Fantasma da Orquestra
Aquela figura negra que se senta no fundo da orquestra, o violino que se ouve ao longe na noite de espectáculo. Os bastidores da alma e do concerto que se leva nos ouvidos já bem depois de ter sido tocado. E treze fogos fátuos em cima da corda Lá.
30 de Novembro de 2011

   Diz que as coisas estão melhores. Mas voltei àquela sensação de retardamento mental, emocional e musical ao lado de um piano.

 

   É sexta. Estou lentamente a entrar na espiral de decadência emocional que atinge o fundo no mais completo desespero e medo do que diachos vou eu fazer a armar-me em boa em frente de um público (que não inclui os meus pais, mas de quando em quando estou consciente que inclui pessoas que eu preferia que não me vissem a fazer tanta porcaria num compasso só).

 

   Uma peça a solo. Com cordas dobradas, e spicatos, e pizzicatos. O duo. Entradas que eu tenho de dar, atenção a manter e não a fugir.

 

   Se no ensaio marcado para mim chego lá a horas (e era suposto ele ter lá aparecido, mas não, nem deu ar de si, e eu não o fui chamar porque sei lá se está em aula ou não, ou quem sou eu para interromper alguma coisa), no ensaio a duo marcado para uma hora que eu tive dificuldade em lá chegar, e sem aquecimento nem nada, nem sei como é que não me enganei mais vezes, estava com os dedos engadanhados que até irritava.

 

   E acabo de ler uma que me diz que na próxima terça eu aqui não devo ter direito a jantar antes das nove. Ou sei lá de que hora. Uma que me diz que eu tenho de sair a correr de um lado para outro, à noite.

 

   Eu não queria que este ano fosse um reflexo do ano passado, mas não consigo. Mais uma vez, a carruagem vai a descarrilar para lá, e eu não quero. Eu não quero ver-me forçada a perder a minha vida por causa do meu mau relacionamento com as pessoas, mas eu já não estou a ver luz ao fundo do caminho. Em casa as coisas não vão bem, fora dela já não vai bem, eu estou a engolir tudo porque já percebi que não posso confiar em ninguém para me emprestar o ombro, quando tenho de dar o meu e fingir que está tudo bem, que gosto da minha condição e que estou de acordo com esta luta e com esta treta de estar a fazer algo que não quero só porque tem de ser. Está a perder o sentido, eu estou a perder o juízo, eu já não sei se ouço bem, se o que diabos é, eu tinha dito a mim mesma que não voltava a confiar e fui cair outra vez na esparrela. Eu não consigo mais. Eu não sei o que fazer mais. Eu não sei como ser sincera ali e não acabar a dizer alguma que alguém não queira ouvir.

   Eu gostava que as pessoas fossem sinceras, e sinceramente me dissessem: desculpa, mas não nos lembramos, nem nos queremos lembrar de ti, não estamos assim tão interessados em ti. Não és quem queremos. Dói. Mas ao menos que digam de uma vez.

 

   Eu só espero que ele não me faça arrepender ter-me ido embora das outras aulas. Porque não foi só um professor que eu perdi, foi um mestre, um amigo, um às vezes confidente. Coisa que ele não é.

 

   E agora há-de voltar a dizer que gosta de mim como aluna, porque eu, mais uma vez, não acredito.

 

   Mas porque é que eu não morri ainda?

Orquestrado por Violinista às 21:49
No momento, estou: Desesperada, é o termo
Música do momento: Em memória de uma camponesa assassinada - Carlos Paredes
31 de Julho de 2011

   Hoje, a meio de conversas, fragmentos que se vão reunindo a pouco e pouco, chego à conclusão que vou terminar sozinha. Só. Assim. Um cubo branco e vazio, silencioso, sem apoteoses.

   Sozinha. Apenas.

 

   Desespero-me. Afinal há coisas que eu quero muito e à viva força nesta vida. Uma delas é não haver alguma vez silêncio à minha volta, esteja eu velha artrítica ou nova ainda, os dedos não param.

   A outra é não terminar sem ninguém.

 

   No entanto eu não sou uma pessoa de pessoas, nunca fui, nunca serei, falhei sempre redondamente quanto a esse aspecto. Não consigo. Faço melhor se me afastar calada. E fico apenas a ficar sozinha, um dia, um ano, muitos anos.

   Cá fora já me habituei. Acho que aos poucos o grito dentro da cabeça perde força, perde esperança, não há lugar para mim, nem ninguém para mim. Neste momento, limito-me a caminhar lentamente e com as duas mãos dentro dos bolsos.

 

   Porquê? Porque é que tenho este erro dentro, e ele persiste? Porque é que quando tentei pedir ajuda, tudo se desmoronou? Porquê, porque é que eu não posso simplesmente calar metade de mim, afogá-la? Fingir que ela não existe já não adianta, só sufoca.

Orquestrado por Violinista às 02:05
No momento, estou: Só triste.
Música do momento: Bara no Chikai - Rozen Maiden ost
Palavras soltas: , , ,
25 de Julho de 2011

   O que fazer quando sentimos que não há lugar no mundo para nós, que seremos para sempre excluídos de qualquer lugar onde queiramos estar, que há coisas que nos estão lentamente a ser arrancadas como quem arranca as asas a um pássaro engaiolado, que onde quer que vamos há olhares estranhos e inquisidores para nós, que nos marcam como ferros em brasa, que nos acusam de tudo, que nos mostram reflectidos neles e toda a nossa maldade e podridão, e tudo em nós é terrível, mau, mal feito?

   O que fazer quando éramos a criança sorridente que caminhava aos saltinhos e agora o salto caíu num buraco negro?

Orquestrado por Violinista às 21:57
No momento, estou: To dark
Música do momento: Sheherazade - Rimsky-Korsakov
Palavras soltas: ,
16 de Junho de 2011

   Era suposto eu hoje ter sofrido a saber a nota do exame, e o trabalho que terei pela frente nas férias, tentar adivinhar do meio de uma enxurrada de partituras que com certeza me farão chorar qual aquela que está marcada para ser a escolhida no próximo Setembro. Não. Um minuto antes da hora de me ir forçar a preparar para fazer caminho, telefonam-me a informar que sua excelência não vem à aula, que era, só assim por acaso, a última aula que eu teria porque na próxima semana há um estúpido de um feriado na quinta, mas "logo à tarde vem e depois combinam". Tive vontade de afogar o telemóvel na sanita.

   De tarde, a torcer-me e contorcer-me de dores, fui lá por causa do raio da audição dos miúdos. Acontece que a confusão estava instalada, não havia cadeiras para todos, eu não tenho as estúpidas das partituras de acompanhamento de músicas tão excitantes como A Estrelinha e Allegro e o raio que parta, cega de dores, não o vi. Como o telemóvel ficou sem bateria, e sabia lá eu a que horas terminaria o dito suplício, depois desta semana que, sinceramente, quero falar com alguém de confiança, quero abraçar e chorar muito, chorar rios, chorar imenso e deitar tudo cá para fora, prezando mais a aula do P do que outra coisa, agarrei nas minhas tralhas e fui-me embora.

   A orquestra, já percebi, é uma autêntica panelinha que lá está entre uns quantos, panelinha essa à qual eu não pertenço. Eu sei, aprendi à minha custa no ano passado, que sair de lá sem tocar só é frustração para mim e mais ninguém. Pois bem, não sentiram a minha falta e eu que viva com isso.

   Não falei nada com ninguém. Ninguém me tentou contactar. Das duas uma: ou ele delega essa tarefa para ela, que me ligue e diga qualquer coisa, pouco provável, ou o mais provável é ele ignorar. E se ignorar e não repôr a aula, eu não vou tocar a solo na audição de 24 de Junho porque: um, não toco bem e agora sim, a minha confiança levou uma machadada das grossas, dois, assim não, eu assim recuso-me a tentar dar-me com pessoas que parece que têm gosto especial em ignorar-me, e faltar precisamente às minhas aulas. Se vou sentir-me uma merda? Vou. Mas eu automaticamente já me sinto mal. Eu sei lá se ele ia falar comigo. Na verdade, não lhe pus a vista em cima e duvido que isso fosse acontecer.

   Bem, é mentira. Vi-o por cinco minutos à distância. O equivalente a duas pessoas de dois lados de uma rua sem se olharem quase.

 

   Sábado é Audição Geral. Penso que vá a essa, sei bem o que lá vão tocar, o Palladio que já detestei por tocar a parte de baixo toda e agora gosto um bocado mais por fazer aquela parte das semicolcheias de cima, o estúpido do Plink Plank Plunk que simplesmente abomino tocar daquela maneira, guitarradas nunca me seduziram, e o Alla Rustica. Não sei se Sábado ele me fala. Se falasse era bom. Se falasse de manhã, e não à saída da audição que mal o vejo, era muito bom. Se repôsse a aula, era uma maravilha, e eu iria tocar o Bach a solo (avec le piano de acompanhamento de novo, possivelmente melhor desta vez...)

   No entanto, já desconfio que não.

 

   Isto agora faz-me questionar. Já não tenho ninguém para falar, já que pelos vistos andam todos muito fartos de mim. Mas, que se lixe, o blog é meu. Sou a ovelha negra da família, e agora então a doente mentirosa compulsiva desacreditada e solitária. Porquê? Porque persigo o meu sonho. Como outros perseguem os seus sonhos e lutam imenso, e conseguem, eu devo estar a fazer alguma coisa errada, porque me sinto presa e mal, e não consigo. A ajudar tenho o facto de me achar a pior pessoa do mundo, que toco mal e ranhosamente, para confirmar tenho um excelentíssimo professor que já me desfalcou este ano em três aulas às quais só falta quando é a minha hora, que provavelmente não vai repôr a aula, que me pôs a tocar a parte reles de baixo de uma música de orquestra, fiz merda na última audição a solo, fiz merda no exame, rodeada de gente que não é capaz de falar comigo. Neste momento eu tenho vontade de vomitar emocionalmente, e não tenho confiança em ninguém para o fazer. Queria telefonar ao meu padrinho e chorar uma tarde inteira, mas não sei se posso.

   Em suma, mea culpa. Eu sou um monstro, literalmente.

 

   Mas, com muita sinceridade, senhor, depois não venha por a mão no ombro e dizer que você é que sabe, e esperar que eu acredite. Muito menos se depois me vier esfregar o erro trinta mil vezes na cara como me andou a fazer. Gostou de me ver a baixar a cabeça e tudo, foi? Pois agora pode dizer trinta mil vezes que eu toco bem porque eu não acredito.

 

   No meio disto tudo, estou outra vez numa crise existencial, refaço a matrícula, ou corto os pulsos? Eu explico muito explicadinho para as pessoas que ainda não perceberam bem, eu não me importa a vossa opinião, eu nem gosto lá muito de pessoas, eu não me interessa viver sem o violino, nem me interessa fazer outras coisas para andar contrariada e prensada por opiniões alheias.

 

   PS: Acabei agora de saber que pelos vistos vou apanhar um sermão dos grandes, porque "estava só a falar de mim no final da dita audição". Porquê? Leio isto e fico com cara de quem leva com um tacho pesado nas ventas. Estou com a ligeira e agoirenta sensação que Sábado eu estou lixada com F grande. Muito lixada. Terrivelmente lixada. Mas ao menos já sei que dê lá por onde der, ainda me há de falar neste restinho de ano, nem que seja para me tentar ferrar uma estalada nas fuças.

Orquestrado por Violinista às 22:21
No momento, estou: À lá merde!
Música do momento: Prelude 2 - Dustin O'Halloran
21 de Maio de 2011

   Então, a proposta. A proposta dependia da conversa entre três partes, e hoje tenho duas partes reunidas. Uma parte, a que me propôs, diz que sim, ou este ano ou o outro, mas de preferência este ano, ignorou as minhas dúvidas existênciais comuns. A outra parte nem tanto, mas diz que não impede e até ajuda. Ao ponto de viragem, o salto. Aquele que, se feito, e conseguido, vai mudar uma parte da minha e, não escondo, tanto para melhor como para pior. Se é uma coisa que eu quero? Sonhava com isso desde há dois anos. Tinha perdido a esperança que alguma vez me fosse proposto, e aqui está. Falta uma parte. A minha. A decisão.

   Digo que sim. Sujeito-me a falhar o salto, a ficar mais ferida do que imagino. Isso é partir uma asa. Mas também pode correr bem. Aliás, pelo que sei, até é provável que o salto corra bem, e o problema seja aguentar uma das partes lá em cima. Mas, o medo, o medo.

   Digo que não, arrisco-me a demorar e a perder. Muito.

 

   O que é que eu faço? Não fosse o receio e eu atirava-me de cabeça. Porque este pode ser o meu pequeno milagrezinho. Se eu acreditar.

Orquestrado por Violinista às 21:31
No momento, estou: Estava feliz.
Música do momento: Concerto em lá menor - Bach
Palavras soltas: , , ,

Violinista, C. S. L. Stradivaria. 19. Nº 5. Nº 13. Pseudo Violinista. Estudante. Nerd. Chapeleira. Vitoriana. Dandy Lolita. Incerta. Inconstante. Sonhadora. Inteligente. Invisível. Tímida. Imprevisível. Intelectual. Estranha. Deprimida. Lacrimosa. Egoísta. Respondona. Obcecada. Cínica. Anti-social. Teimosa. Orgulhosa. Calada. Perfeccionista. Louca. Baixinha. Ridícula. Original. Solilóquio em Celulóide. Violino. Música. Letras. Notas. Pautas. Relógios de Bolso. Cartolas. Magia. Paranormal. Roxo. Vermelho. Raposa. Coruja. Melro, Corvo e Pêga. Cisne. Pássaro de Fogo. Chocolate. Chuva. Quinta Dimensão. Submarino Amarelo. Petrushka. Viajante do Tempo. Extraterrestre. Fantasma.
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