Diz que as coisas estão melhores. Mas voltei àquela sensação de retardamento mental, emocional e musical ao lado de um piano.
É sexta. Estou lentamente a entrar na espiral de decadência emocional que atinge o fundo no mais completo desespero e medo do que diachos vou eu fazer a armar-me em boa em frente de um público (que não inclui os meus pais, mas de quando em quando estou consciente que inclui pessoas que eu preferia que não me vissem a fazer tanta porcaria num compasso só).
Uma peça a solo. Com cordas dobradas, e spicatos, e pizzicatos. O duo. Entradas que eu tenho de dar, atenção a manter e não a fugir.
Se no ensaio marcado para mim chego lá a horas (e era suposto ele ter lá aparecido, mas não, nem deu ar de si, e eu não o fui chamar porque sei lá se está em aula ou não, ou quem sou eu para interromper alguma coisa), no ensaio a duo marcado para uma hora que eu tive dificuldade em lá chegar, e sem aquecimento nem nada, nem sei como é que não me enganei mais vezes, estava com os dedos engadanhados que até irritava.
E acabo de ler uma que me diz que na próxima terça eu aqui não devo ter direito a jantar antes das nove. Ou sei lá de que hora. Uma que me diz que eu tenho de sair a correr de um lado para outro, à noite.
Eu não queria que este ano fosse um reflexo do ano passado, mas não consigo. Mais uma vez, a carruagem vai a descarrilar para lá, e eu não quero. Eu não quero ver-me forçada a perder a minha vida por causa do meu mau relacionamento com as pessoas, mas eu já não estou a ver luz ao fundo do caminho. Em casa as coisas não vão bem, fora dela já não vai bem, eu estou a engolir tudo porque já percebi que não posso confiar em ninguém para me emprestar o ombro, quando tenho de dar o meu e fingir que está tudo bem, que gosto da minha condição e que estou de acordo com esta luta e com esta treta de estar a fazer algo que não quero só porque tem de ser. Está a perder o sentido, eu estou a perder o juízo, eu já não sei se ouço bem, se o que diabos é, eu tinha dito a mim mesma que não voltava a confiar e fui cair outra vez na esparrela. Eu não consigo mais. Eu não sei o que fazer mais. Eu não sei como ser sincera ali e não acabar a dizer alguma que alguém não queira ouvir.
Eu gostava que as pessoas fossem sinceras, e sinceramente me dissessem: desculpa, mas não nos lembramos, nem nos queremos lembrar de ti, não estamos assim tão interessados em ti. Não és quem queremos. Dói. Mas ao menos que digam de uma vez.
Eu só espero que ele não me faça arrepender ter-me ido embora das outras aulas. Porque não foi só um professor que eu perdi, foi um mestre, um amigo, um às vezes confidente. Coisa que ele não é.
E agora há-de voltar a dizer que gosta de mim como aluna, porque eu, mais uma vez, não acredito.
Mas porque é que eu não morri ainda?



