Esta história sucedeu numa pequena sala de espectáculos, que, apesar de pequena, permitia ainda apresentar certos luxos cómodos: cadeiras de tecido aveludado, aquecimento, um palco amplo e uma excelente sonoridade. Boas condições para um local que tinha sofrido com um incêndio há vinte e cinco anos atrás, e ninguém sabia bem como sucedera isso. Quando a antiga orquestra ainda lá tocava, numa noite escura após um dos seus concertos, uma vela mal colocada tombara, supunha-se; e nesse incidente pegara fogo aos cortinados vermelhos que corriam sobre o palco quando terminada a actuação. Assim, o fogo consumira os tecidos, passara às madeiras ganhando força, e na hora seguinte tudo seria engolido pelas chamas impiedosas, transformando-se num pequeno inferno. Também ninguém sabia se alguém ficara preso nas entranhas do edifício em chamas (há vinte e cinco anos que foi, numa noite; é altamente improvável que surja alguém com conhecimento das causas e pormenores do incêndio).
Agora, é noite de música. O público, em sumptuosos vestidos de cetins coloridos e écharpes de seda, fatos elegantes nos tons das sombras, aguardava com alguma impaciência a sua vez de entrar e de se instalar nos bancos, e nos camarotes de madeira entalhada e com folha de ouro. Entre esse mar de gente, de cabeças bem penteadas e com um aroma de perfumes misturados, destacava-se um homem jovem, de óculos, cabelo escuro bem aparado e penteado com aprumo, barba rala e um fato que já vira melhores dias; isto porque é o candidato a novo concertino da orquestra.
Respondera ao apelo e apresentara-se perante uma pequena audiência que fez os testes e julgou os músicos. De entre os vários candidatos, fora o escolhido pelo maestro e pelo antigo concertino, que dava agora o seu último concerto, um homem já velho, quase careca e com uma barriga proeminente. Estava ali para ver o seu último espectáculo; no dia seguinte, entraria pela outra porta para os ensaios da orquestra.
Sentou-se na fila central de cadeiras, à esquerda. Não tinha, infelizmente, uma muito boa visão do palco, ou pelo menos tão boa como aquela que queria ter. Era por isso que não gostava dos chapéus folclóricos das senhoras que insistiam em usá-los mesmo dentro da sala de espectáculos. Estiveram ainda um bocado à espera até que os músicos entrassem no palco e afinassem os instrumentos. O concertino parecia irritado e afogueado. Tentou perceber qual seria o problema, o que fazia o seu antecessor tão angustiado. Não conseguiu.
À entrada do maestro, todos se levantaram e o público aplaudiu, forçando-o a uma vénia. Depois, ficou apenas o silêncio expectante antes das primeiras notas efusivas da sinfonia.
Achou fantástico. Fechou os olhos a ouvir a música que invadia a sala, expandia-se no ar e dançava na penumbra, brincando com os seus ouvidos. Haviam, implícitas nas sombras à volta da orquestra banhada em luz, as cores caleidoscópicas que resultavam dos volteios da melodia. No seu peito erguia-se a vontade de se juntar a eles na música, de tocar e fazer parte daquilo que se sentia sem se poder agarrar com as mãos. O sentimento impregnado na música, tão forte e, no entanto, não palpável. Veio um solo do primeiro violino; e, aí, percebeu algo.
Não havia um só violino a tocar. De olhos fechados, ouvia o concertino, eloquente e trabalhado ao mais ínfimo detalhe, e ouvia um outro violino melodioso, quase ad libido, apaixonante. O resultado, apesar de não ser o esperado, não era de todo desagradável; na verdade, era bastante belo. Abriu os olhos, escuros naquela penumbra a que submetiam o público, e correu a orquestra com o olhar, os dois naipes de violinos. Não via mais ninguém a tocar, além de um concertino visivelmente incomodado. Estava pasmado.
Com o fim do concerto, vieram os aplausos fortes do público. Ele também aplaudia, porém, impressionado com aquele violino que não via, e que tivera a audácia de tocar o solo com o concertino. Estava curioso. No entanto, a noite não lhe traria a resposta, nem sequer em sonhos.
Seria no dia seguinte, na primeira manhã em que o novo primeiro violinista se apresentou lá e conversou pela última vez com o ex-concertino, para se despedir dele. A resposta, ou parte dela, chegaria nesse preciso momento.
– Luís, meu caro. Bem-vindo.
– Assisti ao concerto ontem.
Havia aquela questão implícita no seu olhar, e o outro percebeu-a, como se pôde ver pelo arrefecimento gradual da sua expressão na hesitação, antes de responder.
– Pois, eu sei. Quanto àquilo… e tem de me prometer que não conta a mais ninguém fora desta orquestra, que eles, nós todos aqui sabemos… nós estamos assombrados.
– Como? – E franziu o sobrolho ante aquilo. Não acreditava, tinha vontade de rir daquilo. E, contudo, ouvira.
– Já dura há vinte e cinco anos. Temos um fantasma na orquestra. Sempre que tenho um solo, esse malfadado fantasma de violinista toca também. Olho para trás, para os lados… é escusado, nunca o vejo. Já antes de mim havia esse dilema. Agora é seu. Terá de lidar com ele, Luís, ver os seus solos roubados, ouvir sempre aquele violino a zombar de si!
No ensaio pensou, porém, que a ideia de partilhar o solo com aquele misterioso violino, lutar com ele para ficar por cima, era até um tanto sedutora. Cumprimentou os outros músicos e o maestro quando subiu ao palco para o ensaio, sempre a pensar naquilo. Para sua completa frustração, durante as horas que se seguiram a ver a programação dos próximos concertos, não o ouviu; ou, se o ouvia nalguns momentos, era algo leve e distante, como se estivesse longe daquela sala. Não satisfeito com aquilo, optou por ficar ao final da tarde, quando todos se foram embora. Sozinho no palco, tocou o solo do concertino que ouvira na noite anterior, e ouviu o seu acompanhamento sinistro mesmo atrás das suas costas. Sorriu, olhando para trás, para as cadeiras dos músicos, vazias.
– Está aí alguém?
Não obteve uma resposta concreta. Pareceu-lhe apenas que uma voz diferente da sua fez um eco das suas palavras atrás das cortinas. Virou-se, e continuou a tocar, contando mentalmente os compassos até que algo acontecesse.
– Gosto de si. – Surgiu uma voz, clara como a água.
Virou-se para encontrar uma mulher mais baixa do que ele, de aparência bastante jovem e com uns olhos vivazes, esverdeados. Também de óculos, quase que como uma mímica dele nas vestes e no cabelo curto. Estava de calças, e com os pés descalços, sem meias. Supunha ser o fantasma, de violino escuro como breu nas mãos. Afinal, era uma.
– Gosto de si. Parece-me melhor do que aquele velho. E achava-se o melhor…
– Obrigado.
– Oh, não é motivo para agradecer. Eu disse que gosto porque gosto, não para agradar. E eu não sou um bom augúrio para quem me ouve, ou quem me vê. É a primeira vez que sou vista desde há vinte e cinco anos.
O seu coração batia e, naquele silêncio, quase que se ouvia. Então era verdade. Era um fantasma, uma assombração ali presente desde um infortúnio em que deixara de ser humana. Ela sentou-se numa das cadeiras da orquestra, e ele acompanhou-a sentando-se ao lado, à espera de a ouvir falar, explicar o que queria dizer com aquilo. Ela, porém, não falou mais, nem sequer se apresentou melhor, o que o deixava a arder de curiosidade. Pôs-se antes a tocar qualquer coisa. Tentou falar com ela, mas não lhe ouvia respostas. Tentou acompanhá-la com o violino, e acabaram por ficar meia hora assim, antes dela parar.
– Eram boas épocas. O nosso concertino era parecido consigo. Eu estava lá atrás. Não eram boas essas épocas?
– O que aconteceu?
Suspirou, a olhar para as cadeiras de veludo vazias, para os camarotes de madeira entalhada e dourada, para o grande candeeiro de lustre, pesado. Tinha um sorriso melancólico, e os olhos perdidos, algures.
– Eu existia, sem existir todavia. Eles não se interessavam por mim, não queriam saber de mim. Ele nem olhava para mim. Uma noite, esqueceram-me aqui, e eu aqui fiquei. Os meus ossos estarão algures por aí, fazem parte da casa. Eu vivo aqui. Eu sou a orquestra.
Dito isto, levantou-se, sem cerimónia, e sem olhar para trás, para ele. Deixou de a ver quando ela se desvaneceu nas sombras.
Ficou a pensar que ela era uma alma bastante triste e solitária que, presa àquele lugar, vagueava; porém, não lhe vira tristeza nos olhos, nem na música que tocava. Melancólica, pensativa, profunda… mas não triste. Isto instigou-lhe a curiosidade. O concertino não sabia ainda do incêndio. Ficaria a saber nessa noite, em casa, a ler jornais antigos. Sabido isto, no dia seguinte, voltou a deixar-se ficar para trás depois de todos saírem, para falar com ela; e repetiu isto todos os dias de ensaio.
Ficou a conhecê-la melhor. Com alguma pesquisa em listas e panfletos velhos dos arquivos da orquestra, inferiu que o nome dela seria Rosa. Tal como ela lhe dissera, não falavam muito dela. Aparecia entre o naipe dos primeiros violinos, e depois era como se desaparecesse; tornava-se invisível nos relatos que lia e ouvia da antiga orquestra. O concertino de quem ela falara era bastante parecido com ele, de rosto mais redondo e sem óculos, um pouco mais forte e barba bem aparada. Mostrou-lhe a fotografia, um recorte de jornal a preto e branco, na qual ela apontou a sua quase apagada presença atrás dele. Tinha um sorriso mole, triste, de quem guarda sentimentos. Para ela, às vezes, o tempo parecia não passar.
Na orquestra actual, ela não perdera o seu lugar. Fazia-se anunciar, tocando; não havia músico que não conhecesse o fantasma da orquestra e o seu indomável violino. Acusavam-na de ser a responsável pelas cordas partidas, palhetas inutilizadas e instrumentos desafinados, ou desaparecidos. Nalguns casos ela era mesmo a culpada, de facto. Não gostava de alguns músicos, nem lhes tinha respeito algum.
Contavam-se ainda as lendas a respeito do fantasma, as divergências na história que se criavam como boatos de boca em boca. Para uns, o fantasma fora um homem que perdera a amada, uma soprano, e jurara vingança sobre o palco onde a perdera. Outros falavam num maestro que vendera a alma ao diabo nem jogo de cartas, ou um violinista que vendera a alma dentro de uma garrafa que se partira nas mãos de Satanás. E havia quem falasse num violinista assassinado a sangue frio por causa de um stradivarius que desaparecera nas chamas. De todas essas histórias, a fantasma ria-se, achava-as algo rocambolescas. A verdadeira história era menos interessante, afirmava. Ali fora esquecida, e não vira a primeira chama.
Durante os concertos que se seguiram, ele partilhara sempre os solos com ela. Habituara-se a ouvi-la, quase como se estivesse a cantar mesmo atrás de si. Com ela, as músicas ganhavam uma outra dimensão: se semicerrasse os olhos, via as chamas de fogos-fátuos sobre as almas das pessoas, dançando, projecções de pássaros de cores no tecto e a vida da própria música, quase alcançável com a mão de dedos esticados, desenrolando-se no ar. Cada concerto era mais que uma actuação ao público; era uma jóia de um dia na vida, uma obra de arte feita dos pensamentos deles, dos ossos das mãos a moverem-se ditados pelas notas nas partituras, coisas banais unidas num único momento condensado de extrema beleza. Nessas noites, ele olhava pelo canto do olho por cima do ombro, e atrás dele ela tinha os olhos fechados e uma solitária lágrima cor de pérola nas faces.
Rosa ia-se embora sempre antes dos aplausos.
Uma vez perguntou-lhe porque fazia aquilo, porque se ia embora antes de receber a resposta à beleza do seu trabalho. Nessa noite, ela mal que aparecia, enfiada nas sombras.
– Não me interessa a reacção das pessoas. Interessa-me só a música.
Desde então, ele começou a desconfiar mais ainda do que lhe teria acontecido verdadeiramente quando morrera. Ela evitava essa pergunta vezes demais. Olhava para o lado e dizia que tinha sido esquecida ali, evitava-lhe o olhar. Evitava olhar para os olhos dele na maioria das vezes que ele lá ficava até mais tarde. Cada vez que tentava falar com ela, ela falava ainda menos, até chegarem ao ponto de não falarem, apenas passarem mais três horas do serão em que o único som era o dos violinos. Quando deu por si, já se tinham passado anos, e aquilo tornara-se uma parte vital da sua existência. Da dela, como fantasma, também. Nos dias em que ele não aparecia por estar doente, ela amuava mais que o normal e forçava as cortinas a correr sobre o palco, com resultados desastrosos (certo dia em que faltara com uma gripe, o maestro caíra do palco abaixo com o movimento anormal das pesadas cortinas). Foi depois desse acontecimento que soube a verdade.
Naquela noite de há vinte e cinco anos atrás, Rosa tinha tentado falar com o concertino, após um concerto. As palavras que lhe queria dizer eram das que exigiam a coragem que muitas vezes lhe faltava. O brilho nos olhos dela apagou-se quando o ouviu falar com ela pela primeira vez e apenas lhe sentiu desprezo. Ele virou-lhe as costas e ela, sozinha, correra as pesadas cortinas do palco da época, maldizendo a sua sorte e a sua miserável figura. Fora nessa altura que uma das velas tombara, coisa à qual ela deu pouca ou nenhuma importância. Nem mesmo quando a chama começou a roer a ponta do cortinado. Ela ficou no palco, escondida.
E agora, passados mais cinco anos desde que se encontraram pela primeira vez, precisamente no mesmo dia do incêndio e do infortúnio, tinham um concerto. Seria, para o primeiro violinista, um estranho concerto em que a música atingira uma apoteose quase insuperável. Ela estava ao seu lado, descalça e com um sorriso largo. Mergulhara-os a todos naquela vertiginosa força sobrenatural. Os músicos não eram capazes de controlar sequer o que tocavam, como se a melodia fosse já a corrente caudalosa de um rio furioso. O maestro suava, sem saber como agarrar nas rédeas da orquestra e segurar tudo. Estavam todos hipnotizados. E então, tudo parou: o som, o movimento, as cores que via à sua volta, para lá da sombra onde o público se escondia, invisível a quem olhava de dentro da redoma de luz da orquestra.
Virou-se para o lado, para ela. O concertino e a violinista descalça encaravam-se, olhavam-se nos olhos como se fosse pela primeira vez que se viam verdadeiramente. E talvez fosse, porque era a primeira vez que ela ganhava cores mais fortes, em vez do seu tom desmaiado de fantasma. Os olhos da violinista, com vida, eram sinistros, magníficos. Só as suas mãos continuavam fantasmagóricas sobre o violino, como se fosse essa a sua eterna condição a pagar por tocar como tocava. As palavras que eles finalmente queriam dizer um ao outro, e que queriam com toda a sua força sair-lhes da garganta, não soavam. Mas entendiam-se perfeitamente. Ela estendeu-lhe a mão, a porta para um destino. E ele deu-lha a dele.
Cinquenta, cem, outros tantos anos se passaram. A orquestra continuou a actuar, sempre com o mesmo concertino e a mesma companheira descalça a seu lado; mas a música nunca era exactamente igual à anterior. Nem eles, nem as melodias envelheciam. Permaneciam imutáveis, como uma fotografia velha a desbotar-se lentamente no tempo. Se alguém, algum dia, se lembrasse de destruir o palco e levantar aquelas tábuas todas, por baixo dele encontraria duas ossadas abraçadas: de um homem na casa dos trinta e uma mulher bastante jovem, ainda com os violinos presos nos ossos das mãos. Os seus espíritos viviam na música tocada na orquestra, muito depois desta já ter terminado para o público que os assiste.
Mal se ouvem os aplausos sob a beleza da sinfonia que os violinos tocam.