Fantasma da Orquestra
Aquela figura negra que se senta no fundo da orquestra, o violino que se ouve ao longe na noite de espectáculo. Os bastidores da alma e do concerto que se leva nos ouvidos já bem depois de ter sido tocado. E treze fogos fátuos em cima da corda Lá.
14 de Abril de 2011

   Um cabo de uma vassoura velha, já sem nada que lhe valesse o nome e a fizesse capacitada de voltar a varrer o chão escuro e frio, e um cobertor fino, azul, escuro, e com desenhos de estrelas e planetas com anéis, erguiam-se no meio do quarto, em cima da cama, com a forma da vela inflada da barca da fantasia. Agarrava no candeeiro de lava e enfiava-o lá dentro, com as bolhas de plasma colorido a revoltarem-se no seu interior. Alguns livros, a caixa de música em cima deles, assim como o candeeiro, e o estojo, as imensas pastas com as partituras. Então, na sua roupa mais querida, fechava a ponta do cobertor. E estava no seu templo.

   Fosse noite ou fosse dia. No seu templo o tempo não existia, ou melhor, existia apenas o que era estrictamente necessário para a existência dela mesma e da música. Os ponteiros do relógio de bolso já deixavam de simbolizar horas a passar, mas sim um contínuo fluir de tempo insubstâncial e incontável.

   No seu refúgio. Os ruídos mundanos do lado de fora, lá ficavam. O cobertor das estrelas era barreira mais do que suficiente para barrar o que de fora vinha. Pelo menos dentro da sua cabeça, e a sua cabeça comandava a realidade ali no interior.

   As coisas perdiam o significado quando encostava o violino.

   De repente não haviam monstros, nem demónios a pulularem no seu interior, a alimentarem-se do seu peito com garras imundas que perfuravam a pele, nem aranhas gigantes de olhos cruéis, nem palhaços de olhos brancos vidrados e máscaras, nem os terrores de bata branca e seringas de dor. Por vezes o medo dela mesma ainda entrava e sentava-se em silêncio ao seu lado, sem dizer nada porque num templo até os diabos mais rebeldes colam os lábios e guardam as profanações para o seu ego.

   Só havia som. Só havia a linha contínua que criava entre os dedos, pouco se importanto com a dor de serem cada vez mais osso que carne, duros dos calos. Sem se importar com as veias cada vez mais salientes e ricas em sangue, que devia ser verde pois só isso devia justificar a cor dos riscos delineados nas costas da sua mão. Os lábios cerravam-se. Não havia voz que ali se pudesse erguer e ser mais verdadeira.

   No entanto, e invariavelmente, o templo vinha abaixo. Chamavam-lhe louca, inconsequente. Não compreendiam como é que era um ser vivo humano sendo assim, e se pudessem tê-la-iam escorraçado da Humanidade para fora. Nenhum outro Homem construía um templo que não fosse a um Deus, porém ela não tinha deuses. Ela só tinha a vontade, a alma, o violino e o cobertor de estrelas que imitava o céu lá fora quando era noite e o ar fresco lhe dançava nos cabelos.

   Gritavam. Falavam em vozes iradas. O cobertor, bem como as suas mãos e a sua cabeça, tinham caído. Cerrava os punhos, os olhos e a boca e aguardava, contando um tempo sem nexo nem horas, no seu âmago.

   Quando tudo terminava, agarrava novamente no cabo da vassoura nua, punha o cobertor de estrelas e planetas com anéis, dispunha os livros, ligava o candeeiro de lava e erguia-se de novo o templo.

Orquestrado por Violinista às 23:57
No momento, estou: Estranhamente só.
Música do momento: Csárdás - Monti
Palavras soltas: ,
20 de Março de 2011

   O homem velho e encurvado empurrava um carrinho com o ferro velho que comprava e vendia, sobre as pedras incertas da calçada. As barbas viçosas e lívidas ocultavam a sua face, deixando apenas espaço para dois olhos pequeninos e escuros, inquiridores, calados. Não haviam muitos a darem-lhe atenção alguma, e ele também não a pedia muito alto, apenas em voz roufenha. Ouvia-se apenas o chocalhar dos metais no carrinho e a música da caixa de um senhor na esquina, sempre a dar à manivela. Sons de acordeão flutuavam a esmo pela rua, com a sua voz rouca. Vendia antiguidades. É o nome pomposo que se dá às velharias que já ninguém quer, dizia no seu intímo.

   Panelas de cobre, Chocalhos, sinos. Os pratos de uma balança daquelas que já há muito não se usavam. Talheres desirmanados. Objectos de metal, de todos os tamanhos, alguns já nem se sabia o que eram, ou para que serviam, mas em breve apareceria alguém que os agarraria com as duas mãos calosas e levaria para casa, talvez inconsciente, talvez com ideias que não seriam com certeza as melhores, e lá ficariam até passar o próximo homem do ferro velho. Entre as suas coisas inúteis, por vezes apareciam raridades. Uma delas ali estava. Um relógio de mesa numa caixa de madeira, esculpida, bonita, mas rachada. Os ponteiros trabalhados em arabescos pretos, os números romanos ainda reluzentes, o vidro liso reflectindo o céu nublado acima das cabeças. Para coisas dessas era fácil arranjar um comprador. Por isso quando lhe pediam o preço, o velho sorria, mostrando os dentes que não tinha e os que tinha tortos e amarelados, e cuspia um preço bastante elevado.

   De alguma forma aquele relógio lhe valeria.

   De alguma forma, todas as coisas velhas valeriam a um velho. As coisas com idade encontravam-se todas numa mesma linha, sorriam entre si e estendiam as muitas mãos velhas, tocavam-se, reconheciam-se. Ele reconhecia tudo o que era antiguidade e lhe passava pelas mãos. Reconheceu aquele relógio no mesmo instante em que lhe tocara. Conhecia-o, recordava-o no seu primeiro dia de vida. Havia um outro relógio de mesa, mais bonito, mais valioso. Este, porém, agora tinha consigo um preço mais alto porque tinha sobrevivido. Ao outro, o destino fora cruel e deixara-o espatifar-se num chão encerado numa tarde de sol.

   A chuva vinha. Guardava o relógio num saco de papel e entregava-o ao seu novo dono, que aceitara pagar o que lhe pedia. Não era difícil convencer as pessoas, bastava ter paciência e óleo de enguia na língua, para as palavras certas escorregarem viciosas. Após isso, recolhia-se à sua concha de costas curvadas, retomava o seu cântico rouco e ignorava o chuvisco.

   As antiguidades, porém, sabiam que um dia viria a ferrugem.

   Sorte do que já se tinha vendido.

   Sorte do relógio antigo.

Orquestrado por Violinista às 23:03
No momento, estou: Cansada.
Música do momento: Valse des monstres - Yann Tiersen
Palavras soltas: ,
01 de Janeiro de 2011

   – Mas tu vais-te embora. Isso não é justo!

   Pela terceira vez a amiga gritava-lhe isso aos ouvidos. Gostava muito dela, demasiado para suportar vê-la triste porque se iam separar por tanto tempo. Que má ideia fora a dos pais se separarem e ir com a mãe para um país diferente, lá no Norte. Uma grande cidade completamente diferente ali da aldeia, uma escola diferente, uma língua diferente à qual não estava plenamente habituado, amigos diferentes.

   Tinha-a trazido pela mão até àquela encosta coberta de vegetação e flores roxas, que em breve se tornariam secas e da cor do ouro. Sentaram-se na terra dura e já quente do sol, a olhar para o lago lá em baixo, onde um pato vogava à superfície das águas escurecidas. Tinha-a chamado e trazido ali sem mais uma palavra, deixando-a na expectativa até lhe revelar o motivo. E ela, como já esperava, não reagiu bem, não reagiu nada bem. Também gostava muito dele. Sabia-o. E agora sabia-o ainda mais.

   – Eu vou-te escrever todos os dias. E todos os dias recebes uma carta...

   – Tonto, não vais. Não vais ter tempo, nunca tens tempo para nada. Eu sei como tu és. – Estava quase a chorar. As lágrimas vinham-he aos olhos azulados e davam-lhe vontade de tocar no rosto dela com suavidade, para as limpar.

   – Eu não te vou esquecer.

   Mas ela virou a cara para o outro lado, e parecia verdadeiramente irritada. Já não sabia o que lhe dizer. Tinha depositado confiança na paisagem preferida dela, para ver se amenizava a situação, mas pelos vistos não dera frutos nenhuns.

   – Não. Tu vais esquecer-me.

   E suspiraram os dois. Também não tinham outra opção senão resignarem-se ao que os esperava pela frente. Ele não podia obrigar a mãe a ficar, nem podia levar a amiga com ele. Já não havia nada a fazer.

   Lembrou-se, e tirou do bolso o velho relógio de bolso do avô materno, feito no tal país longínquo. Era bonito, em prata, com um intrincado padrão gravado na tampa e as duas iniciais do antigo dono, coincidentemente as dele também. Pousou-lho em cima da mão dela, aberta com a palma branca e fresca virada para cima, e fechou-lhe os dedos em cima do metal frio. Apertou-lhe a mão, consciente do tempo que estaria sem a ver e sem a sentir. Gostava muito daquele relógio. Gostava ainda mais dela.

   – Fica com este relógio. E assim vais contar as horas que eu vou demorar até voltar.

   Surpreendeu-se com o beijo quente e gordo que ela lhe deu na bochecha, antes de se levantar e de se ir embora, com o vestido de linho a esvoaçar à volta do seu corpo, das pernas longas aos saltos pelas flores roxas.

   Por ironia ou não, o relógio estava parado, e sempre esteve.

Orquestrado por Violinista às 20:46
No momento, estou: Cheia.
Música do momento: Largo - Veracini
Palavras soltas: ,
28 de Dezembro de 2010

   Sentou-se à beira da falésia, com os olhos fixos na fina linha do horizonte, colorida em milhares de tons concentrados nas cores do pôr-do-sol. Conseguia ver rosas, lilases, laranjas e vermelhos, dourado. As nuvens deixavam o branco embeber-se daquelas tonalidades. Sem dúvida que aquela paisagem, acima do mar, numa falésia que criava arrepios na espinha, embalada pelo ruído cadenciado das ondas nas rochas e os gritos ocasionais das aves, era digna de um quadro, poética o suficiente para se expôr em letras numa folha de papel, entalada em sentimentalismo.

   Contudo, isso não era para ele. Nem era tempo disso.

   Nem sabia que horas eram. Também não queria saber. Deixara em casa os relógios, de propósito, para ter uma desculpa suficientemente boa para fugir do tempo. Estava farto dele, porque o havia para tudo, e não havia para nada.

   O tempo era um velho senhor de barbas brancas, e cada fio de barba estava entrançado noutros com toda a história do mundo escrita neles. Um velho senhor magro, ora lento, ora enérgico. Dono de tudo. Havia tempo para tudo. Havia tempo para crescer, e tempo para amar. Havia o tempo de estudar, o tempo de dormir, o tempo de estar atento a qualquer coisa. Havia o tempo das refeições, e o tempo das discussões. Havia tempo para qualquer coisa. Tempo de antena, tempo de fama. Tempo de estar calado. Tempo de estar sentado na falésia a olhar para o céu com a cara de um idiota que olha pela primeira vez para o mundo, fascinado.

   E, contudo, o tempo não se controla, e quando se vai a ver, não há tempo para nada. O tempo, quando se lembra e, especialmente quando não se quer, desata a correr. Precisamente quando uma pessoa quer que ele se apresse, pára e torna-se vagaroso, tão vagaroso quanto um caramelo a derreter-se na boca, com a única diferença do primeiro não ser nada saboroso para ninguém.

   Não podia fugir do tempo para sempre. Ah, como bem o queria.

   O tempo é caprichoso e nem sob ameaça deixa de lado os vícios que tem. Ele podia ali ficar sentado e quieto quantas horas quisesse, que no final estas iriam ser-lhe cobradas de uma forma ou de outra. Não era por ele que o tempo ia parar e olhar também naquelas horas. De nada lhe serviria também tirar as pilhas ao relógio. Talvez se fosse um grande relógio, como o Big Ben. Com qualquer outro mais lhe valia deixar-se estar sossegado.

   Fechou os olhos. Inclinou a cabeça para trás e sorveu o ar carregado de sal, com os lábios entreabertos.

   E depois levantou-se, a contragosto, porque era tempo de ir.

Orquestrado por Violinista às 22:08
No momento, estou: Não sei.
Música do momento: This ranging light - David Fonseca
Palavras soltas: ,
01 de Dezembro de 2010

   Quando julgamos que somos muito, quase sempre descobrimos que não somos mais do que poeira. Diferentes tipos de poeira. Há a poeira grosseira, que com um safanão é sacudida para o chão onde pertence, e depressa nos esquecemos que ela alguma vez lá esteve, desagradavelmente em cima da manga do casaco. E há a poeira fina, aquela que se infiltra na malha e nos poros, e demora tempo e água a sair. Às vezes, nem com toda a chuva que o céu nos oferece, ela finalmente saí. Fica como uma mancha escura, um ponto sempre pronto a relembrar-nos de tudo. Não é necessariamente agradável. Mas há boas manchas e más manchas.

   Custa, à poeira, ser varrida. Esta espera sempre ser da fininha, para se infiltrar mais e mais fundo. No entanto, até essa se esbate e perde a sua força com o passar dos inflexíveis minutos. Uma queda é sempre uma queda, quer sejamos levados pelo vento ou por fim repousemos de volta à terra a que pertencemos.

   Um ser humano é poeira quando morre, e a morte não é mais que o total eclipsar do ser pelo esquecimento. O esquecimento é um monstro voraz, que das suas garras só restam as cinzas e as poeiras daquilo que um dia já foi nalgum lado, e agora já não é nada em cabeça alguma. Pior que o esquecimento, é a mente, que por vezes lhe pede a presença instintivamente, precisamente para te transformar em poeira e varrer da saia. E se todos fossem de pó grosseiro e seco, daquele que com uma pancada seca saí, que bem que a mente estaria, essa inimputável. O pior é quando surgem as poeiras finas. Como tu.

   Vais juntar-te a uma série de outras manchas, umas maiores, outras menores. A tua agora parece-me grande e escura, mas espera que logo virão as chuvas e as lágrimas, e essas tratarão de atenuar. Um dia mais tarde vou olhar para a tua mancha de pó fino, que antes, amontoado, era macio e dava prazer de lhe passar os dedos. Mais tarde, vou talvez rir de mim, ou ainda chorar. O esquecimento faz truques sujos para enganar a mente, porque há coisas que lá ficam. Perduram. Ele diz que as apagou e faz cara de inocente, mas estão lá.

   Também eu não serei mais que uma mancha de pó em cima de ti, agora. Serei fina, serei grosseira? Atirar-me-ás ao vento com uma única pancada, um riso sempre perdido nessa cara? Ou ficará também em ti uma mancha, para que nunca te esqueças do erro que se paga muito caro? Ou terás pena da poeira que sou, e lembrar-te-ás da condição de todos, igual a nós, e guardarás a minha poeira numa caixa de madeira colorida, que liberta música quando se abre e tem uma bailarina a dançar num tutu preso no eterno movimento?

   Não interessa. Por muito que custe, somos todos poeira e, inevitavelmente, vamos todos acabar ao sabor do vento.

Orquestrado por Violinista às 21:24
No momento, estou: Ainda um nojinho.
Música do momento: Romeo & Juliet Overture - Tchaikovsky
Palavras soltas: ,

Violinista, C. S. L. Stradivaria. 19. Nº 5. Nº 13. Pseudo Violinista. Estudante. Nerd. Chapeleira. Vitoriana. Dandy Lolita. Incerta. Inconstante. Sonhadora. Inteligente. Invisível. Tímida. Imprevisível. Intelectual. Estranha. Deprimida. Lacrimosa. Egoísta. Respondona. Obcecada. Cínica. Anti-social. Teimosa. Orgulhosa. Calada. Perfeccionista. Louca. Baixinha. Ridícula. Original. Solilóquio em Celulóide. Violino. Música. Letras. Notas. Pautas. Relógios de Bolso. Cartolas. Magia. Paranormal. Roxo. Vermelho. Raposa. Coruja. Melro, Corvo e Pêga. Cisne. Pássaro de Fogo. Chocolate. Chuva. Quinta Dimensão. Submarino Amarelo. Petrushka. Viajante do Tempo. Extraterrestre. Fantasma.
Click to view my Personality Profile page
origem
blogs SAPO
As minhas Músicas
Onírio
Largo
Procura nos recantos
 
Biblioteca da Orquestra
<a href="http://www.youtube.com/watch?v=xsFJS4I_05E?hl=en&autoplay=1"><img src="http://www.gtaero.net/ytmusic/play.png" alt="Play" style="border:0px;" /></a>