Fantasma da Orquestra
Aquela figura negra que se senta no fundo da orquestra, o violino que se ouve ao longe na noite de espectáculo. Os bastidores da alma e do concerto que se leva nos ouvidos já bem depois de ter sido tocado. E treze fogos fátuos em cima da corda Lá.
08 de Julho de 2010

   Lembro-me de meter o despertador para as sete e meia, mas ao que parece, esqueci-me de o ligar. Acordei às nove, cheguei atrasada porque já passavam das dez, para descobrir que a consulta, afinal... era ontem. Não tinha escrito nada no papel desta vez porque tanto eu como o psicólogo nos esquecemos, e desta vez não enviaram aviso nenhum para o meu pai. Vou ter de lá voltar às duas para trocar duas palavrinhas rápidas com ele e é só.

   Depois, passei pela escola para ver as notas. Ia confiante de não ter nenhuma negativa, à espera de resultados que fossem, pelo menos, razoavelmente bons. Acho que não me desiludi. Não vou refazer nenhum exame, por isso, para mim, termina aqui a longa jornada que foi este ano lectivo. Férias. Sabe finalmente a férias.

   Resultados:

   Português: 18 Exame: 16 : 17

   Matemática: 17 Exame: 17 : 17

   Química: 19

   Biologia: 19

   Área de Projecto: 19

   Educação Física: 13

   Com 15 no exame de Biologia do ano passado, e 16 no exame de Química do ano passado. A coisa está assim.

   Eu sei que não me devia rir da desgraça alheia, mas não consigo evitar. Aquela pessoa tão simpática que se disse minha amiga, que disse aos céus que ia publicar um livro, que escrevia bem e que quer seguir Medicina (que, de longe, o sonho que os meus pais tinham, e que para eles agora é só mágoa, mágoa, mágoa), conseguiu, nos exames, um 10 a Português (faltavam os seis valores da minha parte da gramática e interpretação), e um 7 a Matemática (os outros dez valores a mais que conseguia nos testes e exames dos anos anteriores eram feitos por mim, que eu chegava a saber as outras versões dos testes). Sabem, a gratidão que ela me teve neste último ano, e o quão boa amiga ela foi para mim, que eu saí de lá com um pequeno sorriso na cara.

   Entretanto, o meu pai já me telefonou, ironizou a situação que eu passo e que eu vou ser "muuuuito feliz com o sonho", e já me pôs mais mal disposta ainda.

   Amanhã tenho de lá passar para ir buscar a carta de finalização do 12º, ou coisa assim. Ainda bem que a Di vai lá inscrever-se para a segunda fase dos exames, senão só me restava ir sozinha, a amargar pelo caminho a fora.

Orquestrado por Violinista às 11:18
No momento, estou: Terminei o ano.
Música do momento: Superstars - David Fonseca
08 de Junho de 2010

   Adeus escola. Adeus, monoblocos protótipos de estufas. Adeus, chuva de ar-condicionado nas nossas cabeças. Adeus, bar apinhado de gente pézuda. Adeus, stress, adeus, aulas, adeus. Adeus, meninas chiques que se acham assim as melhores. Adeus, pessoa que era minha amiga e acabou por me virar a vida social num inferno. Adeus, pessoal que nunca falava comigo, mas que me fazia as costas quentes. Adeus, pessoas odiosas e, ao mesmo tempo, tão boas, puras e castas.

   Ainda tive de ir receber o prémio do concurso literário que ganhei. Um diploma, dois livros que devorarei depois de dois pendentes que tenho, o livro publicado pela escola com os nossos textos, e um par de beijocas ao director da escola.

   Depois disso, só restou o desespero. Nem fui ao jantar de turma. E acho que agravei muito a minha situação.

 

   Simplesmente, ponham-se no lugar do L quando eu não apareço, a não ser no turno do Miúdo, e em vez de entrar na sala lhe digo "Adeus" assim daquela maneira estranha e distante que só eu sei dizer. E o que é que vos passava pela cabeça? Eu simplesmente já tinha chorado, já tinha entrado em desespero sem saber se havia aula ou não, se batia à porta ou não. A raiva que eu não ganhei em cima de mim hoje.

   Mas tive aula, e quinta vou levantar-me às oito só para lá estar às nove. E, que alívio, tirando um mi bemol deslocado, eu resolvi o meu problema com o estudo. Nunca na vida me tinha sentido tão cansada e feliz ao mesmo tempo, apesar de não estar ainda tão bom como outros, e eu ainda ter muito medo de falhar redondamente na prova. Disse que eu escolhi bem os andamentos, e em princípio, vai tudo nos meus conformes.

   Não quero pensar, mas é realmente na próxima semana que digo adeus a todos. De verdade.

   Só me apetece chorar. Encolhidinha num cantinho.

   Eu sou tão estúpida!

Orquestrado por Violinista às 23:18
No momento, estou: Estúpida.
Música do momento: Fantastic Place - Marillion
17 de Maio de 2010

   E após este tempo todo, quase um ano lectivo inteiro, finalmente entregam os códigos para os computadores portáteis do e-Escola.

   Finalmente, lá vou eu receber o meu "portátilzinho", para encher com os meus documentos Word, as minhas fotos, o Finale e uma catrefada de filmes e músicas, bem como de endereços de sites e blogs. A mais nova extensão de mim mesma.

    Agora vou é esperar sentada por ele. Ainda só tenho um monte de letras e números, que é o código. Só vou festejar mais a sério quando este se transformar no dito cujo mesmo debaixo dos meus dedos.

 

   Mas não vou deixar em branco, sem antes reclamar que: há muito que começaram os trabalhos a fazer no computador, de pesquisa, power points e afins. Se eu não tivesse o outro portátil, meu e do pai, estou para ver como é que eu me arranjava. Sou eu que levo o portátil para lá, muitas vezes, porque os conmputadores da escola estão partidos, literalmente, com falta de teclas, drives e afins. Também lá têm portáteis, mas se não estão já requisitados, então estão com um qualquer vírus surpresa no seu interior. É agora, quase no final do ano, que eu vou receber o código. De computador na escola, não vou usufruir nada. Mas, de qualquer das formas, é um portátil para mim, mais baratinho. E, de qualquer forma, apesar do atraso, apesar do plano de tecnologia nas escolas não estar a ser grande plano, tenho de agradecer.

   Pronto. Agradeci.

   Mas reclamo também.

   Que ainda vou ter de esperar mais um bom bocado até que mo deiam aqui nas mãozinhas.

Orquestrado por Violinista às 16:32
No momento, estou: Alergias, alergias.
Música do momento: Petrouchka - Stravinsky
13 de Abril de 2010

   Eu andava por aí a dizer que era o fim, em ares de Apocalipse. Eu sou a rainha do drama quando quero, faço o pior serviço e ando logo a arcar com um peso em cima dos ombros que vem sei lá eu donde. Da minha cabeça, suponho. Por isso, sei que sou uma pessoa horrível, e que o que aqui escrevo se está a tornar horrível. Mas o blog ainda é meu.

   Voltei às aulas. Com a frustração de não pôr mais os pés no edifício principal este ano, pergunto-me como é que esperam que façamos um exame nacional de Matemática de duas horas enfiados num monobloco onde só se está bem se estivermos nus e a despejar garrafas de àgua pela cabeça abaixo. Todos me perguntam como foram as férias, já que a malta toda ou quase toda foi a Ibiza, e eu fiquei cá. É óbvio que as minhas férias não foram nada grande coisa. Aliás, foram más. Se eu não me tivesse frustrado tanto, e sem uma mãe a dormir ao lado, até teria aproveitado mais. Assim, foram apenas tempo para eu pensar, chatear-me com inutilidades e outras coisas de maior importância, e ficado a moer-me o juízo.

   A segunda feira foi normal.

   Mas hoje... hoje era terça, e as terças são aqueles dias. Não são os dias surpresa, se bem que hoje tinha extra-dose com o P. Hoje era dia de ir enfrentar alguém cujas coisas eu não tinha ali, e quase de certeza que ia ouvir um sermão do tamanho da bíblia por causa do Workshop. Além disso, não sabia como eu me iria aguentar, ou não, ali em frente a ele. Depois de tudo o que eu já pensei. Fiz o caminho a pé, e estava já um calor um bocado abafante, para a t-shirt e casaco que levava. Mas não me apetecia tirá-lo. O meu estômago dava voltas e borboletava o caminho inteiro, como se tivesse vida própria e resolvesse manifestar a sua criatividade. Já o coração, como é hábito, nestas alturas torna-se pesado e lento como uma pedra. Assim que lá cheguei, era uma pedra que me arrastava para o fundo. Resolvi distrair-me com um jogo no telemóvel, de preferência um silêncioso. A continuação de um jogo de Snake, com uma cobra já gigantesca. Provavelmente, o meu recorde até hoje. Pois bem, a cobra morreu e eu fiz beicinho por causa da cobra morta, precisamente na hora em que o L me aparecia à frente e me pedia para subir. Estava com o mp4 entalado nos lábios, quase o engolia. Depois lembrei-me que o mp4 já esteve na casa de banho, e já caíu uma vez dentro da sanita (limpa) (e foi um problema enormíssimo, tive de o secar, mas sobreviveu), e cuspi.

   Subir as escadas foi um dilema. Entrar naquela sala e fechar a porta, claustrofófico. Esqueci-me da minha resolução, e vá de ficar só em t-shirt, de cabelo mal apanhado, e à espera de ouvi-las. Nada. Nicles. As coisas que não me mandou, tinha ali para eu as ver naquela aula, e exercitar a leitura à primeira vista, na qual eu, no meu primeiro aninho a trabalhar com escalas e formação musical, falho consideravelmente. Eu tinha o livro do Kreutzer, que o P lembrou-se da caridade que me prometeu à meses atrás de o enviar. P não vai gostar de saber que já rabiscámos ali umas páginas. E P não vai gostar de saber o resto da missa de hoje...

   O L introduz-me ao magnífico mundo do vibrato.

   Ou melhor: "Ena pá! Descobri uma coisa pior que trilos, barroco de Bach e arcadas tramadas tudo junto." Só por esta afirmação, está-se mesmo a ver que eu não mandei uma para a caixa. Eu estou a ver dores de cabeça na minha bola de cristal. Isso, e o P com um beicinho de chegar à China.

   Passados alguns minutos daquele tempo, eu já estava esquecida do medo que tinha. Estávamos antes de roda das minhas mãos (e mais uma vez fico triste, porque o meu mindinho é "bem constituído", ou seja... gordo). E de roda do estudo, do concerto, das escalas. E depois o Dueto de Mazas quando o parceiro chegou. A coisa só descambou quando eu saí de lá. Despediu-se com um "Até sexta", que depois se transformou num "talvez não", por causa da minha hesitação. Se por um lado quero ir, por outro lado... eu dou-me tão mal com aquilo. Fui a pé para casa, e chovia.

   Cheguei à aula do P encharcada e a tremer de frio. Desta vez, não mudei de peça ainda, mas estivemos a inventar histórias barrocas, mais uma vez, para ver se eu entendo o Handel. E com direito a vê-lo a dançar. Isto não é para qualquer um, estou-me a sentir privilegiada. Eu custo a chegar lá, mas acho que assim que chegar, então fica tudo bem.

 

   A meio, ou nos finais de Maio, será a semana dos instrumentos de Corda. Se alcançar o dia 29, daria pulos de alegria. E o L foi-nos pedir trabalhinhos para expôr lá nas paredes. Pois é, ninguém avisou o pobre homem para nunca me pedir isso. Estou indecisa entre fazer uma apologia epico-trágica sobre o violino, ou uma apologia epico-maniaco-fanática sobre o Paganini. A última é altamente tentadora.

Orquestrado por Violinista às 22:27
No momento, estou: A rir das cenas barrocas
Música do momento: Hey Jude - The Beatles
22 de Março de 2010

   Fiz hoje o último teste deste malfadado período. De Matemática. A partir de hoje, posso finalmente suspirar um bocadinho de alívio, com a escola comum. A partir de hoje, digo adeus às aulas, para duas semanas de férias. Que, se bem calha, para muitos nem saberiam a férias, e iriam achar logo que eu me envolvo em demasiado. Eu inscrevime no Workshop. Serão três dias, em que poderei ir lá espreitar, em que terei uma aula com um professor aqui da Universidade já diagnosticado com "falta de paciência" (tenho de perguntar ao L quanta paciência é que ele gasta comigo, afinal).

   Então, enquanto a minha turma nova e a minha turma velha, com os meus amigos (incluindo a Di) vão para a viagem de finalistas, em Ibiza, beber, dançar, ficar de papo para o ar na praia, e sabe-se lá mais o quê, eu fico aqui.

   Sei o que isso significa. Significa que não fiz a minha viagem de finalista, que perco mais um marco na vida de estudante adolescente. Em vez de viajar, de me ir divertir com amigos, de deitar a vida para trás e fazer actos sem pensar nas consequências, só porque ainda sou adolescente, fico aqui, na minha cidade, com as minhas coisas e o meu computador. Tudo porque eles partem logo na sexta à tarde, e as audições finais são no sábado. Eu, na altura, não sabia que se ia passar o que se está a passar agora, sacrifiquei a viagem por um lugar na orquestra. Aliás, sacrifiquei muito para ir lá, e agora... estou perdida. Então não era o que eu queria? Porque é que não me corre bem? Porque é que eu não me estou a integrar, e isto me está a pôr apenas mais enervada e confusa?

   E o Workshop... bem, confesso, agora tenho medo desse tal professor de Universidade.

   Eu estou para ver amanhã. O concerto está num ponto um bocado instável: eu acho que sei, sei a pauta de cor, mas erro sempre numa parte, e de cada vez que faço de novo, erro numa parte diferente. Junta o medo do palco a isso, os nervos, e a falta de amigos na plateia porque a Di não vai e não sei se apanho o meu pai lá, et voilá, temos desastre cultural eminente.

   De repente, o "nasceste para isto, Violinista" some-se no ar como fumo. E eu volto ao que era antes. Volto a sentir-me miserável, vazia, incompleta. Volto a baixar-me, porque acho-me sempre errada, ou burra, faça o que fizer. Não há música que acabe com isso, será sempre a próxima a ouvir, a próxima a fazer, e nunca é.

   Pior que isso só hoje, na consulta da semana com o psicólogo, falar nele, e chamar-lhe "ser superior". Mas não deixa de ser verdade. Sendo mais velho, formado, sabendo mais numa unha que eu no corpo inteiro, isso faz dele superior. Lógico.

Orquestrado por Violinista às 16:02
No momento, estou: Mesmo confusa
Música do momento: It's the end of the world as we know it - R.E.M.

Violinista, C. S. L. Stradivaria. 19. Nº 5. Nº 13. Pseudo Violinista. Estudante. Nerd. Chapeleira. Vitoriana. Dandy Lolita. Incerta. Inconstante. Sonhadora. Inteligente. Invisível. Tímida. Imprevisível. Intelectual. Estranha. Deprimida. Lacrimosa. Egoísta. Respondona. Obcecada. Cínica. Anti-social. Teimosa. Orgulhosa. Calada. Perfeccionista. Louca. Baixinha. Ridícula. Original. Solilóquio em Celulóide. Violino. Música. Letras. Notas. Pautas. Relógios de Bolso. Cartolas. Magia. Paranormal. Roxo. Vermelho. Raposa. Coruja. Melro, Corvo e Pêga. Cisne. Pássaro de Fogo. Chocolate. Chuva. Quinta Dimensão. Submarino Amarelo. Petrushka. Viajante do Tempo. Extraterrestre. Fantasma.
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