinha prometido a mim mesma há meses. Eram demasiados desejos, para serem realizados no mesmo dia. E noite. Ainda assim, era para dormir em casa do Phype, e os meus pais não me deixaram.
No início correu bem. Eu e o Phype fomos para o Cup, comemos nachos, panini e granizado. Eu estava com fome, porque nem tinha almoçado, e já passava das quatro horas da tarde. Andémos em lojas, falámos. Juntou-se a Di e a Annie. E assim que começaram a vir mais pessoas, mais amigos que eu não conhecia, a coisa começou a mudar de figura. Eu estava mais calada, outra vez. É claro que, a maioria que fala comigo, já sabe dos dilemas que têm desabado em cima da minha cabeça, e já adivinha que eu ande assim. A Annie chamou-me para falar comigo. E foi directa.
Eu sou demasiado anti-social. Eu olho constantemente para o chão, a remoer o interior vezes e vezes sem conta. Arrependo-me constantemente de tudo, não vivo nada. Os meus pais não estão a ajudar, mas eu também estou perdida por mim mesma. Eu tenho de os compreender, e perceber que a vida não é fácil. Coisa que eu sempre soube, que a vida não era nada fácil.
Enquanto fui estampar a t-shirt, eles foram com as minhas fichas para os carrinhos de choque, e quando lá cheguei e andei à procura, não os encontrava. Só encontrei quando o meu pai já me vinha buscar. Nisso, a Annie atira que eu tenho de descobrir o que gosto, mas manter os pés na realidade, porque nem ela podia dizer que queria ser bailarina profissional.
Tive a conversa com o meu pai. E, para dizer a verdade, estou destroçada, como já sabia que iria ficar. Comecei por dizer aquilo. Que percebia que queriam o melhor para mim, que apenas querem que eu tenha um futuro. E, à medida que falávamos, eu dava por mim a estilhaçar-me, porque continuam todos a apontar para aqueles cursos. E eu não gosto. Eu simplesmente não gosto de nada, como disse à Annie, eu já perdi à conta o número de vezes que corri aquelas listas extensas de cursos para cima e para baixo, à procura de alguma coisa, qualquer coisa, e nada. Eu não gosto de nada.
Fazer esta conversa é dar um passo em direcção à conformação com eles e a sociedade, e à destruição do que eu sou. Por isso, perdi o controlo da conversa, e já me arrependi de a fazer.
Entre manter a minha boa família, fazer o curso que eles querem e deixar de ser eu, e não me destruir por algo que é um sonho cada vez mais distante, eu já não sei o que vou escolher. Só sei que sinto dor por dentro, e que estou a chorar. Isto está a dar cabo de mim, como ser, como pessoa humana. Porquê? Porque é que eu sou anormal ao ponto de não gostar de mais nada? Porque é que eu sou anormal ao ponto de apenas me ligar a uma coisa, e não conseguir mudar nada? Nem assim.
Não vale a pena que me digam que não dá, com quantas palavras houver no mundo, porque esta coisa que tenho e me faz sentir não quer mudar de opinião para uma mais racional. Nem com conselhos, revistas sobre o assunto, nada, nada.
Eu preciso de ajuda, urgentemente.
Entre fazer o certo e matar o coração, ou tentar seguir o sonho feliz e fazer errado, qual o passo que dou a seguir?



