Fantasma da Orquestra
Aquela figura negra que se senta no fundo da orquestra, o violino que se ouve ao longe na noite de espectáculo. Os bastidores da alma e do concerto que se leva nos ouvidos já bem depois de ter sido tocado. E treze fogos fátuos em cima da corda Lá.
23 de Fevereiro de 2012

   Estou numa crise existencial absurda e estúpida.

 

   Eu acho-me uma merda. Ponto. As pessoas dizem-me que eu tenho de ter confiança nelas e em mim mesma, e eu não tenho, é escusado, eu não consigo tê-la nem ir arranjá-la a lado nenhum. Eu já não acredito nas pessoas quando dizem que gostam de mim, é mentira. Comecei praticamente a tocar violino durante todas as horas possíveis, não as conto, deito-me tarde. Eu gosto de estudar isto, a sério que gosto. Mas começo-me a frustar quando parece que já não é suficiente, eu já não sou suficiente. Está, pormenores, tenho de os ver (a verdade é que eu vou para lá com nervos, com medo, com eu sei lá o quê, e só de achar que vai sair mal as coisas vão sair sempre a medo), está bem, afinação é e sempre será um problema, assim como bem sei que falho no tempo, na dinâmica...

   Porra, eu alguma vez toquei bem alguma coisa? Não. Não acho.

 

   Ensaio de piano mais o teste. Visão que eu tenho de tudo? Fui uma merda.

   Já nem me lembro se me foram ditas coisas boas de mim. Já nunca me lembro. Só me lembro sempre de estar à baixar a cabeça de vergonha à frente de uma pessoa de quem escondo que gosto, que me aponta erros, erros, erros, que eu sei que é alguém muito superior a mim e nem precisa de se esforçar nada para isso, de quem tenho inveja, e respeito, e estima, e que tenho medo que tenha... o quê? Nojo de mim? Já o deve ter. Raiva? Muita. Vai-me baixar a nota e mudar de ideias a respeito de alguma vez conseguir ser alguma coisa, tipo, violinista? Mais que certamente.

 

   E agora adivinhem quem é que se vai espalhar com o Kabalevsky numa audição muito em breve.

 

   Já não sei o que me fazer, eu não sirvo para nada, vou acabar velha miserável e sozinha debaixo da ponte. Triste. Acho que devo ter atingido um dos meus pontos mais baixos.

 

   Também já não vale a pena andar a esconder isto, já que tenho para aqui como visitantes umas 10 ou mais pessoas da minha cidade. Que eu até acho que consigo adivinhar quem são.

 

   Fique a saber sua excelência que podia resolver muitos dos meus problemas se simplesmente conversasse comigo. Eu nem sequer sou capaz de falar muito alto na sua presença, e tenho mais medo do que o que possam eventualmente ter de mim. Ainda por cima, uma pessoa que tem a sorte de eu gostar. Posso ser tosca, fraca em demonstrações disso, mas quando gosto de alguém, gosto e pronto, não gosto é quando eu tenho que andar calada por muito tempo e a sentir que sou ignorada e chutada para o canto como se fosse lixo.

Orquestrado por Violinista às 19:33
No momento, estou: Uma crap
Música do momento: Concerto para violino de Kabalevsky
27 de Janeiro de 2012

 

 

 

 

   Não sei como me deixei cair daquela forma. Foi a maior merda que fiz em toda a vida. Não acredito que tenha realmente dúvida de quem eu sou e porque o sou, o que faço e as dificulades que também tenho. Em suma, quis ser perfeita, tornei-me num monstro e, eventualmente, deixem lá ver se eu passo esta noite e a próxima sem enfiar mais de meia caixa de Trazodona goela abaixo.

    Eu tenho probleminhas. Mentais.

    Eu gosto imenso dele, e é agora que me odeia, de certeza. Eu sabia. Ia haver ódio à conta de eu ser estúpida. É o inferno do ano passado all over again. Desta vez eu não aguento, já me arrastei por muito mais tempo que devia, eu não tenho forças.

 

    E, à parte, muito giro que se toque Salieri no aniversário de Mozart.

 

   Estou a ficar maluca.

Orquestrado por Violinista às 23:01
No momento, estou: Aponto para cima
Música do momento: Hey You - Pink Floyd
25 de Janeiro de 2012

   Hoje o olhar morreu-se-me cá dentro. Desci ao chão, uma queda lenta amparada pelas costas a resvalar na parede branca e fria da caixa para onde se atiram as bonecas que já não se querem, porque o mecanismo está estragado. Sou uma boneca de olhos vesgos, com a podridão a sair em lugar dos cabelos. Custa-me andar, estou fraca. Custa-me fingir mais um sorriso, sou fraca. As músicas confundem-se dentro do que antes era cérebro e agora não sei o que é. Não tenho sanidade mental, tenho Salieri e Shostakovich de mãos dadas aos pulos dentro do meu crânio. Os olhos, os mesmos que englobavam a imensidão de uma vista de um monte alentejano, deixaram-se derramar no pasto, na última vez que lá estive. Deixei lá o que de bom ainda me restava, deitado na saliência de pedra a olhar para longe, a fazer festas ao gato com uma mão mole.

   Hoje resta apenas o correr das facas sobre a minha pele. Sangue no preto. Pupilas aumentadas. Fios vermelhos sobre o preto e sobre o branco, fios que falharam. Hoje resta-me estar fria. Não porque acreditam piamente que eu sou um demónio que não tem coração. Porque na verdade eu amo. Mas a pessoa que eu amo, odeia-me profundamente e tem todas as razões do mundo para o fazer. Não muda nada. Amar e não ser amada em troca. Mais me valia não ter mesmo coração nenhum.

   Só tenho por companhia a sombra, e até já ela me abandona. Tenho meia caixa de comprimidos para dormir. Não sei qual é a dose letal daquilo, mas meia caixa deve servir. Um. De seguida outro. Um pelas palavras que ouvi e me cortaram. Outro pelo meu amor que me fugiu muito antes de eu ter hipótese de lhe dar a mão por uma única vez. Um pelo meu coração morto. Outro para o cérebro que jaz no chão e apodrece.

   Não, amanhã não acordo viva.

Orquestrado por Violinista às 23:45
No momento, estou: Não sinto nada.
Música do momento: Out of the ruins - Michael Nyman
Palavras soltas: , , ,
30 de Dezembro de 2011

   Acorda vinda de sonhos estranhos onde aparecem as pessoas que conhece num pequeno teatro mal organizado, onde se pode ver as linhas presas aos pulsos. Uma música qualquer em looping contínuo, e algumas vozes encenadas pela sua própria cabeça. A sua consciência, a sua consciência má, e as vozes que imagina na brincadeira.

   Dói a cabeça. Está pesada, não tão pesada quanto o chumbo do coração.

   Os olhos clareiam e fecham-se numa expressão de permanente cansaço e permanente tristeza. Move-se lentamente, empurrada pelos ponteiros do relógio. Toca. O tempo galopa quando o faz, e de repente já é tão tarde. Come, e luta contra a falta de apetite, quando a única coisa que poderia comer era chocolate, absurdas quantidades de chocolate.

   Entre o seu perfume no ponto onde o violino encontra pele, insinua-se outro. Já viu tantos sinais estranhos, que lhe pareciam pistas deixadas pelo universo, que já se cansou de se estar a iludir. Apenas dói mais. A vergonha de si mesma pesa no braço que estende para tentar fazer alguma coisa, acha que já não vale a pena. Mergulha no negrume de si mesma. Olha-se ao espelho e vê uma coisa negra a olhar, uma coisa negra a tocar, uma massa negra disforme apenas.

   O medo tornou-se imperador e saiu à rua das artérias. Os dissidentes da monarquia da tristeza ainda estão escondidos, planeiam a sua fraca estratégia.

   Entretanto ela já viu o que a espera. Chora. Volta a adormecer. Volta a acordar sem forças no dia seguinte, repete o ciclo, volta à cama, aos sonhos bizarros.

   Ela toda é uma metáfora. Uma metáfora negra, para a qual se evita olhar. O cérebro apodreceu, tem mioleira preta lá dentro e desfaz-se nas cores de um arco-íris corrompido.

Orquestrado por Violinista às 18:38
No momento, estou: Black pitch
Música do momento: Hey You - Pink Floyd
16 de Novembro de 2011

   Por mais que tente, não consigo passar uma semana sem fazer ou dizer alguma merda que volte a arrumar com a estabilidade familiar.

  

   Eu sei que tirei a carta, e que devia conduzir. Eu sei que ando a pé na cidade um caminho que me leva uns bons vinte minutos a meia hora, e nem sou lenta a andar. Algumas tantas vezes, de noite. Eu sei que levo com chuva em cima, e granizo.

 

   Eu não sei o que fazer e gostava que entendessem isso, que eu não tenho mais ponta por onde pegar no raciocínio, que eu estou cada vez mais cansada. Quero ajuda, porra. Simplesmente quero uma pessoa no mundo inteiro que me ouça e entenda quem eu sou, sem me dizer que sou feia, burra, estúpida, mal vestida, inútil, maluca, e que é impossível eu realizar o que quero. Isso já me disseram, mil e quinhentas vezes, não é necessário repetir.

 

   Eu já não sei como é que hei-de pedir que os meus desejos se tornem, pelo menos, mais acessíveis. Estou farta de andar á luta todos os dias e todos os dias magoada com tudo e comigo mesma.

 

   Isso ou o botão off.

Orquestrado por Violinista às 23:26
No momento, estou: Posso deixar em branco?
Música do momento: Miranda - Michael Nyman
Palavras soltas: , , ,

Violinista, C. S. L. Stradivaria. 19. Nº 5. Nº 13. Pseudo Violinista. Estudante. Nerd. Chapeleira. Vitoriana. Dandy Lolita. Incerta. Inconstante. Sonhadora. Inteligente. Invisível. Tímida. Imprevisível. Intelectual. Estranha. Deprimida. Lacrimosa. Egoísta. Respondona. Obcecada. Cínica. Anti-social. Teimosa. Orgulhosa. Calada. Perfeccionista. Louca. Baixinha. Ridícula. Original. Solilóquio em Celulóide. Violino. Música. Letras. Notas. Pautas. Relógios de Bolso. Cartolas. Magia. Paranormal. Roxo. Vermelho. Raposa. Coruja. Melro, Corvo e Pêga. Cisne. Pássaro de Fogo. Chocolate. Chuva. Quinta Dimensão. Submarino Amarelo. Petrushka. Viajante do Tempo. Extraterrestre. Fantasma.
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