Eu andava por aí a dizer que era o fim, em ares de Apocalipse. Eu sou a rainha do drama quando quero, faço o pior serviço e ando logo a arcar com um peso em cima dos ombros que vem sei lá eu donde. Da minha cabeça, suponho. Por isso, sei que sou uma pessoa horrível, e que o que aqui escrevo se está a tornar horrível. Mas o blog ainda é meu.
Voltei às aulas. Com a frustração de não pôr mais os pés no edifício principal este ano, pergunto-me como é que esperam que façamos um exame nacional de Matemática de duas horas enfiados num monobloco onde só se está bem se estivermos nus e a despejar garrafas de àgua pela cabeça abaixo. Todos me perguntam como foram as férias, já que a malta toda ou quase toda foi a Ibiza, e eu fiquei cá. É óbvio que as minhas férias não foram nada grande coisa. Aliás, foram más. Se eu não me tivesse frustrado tanto, e sem uma mãe a dormir ao lado, até teria aproveitado mais. Assim, foram apenas tempo para eu pensar, chatear-me com inutilidades e outras coisas de maior importância, e ficado a moer-me o juízo.
A segunda feira foi normal.
Mas hoje... hoje era terça, e as terças são aqueles dias. Não são os dias surpresa, se bem que hoje tinha extra-dose com o P. Hoje era dia de ir enfrentar alguém cujas coisas eu não tinha ali, e quase de certeza que ia ouvir um sermão do tamanho da bíblia por causa do Workshop. Além disso, não sabia como eu me iria aguentar, ou não, ali em frente a ele. Depois de tudo o que eu já pensei. Fiz o caminho a pé, e estava já um calor um bocado abafante, para a t-shirt e casaco que levava. Mas não me apetecia tirá-lo. O meu estômago dava voltas e borboletava o caminho inteiro, como se tivesse vida própria e resolvesse manifestar a sua criatividade. Já o coração, como é hábito, nestas alturas torna-se pesado e lento como uma pedra. Assim que lá cheguei, era uma pedra que me arrastava para o fundo. Resolvi distrair-me com um jogo no telemóvel, de preferência um silêncioso. A continuação de um jogo de Snake, com uma cobra já gigantesca. Provavelmente, o meu recorde até hoje. Pois bem, a cobra morreu e eu fiz beicinho por causa da cobra morta, precisamente na hora em que o L me aparecia à frente e me pedia para subir. Estava com o mp4 entalado nos lábios, quase o engolia. Depois lembrei-me que o mp4 já esteve na casa de banho, e já caíu uma vez dentro da sanita (limpa) (e foi um problema enormíssimo, tive de o secar, mas sobreviveu), e cuspi.
Subir as escadas foi um dilema. Entrar naquela sala e fechar a porta, claustrofófico. Esqueci-me da minha resolução, e vá de ficar só em t-shirt, de cabelo mal apanhado, e à espera de ouvi-las. Nada. Nicles. As coisas que não me mandou, tinha ali para eu as ver naquela aula, e exercitar a leitura à primeira vista, na qual eu, no meu primeiro aninho a trabalhar com escalas e formação musical, falho consideravelmente. Eu tinha o livro do Kreutzer, que o P lembrou-se da caridade que me prometeu à meses atrás de o enviar. P não vai gostar de saber que já rabiscámos ali umas páginas. E P não vai gostar de saber o resto da missa de hoje...
O L introduz-me ao magnífico mundo do vibrato.
Ou melhor: "Ena pá! Descobri uma coisa pior que trilos, barroco de Bach e arcadas tramadas tudo junto." Só por esta afirmação, está-se mesmo a ver que eu não mandei uma para a caixa. Eu estou a ver dores de cabeça na minha bola de cristal. Isso, e o P com um beicinho de chegar à China.
Passados alguns minutos daquele tempo, eu já estava esquecida do medo que tinha. Estávamos antes de roda das minhas mãos (e mais uma vez fico triste, porque o meu mindinho é "bem constituído", ou seja... gordo). E de roda do estudo, do concerto, das escalas. E depois o Dueto de Mazas quando o parceiro chegou. A coisa só descambou quando eu saí de lá. Despediu-se com um "Até sexta", que depois se transformou num "talvez não", por causa da minha hesitação. Se por um lado quero ir, por outro lado... eu dou-me tão mal com aquilo. Fui a pé para casa, e chovia.
Cheguei à aula do P encharcada e a tremer de frio. Desta vez, não mudei de peça ainda, mas estivemos a inventar histórias barrocas, mais uma vez, para ver se eu entendo o Handel. E com direito a vê-lo a dançar. Isto não é para qualquer um, estou-me a sentir privilegiada. Eu custo a chegar lá, mas acho que assim que chegar, então fica tudo bem.
A meio, ou nos finais de Maio, será a semana dos instrumentos de Corda. Se alcançar o dia 29, daria pulos de alegria. E o L foi-nos pedir trabalhinhos para expôr lá nas paredes. Pois é, ninguém avisou o pobre homem para nunca me pedir isso. Estou indecisa entre fazer uma apologia epico-trágica sobre o violino, ou uma apologia epico-maniaco-fanática sobre o Paganini. A última é altamente tentadora.