Um cabo de uma vassoura velha, já sem nada que lhe valesse o nome e a fizesse capacitada de voltar a varrer o chão escuro e frio, e um cobertor fino, azul, escuro, e com desenhos de estrelas e planetas com anéis, erguiam-se no meio do quarto, em cima da cama, com a forma da vela inflada da barca da fantasia. Agarrava no candeeiro de lava e enfiava-o lá dentro, com as bolhas de plasma colorido a revoltarem-se no seu interior. Alguns livros, a caixa de música em cima deles, assim como o candeeiro, e o estojo, as imensas pastas com as partituras. Então, na sua roupa mais querida, fechava a ponta do cobertor. E estava no seu templo.
Fosse noite ou fosse dia. No seu templo o tempo não existia, ou melhor, existia apenas o que era estrictamente necessário para a existência dela mesma e da música. Os ponteiros do relógio de bolso já deixavam de simbolizar horas a passar, mas sim um contínuo fluir de tempo insubstâncial e incontável.
No seu refúgio. Os ruídos mundanos do lado de fora, lá ficavam. O cobertor das estrelas era barreira mais do que suficiente para barrar o que de fora vinha. Pelo menos dentro da sua cabeça, e a sua cabeça comandava a realidade ali no interior.
As coisas perdiam o significado quando encostava o violino.
De repente não haviam monstros, nem demónios a pulularem no seu interior, a alimentarem-se do seu peito com garras imundas que perfuravam a pele, nem aranhas gigantes de olhos cruéis, nem palhaços de olhos brancos vidrados e máscaras, nem os terrores de bata branca e seringas de dor. Por vezes o medo dela mesma ainda entrava e sentava-se em silêncio ao seu lado, sem dizer nada porque num templo até os diabos mais rebeldes colam os lábios e guardam as profanações para o seu ego.
Só havia som. Só havia a linha contínua que criava entre os dedos, pouco se importanto com a dor de serem cada vez mais osso que carne, duros dos calos. Sem se importar com as veias cada vez mais salientes e ricas em sangue, que devia ser verde pois só isso devia justificar a cor dos riscos delineados nas costas da sua mão. Os lábios cerravam-se. Não havia voz que ali se pudesse erguer e ser mais verdadeira.
No entanto, e invariavelmente, o templo vinha abaixo. Chamavam-lhe louca, inconsequente. Não compreendiam como é que era um ser vivo humano sendo assim, e se pudessem tê-la-iam escorraçado da Humanidade para fora. Nenhum outro Homem construía um templo que não fosse a um Deus, porém ela não tinha deuses. Ela só tinha a vontade, a alma, o violino e o cobertor de estrelas que imitava o céu lá fora quando era noite e o ar fresco lhe dançava nos cabelos.
Gritavam. Falavam em vozes iradas. O cobertor, bem como as suas mãos e a sua cabeça, tinham caído. Cerrava os punhos, os olhos e a boca e aguardava, contando um tempo sem nexo nem horas, no seu âmago.
Quando tudo terminava, agarrava novamente no cabo da vassoura nua, punha o cobertor de estrelas e planetas com anéis, dispunha os livros, ligava o candeeiro de lava e erguia-se de novo o templo.



