Fantasma da Orquestra
Aquela figura negra que se senta no fundo da orquestra, o violino que se ouve ao longe na noite de espectáculo. Os bastidores da alma e do concerto que se leva nos ouvidos já bem depois de ter sido tocado. E treze fogos fátuos em cima da corda Lá.
16 de Março de 2012

   A filha adolescente é um demónio. Não se controla, é a causa dos males de todos os dias, porque é uma inútil, porque não sabe falar, porque não dá valor às coisas, porque se esqueceu de uma coisa. Porque não acreditam que tenha mais em que pensar, porque não acreditam sequer que pense. Para quê, é só a filha adolescente. Elas só existem para aborrecer, reclamar, sujar, comer e mostrar o quão errado pode dar um projecto de criança.

   Pergunto-me porque os pensamentos são tão desvalorizados. Porque os dramas que temos são ninharias atiradas ao vento, rebatidas por algum argumento que justifique que a pessoa não tem nada que se queixar. Pessoa não, adolescente. A adolescente não é pessoa, é um antro de defeitos pessoais. Não sabe o que é o amor, não sabe o que é a vida, não sabe pelo que sofre, os seus sonhos são apenas devaneios. Vivem para gastar dinheiro. Vivem à lá gardére.

   São também uma coisa boa para troca. Ai a minha filha agora namora um bruto horroroso e responde-me mal. Ai, a minha não sai de casa, não larga os livros. A minha agora veste-se horrivelmente mal. E a minha? Agora decidiu-se num curso que não gosto, tira boas notas mas não quero. À mãe que apresentar o melhor problema dá-se um prémio, a consolação coma verdade unversal: as adolescentes são todas problemáticas que nada sabem da vida.

 

   A adolescente já não pode com a mãe. Destrói-lhe o conforto do covil quando lhe dá na gana, porque são as soberanas daquele reino em cuecas, refila, vai dormir onde não deve, refila, acha que é a grande ditadora da moda, refila, afirma que sofreu como um mártir quando tinha aquela idade e a jovenzinha nem sabe o que é a vida, refila. Nunca nada está bem. A adolescente pode estar a fazer o maior esforço a estudar; se não for aquilo que a mãe quer, não faz nada nesta vida, só come e dorme. Pode estar a rebentar de vontade de chorar, até porque voltou àquela altura do mês. A cabeça muitas vezes dói com tantas ideias contraditórias dentro dela, e a insatisfação, uma grande insatisfação a tentar saber-se quem se é, e quem se vai ser.

 

   Já pararam para perguntar à vossa adolescente se está bem onde está, hoje? Se a paixãzinha que dura há tempo é um tipo interessante e bonito? Qual é realmente a imagem que quer ter para o resto da vida, mas sem pressas, porque as ideias, até aos 18, mudam muito?

 

   Vocês comigo fazem isso, porque eu já me resignei a ser uma monstrenga. Porque me tornei maluca, e teimei no violino. Mas com ela vocês não fazem isso. A ela não a destroem assim. Que eu já estou um bocadinho farta destas pessoas, que parece que nem nos querem considerar pessoas, que acham que estão muito correctas porque já passaram aquela fase, coisa que parece que não existe, morreu, foi enterrada. Vocês eram tão boas naquela idade, e nós tão malignas.

Orquestrado por Violinista às 23:26
No momento, estou: Empty
Música do momento: Hamlet - Tchaikovsky
Palavras soltas: , , ,
08 de Março de 2012

   Se eu antes me desesperava porque de um dia para outro ora mudava completamente de humor, ora me perdia e encontrava e me voltava a perder. Hoje é no mesmo dia e eu não aguento mais. Já nem sei o que me apetece, se abrir os meus pulsos dentro da banheira, se abrir a carótida a toda a gente à minha volta.

 

   Se não falo com ninguém porque sou uma misógina do caraças descontrolada, é porque não falo, e é problemático e o diabo a sete. Se falo, estou a falar demais, não devo confiar nas pessoas, olha vê lá recorda-te do que se passou com as tuas coleguinhas no secundário que ainda por cima foram as respomsáveis por te meter estas ideias na cabeça. Sim, porque uma miúda tão inteligente como és, obviamente que não foste tu que escolheste tirar o curso de violino para a vida, foram as tuas coleguinhas que te convenceram a isso além de te terem espetado facadas nas costas.

   Se não lhes digo o que quero ou o que gosto, não falo. Se digo alguma coisa a esse respeito, ou pior, faço, sou uma esbanjadora. Eu admito, já fui demasiado gastadora. Se calhar ainda sou. Não me resisto a chocolates. Dificilmente resisto ao ver um livro ou um cd, de quando em quando a coisa corre mal e lá gasto algum dinheiro. De quando em quando vejo roupas (pois é, e onde para a criança que dizia que nunca mais punha os pés numa loja de roupas tão depressa lhe fosse dada a oportunidade?). Gosto de algumas. 85% fica lá na loja para encontrar as mãos de outra dona, enquanto eu me forço a esquecer. Comprar, só em época de saldos. Quando era mais nova, comprava uma revista. Hoje já não. Quando digo que não me resisto a chocolates, falo de um nas audições, um em ocasiões especiais. Livros quando preciso de um. E esbanjo dinheiro. Estou a pagar as aulas que quero e esbanjo dinheiro. Evito ir a lojas. Esbanjo.

   É por estas que eu prefiro não falar. Deixer de ser capaz de falar, deixei de ser capaz de respirar em casa e fora de casa. Em compensação, escrevo. Escrevo no caderninho, escrevo onde não devia, escrevo, escrevo.

   Não falar deu mau resultado. Dá mau resultado. Mas eu não consigo falar, quando parece que está tudo bem, descamba nalgum lado. Quando parece que eu vou a ganhar alguma confiança, há qualquer coisa que vem e a deita por terra. Porque não faz sentido, nada faz sentido. Não faz sentido que eu esteja aqui sentada ao computador e esteja a sentir medo. Mas medo de quê? Não sei.

 

   Hoje era para ter sido um bom dia. Boa aula, alguma boa esperança. Especialmente para aquilo (que, contudo, só descanso mesmo quando estiver nas minhas mãos). Assim que chego cá, dá merda, dá treta. Ainda por cima, odeio quando dizem de mim uma coisa, e depois dizem outra, ou quando acham coisas de mim que eu sei perfeitamente que não sou. Já disse, odeio passar por estúpida.

Orquestrado por Violinista às 21:03
No momento, estou: Passada.
Música do momento: Sail - Awolnation
Palavras soltas:
05 de Fevereiro de 2012

   ~ Tocar a tarde inteira sozinha em casa com uma chávena de chá manteve-me animada.

 

   ~ Resolvi ser auto-didata por um tempinho. O problema é que eu escolhi ser auto-didata com coisas de Paganini e piores ainda. Ou seja, o meu cérebro faz muito sentido. Se juntarmos a isso o facto de, do nada, ter-me lembrado de mais músicas de Vangelis e tentado imitar no violino, e de eu andar a ouvir coisas... lá se vai sanidade.

 

   ~ O fundo disto deu bota outra vez. Portanto, é meia noite e fui-me por a brincar no Photoshop, com a diferença que deve ter feito e refeito para aí umas trezentas versões e nem por isso isto está alguma coisa de jeito.

 

   ~ Agora sim, posso extravasar e dizer: cordas PI, eu amo-vos. São caras, mas eu amo-vos. Amo, amo, amo.

 

   ~ O arco fintou a morte mais uma vez. Da próxima morre de vez. O que significa que eu tenho uma janela aberta para namorar arcos na loja online. Mesmo com toda a treta que se apanha a comprar coisas desta natureza em lojas dessa natureza. Quero um Viennabow.

 

   ~ Abri o dedo outra vez por causa dos pizzicatos.

 

   ~ Estou com medo porque o concerto do Kabalevsky já está mais que marcado para ir à audição. Que é em Março. E ainda por cima devo ser obrigada a sabê-lo de cor. Vou fazer merda. Uma coisa destas à velocidade em que está, decorada? Vou fazer asneira da grossa. Não vou conseguir. Muito provavelmente vai voltar a dar-me o piripaque. Depois de ser esganada, claro, às mãos dele.

 

   ~ Querem-me fazer feliz? Prometam uma viagenzinha que eu até queria fazer, com pessoas com quem eu quero ir, ver coisas que gosto e que quero ver e ouvir. Querem dar-me a maior desilusão da vida? Depois dessa descrição toda maravilhosa, digam o preço, e que este seja mais alto do que aquele que alguma vez conseguirei convencer os meus pais a pagarem para eu ir dar uma volta.

 

   ~ Outra vez o trabalho para a semana dos arcos. Desta vez com bastante antecedência, para dar para fazer. Olho para o protótipo do trabalho do ano passado que comecei a fazer. Está uma caca. Não sei o que fazer ou escrever. Desisto, não consigo. Era uma caixa em forma de violino feita em cartolina, montada em cima de uma cartolina, feita a partir de um papertoy, que dá para abrir. Não é muito grande. Não sei o que lhe fazer. Faça o que fizer vai sair uma coisa estúpida e vão rir-se na minha cara. De idiota chapada ignorante.

 

   ~ Finalmente, ao fim de três anos, completei o raio da pulseira com o violino de prata. Tenho um mini violino na pulseira. Prontos, contente.

 

   ~ Estou dorida. Agora dei em tocar até às dez da noite. Não sei como é que consegui essa proeza sem ouvir nada (sei: arrecadação). Continuo sem saber quantas horas estudo. Não as conto. É o dia inteiro enquanto puder.

 

   ~ Dói-me o dedo.

Orquestrado por Violinista às 23:21
No momento, estou: Au.
Música do momento: To the unknown man - Vangelis
23 de Dezembro de 2011

   Para já, o melhor presente que já sei que posso esperar: um livro de história da música do período romântico até à actualidade. Sim, podia ter pedido também o primeiro volume, tenho amor ao clássico e ao barroco, mas achei que era pedir demais a uma pessoa que quero bem, e assim fiquei-me só pelo livro que dizia Paganini no índice.

   Eu sou esquisita.

   Infelizmente, não havia Tolkien, nem Sherlock Holmes, nem o Retrato de Dorian Gray...

 

   Acho deprimente estar num país que, das duas uma, ou compras cds de música erudita numa loja altamente especializada em procura e venda de cds, ou seja, uma loja onde uma colectânea de Bach vos custa os olhos da cara e o olho do cu; ou vais a uma Worten e vais às cestinhas do meio com as pechinchas, chafurdas naquilo até encontrares Beethoven e Karajan enfiados com coisas pimbas rascas, uns trezentos cds de Natal de todas as cores e maneiras e dvds de desenhos animados fracotes. Custam abaixo de cinco euros.

   Por um lado, é bom: basta-me ter paciência e persistência, e descubro pérolas no meio daquilo.

  

   Mas, não, não deixa de ser deprimente que esta música tenha sido metida sob o grande rótulo de clássica e esteja rebaixada ao nível que está, porque na sua maioria, as pessoas não a sabem apreciar. Nem dar-lhe valor.

Orquestrado por Violinista às 22:42
No momento, estou: Ligeiramente aborrecida
Música do momento: Concerto para 4 violinos em si menor - Vivaldi
Palavras soltas: , , , ,
25 de Outubro de 2011

   Bonito, já não está calor, já apanhámos alguma chuva. Não me devia queixar.

   Mas está frio. Tanto frio que agora as minhas mãos voltam ao inferno a que estão reservadas durante metade do ano: estão geladas e começam-me a doer os ossos. Os pés também, mas não me fazem tanta impressão, basta calçar uns dois ou três pares de meias em casa e andar. As mãos, as mãos, aí está o grande busílis.

   Porque eu preciso de tocar e com o frio os meus dedos perdem parte da capacidade para fazer o que quer que seja. Só sinto que consigo alguma coisa de jeito depois de estar duas horas com algum estudo de Kreutzer, e é na esquerda. A direita, de fria passa a gelada, de gelada a congelada. É o arco. Nem sequer sei como é que há de aquecer de alguma forma. E custa, porque não estou em casa, estou num espaço que gela. Este ano, com esta crise coisa, a coisa complica-se porque vamos cortar ao máximo os aquecedores. E eu quero cortar isso, não quero ser a única em casa a ter gastos desnecessários porque causa disto.

   Não aguento, porém, não aguento. Sou a única que já está a tirar e usar luvas porque as minhas mãos têm este problema. Não sei se está ligado ao facto de eu suar das mãos e depois, ao mínimo ar fresco, arrefecerem demais. Só sei que hoje foi o primeiro dia a ter as mãos geladas e não consigo evitar pensar que a aula hoje com o P foi do anedótico ao deprimente (a escala estava bem, o segundo andamento do concerto e o vibrato nele foi de chorar em desespero, pelos deuses que o primeiro andamento estava bem, e passámos à parte do vá, agora vamos fazer isto rápido, o quê?, vá rápido, e a coisa até saíu).

   Isto para não falar que ganhei uma borbulha no pescoço exactamente em La Mancha, que na verdade é um abcesso a dar para o doloroso de cada vez que encosto lá a queixeira, porque, sem ofensa mas as queixeiras da Stagg assassinam-me o pescoço. Um bocadinho de tempo e noto a impressão no maxilar.

   E há aula quinta feira. Não lhe disse nada, porque não sei como é que amanhã, com poucas horas para estudar (ódio, ódio, ódio), vou conseguir a proeza de sair bem na prova de quinta e não voltar a fazer treta na aula.

 

   Não, não vou. E depois da aula de hoje, depois da milionésima vez que ouço que o vibrato não pode ser nervoso, e a dificuldade em dominar até a mais simples coisa de técnica com as mãos geladas, e a prova mete staccato e spiccato pelo meio, depois de ver vídeos do Perlman no Youtube, e ouvir em casa que sou uma merda, que de merda não passo, pois claro, a confiança, se é que alguma vez cá morou, foi dar uma volta ao bilhar grande.

   Eu já sei que não vou passar de medíocre. Porra. Isso dói quando vemos a vida a andar para trás, porque não a quero de outra forma. Preferiria anular a minha existência.

   Bom, talvez na quinta entre em tanto negativismo depois de fazer merda da grossa que a auto-anulação seja possível.

 

   E não quero ouvir ninguém a dizer que eu tenho de pensar noutra coisa. Não quero, não gosto, já fiz antes, não vou voltar a fazer, não quero saber, eu só gosto de violino, mesmo que seja uma grande idiota de dedos gordos e toscos. Obrigada, foram muito prestáveis, davam excelentes conselheiros, dêem uma curva e vão-se embora que eu depois do desastre gosto de ficar sozinha a curtir a minha dor sem ter ninguém ao lado. A não ser que sejam pessoas nas quais estupidamente deposito confiança. E tragam chocolates. E abraços. E um cobertor quente.

Orquestrado por Violinista às 23:31
No momento, estou: Fear, fear, fear, fear, fear
Música do momento: The Piano OST - Michael Nyman

Violinista, C. S. L. Stradivaria. 19. Nº 5. Nº 13. Pseudo Violinista. Estudante. Nerd. Chapeleira. Vitoriana. Dandy Lolita. Incerta. Inconstante. Sonhadora. Inteligente. Invisível. Tímida. Imprevisível. Intelectual. Estranha. Deprimida. Lacrimosa. Egoísta. Respondona. Obcecada. Cínica. Anti-social. Teimosa. Orgulhosa. Calada. Perfeccionista. Louca. Baixinha. Ridícula. Original. Solilóquio em Celulóide. Violino. Música. Letras. Notas. Pautas. Relógios de Bolso. Cartolas. Magia. Paranormal. Roxo. Vermelho. Raposa. Coruja. Melro, Corvo e Pêga. Cisne. Pássaro de Fogo. Chocolate. Chuva. Quinta Dimensão. Submarino Amarelo. Petrushka. Viajante do Tempo. Extraterrestre. Fantasma.
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