A filha adolescente é um demónio. Não se controla, é a causa dos males de todos os dias, porque é uma inútil, porque não sabe falar, porque não dá valor às coisas, porque se esqueceu de uma coisa. Porque não acreditam que tenha mais em que pensar, porque não acreditam sequer que pense. Para quê, é só a filha adolescente. Elas só existem para aborrecer, reclamar, sujar, comer e mostrar o quão errado pode dar um projecto de criança.
Pergunto-me porque os pensamentos são tão desvalorizados. Porque os dramas que temos são ninharias atiradas ao vento, rebatidas por algum argumento que justifique que a pessoa não tem nada que se queixar. Pessoa não, adolescente. A adolescente não é pessoa, é um antro de defeitos pessoais. Não sabe o que é o amor, não sabe o que é a vida, não sabe pelo que sofre, os seus sonhos são apenas devaneios. Vivem para gastar dinheiro. Vivem à lá gardére.
São também uma coisa boa para troca. Ai a minha filha agora namora um bruto horroroso e responde-me mal. Ai, a minha não sai de casa, não larga os livros. A minha agora veste-se horrivelmente mal. E a minha? Agora decidiu-se num curso que não gosto, tira boas notas mas não quero. À mãe que apresentar o melhor problema dá-se um prémio, a consolação coma verdade unversal: as adolescentes são todas problemáticas que nada sabem da vida.
A adolescente já não pode com a mãe. Destrói-lhe o conforto do covil quando lhe dá na gana, porque são as soberanas daquele reino em cuecas, refila, vai dormir onde não deve, refila, acha que é a grande ditadora da moda, refila, afirma que sofreu como um mártir quando tinha aquela idade e a jovenzinha nem sabe o que é a vida, refila. Nunca nada está bem. A adolescente pode estar a fazer o maior esforço a estudar; se não for aquilo que a mãe quer, não faz nada nesta vida, só come e dorme. Pode estar a rebentar de vontade de chorar, até porque voltou àquela altura do mês. A cabeça muitas vezes dói com tantas ideias contraditórias dentro dela, e a insatisfação, uma grande insatisfação a tentar saber-se quem se é, e quem se vai ser.
Já pararam para perguntar à vossa adolescente se está bem onde está, hoje? Se a paixãzinha que dura há tempo é um tipo interessante e bonito? Qual é realmente a imagem que quer ter para o resto da vida, mas sem pressas, porque as ideias, até aos 18, mudam muito?
Vocês comigo fazem isso, porque eu já me resignei a ser uma monstrenga. Porque me tornei maluca, e teimei no violino. Mas com ela vocês não fazem isso. A ela não a destroem assim. Que eu já estou um bocadinho farta destas pessoas, que parece que nem nos querem considerar pessoas, que acham que estão muito correctas porque já passaram aquela fase, coisa que parece que não existe, morreu, foi enterrada. Vocês eram tão boas naquela idade, e nós tão malignas.



