Fantasma da Orquestra
Aquela figura negra que se senta no fundo da orquestra, o violino que se ouve ao longe na noite de espectáculo. Os bastidores da alma e do concerto que se leva nos ouvidos já bem depois de ter sido tocado. E treze fogos fátuos em cima da corda Lá.
13 de Fevereiro de 2012

   Desta vez vamos modificar o nosso espaço, o nosso cenário. Estamos em crise, por isso tem de ser uma coisa simples e barata, pintada em papel cru.

   Charlie – Um palco de concerto da orquestra, é o cenário. Com cortinas pretas.

   Prontos, que seja. É vagamente simples de arranjar, é um cenário que já usámos mais vezes. Puxamos cadeiras, as almofadadas vermelhas de pés pretos. Paganini já está confortavelmente instalado no lugar de concertino e isto porque lhe disse que não ia ficar de pé, Charlie sentou-se na última cadeira do fundo. Obriguei-a a vir mais para a frente, nem que fosse para o lugar de chefe dos segundos violinos; contrariada, lá está. Há violinos nas cadeiras, violoncelos e contrabaixos poisados no chão, violas encostadas às costas das cadeiras, partituras nas estantes alinhadas, e a amena luz das velas. Paganini trouxe o seu estimado Il Cannone. Charlie desencantou, sabe-se lá de onde, um stradivarius.

   Paganini – Vem sentar-te aqui.

   E uma Charlie ainda mais contrariada foi sentar-se mesmo ao lado dele.

   Esquecendo agora os detalhes do cenário, concentremo-nos na conversa. Já que é suposto isto tudo ser uma conversa entre várias mentes, e projecções de mentes.

   Sabemos que, mesmo que não queiras, já deste por ti a pensar em amor nestes dias; fruta da época. O que é o amor, tenho ou não tenho, se és uma pessoa apaixonada que deseja mandar setinhas para todos os lados, ou se és uma cínica que vai aborrecer-se com a parafernália de declarações de carinho nas ruas. Nas diferentes visões do amor, aquelas mais líricas e fantasistas das serenatas ao luar e as declarações na praia com os beijos tórridos, os fondues de chocolate, violinos, corações, cupidos; e as visões mais simples e calorosas do casal debaixo da mesma manta, no sofá, a disputar o comando da televisão e a gozar com as actrizes de telenovela. Nalgum ponto da vida já pensaste no teu ideal de amor, no vestido de casamento e nos filhos. É mentira dizer que não se tem uma pessoa idealmente apaixonante. Todos têm. Mas, no fim, descobre-se que o amor não é exactamente encontrar o príncipe no cavalo branco, é encontrar um homem parecido dentro de um carro branco e corromper a imagem da perfeição até ficar naquela pessoa, aceitar os seus defeitos, amar as suas qualidades.

   Depois de conheceres essa pessoa, não há cá príncipes nem lordes, há essa pessoa. Essa pessoa e nós. Por vezes implica mesmo imaginar e ver essa pessoa sem nós. Estamos a falar de amor, não de finais egoisticamente felizes.

   Charlie – O amor nunca é fácil. Não há ninguém que possa dizer com toda a exatidão o que ele é, não se pode evitar, não pode controlar.

   Paganini – A melhor visão do amor é a do maestro e concertino. Excelente casal. Vivem para uma paixão mais forte que eles, convivem com o ego desmesurado de um e do outro, e são capazes de se afastarem para um, vários concertos com outros músicos, mas não, nunca lhes será a mesma coisa.

   Ah, a visão do maestro, de batuta, e a do concertino, de violino. É uma visão, entre tantas outras. É certo que o maestro tem sempre uma ligação algo única com o concertino, que vai para além do aperto de mão no final do concerto. Como casal, quando existem, são duas metades de uma mesma força. São cúmplices na música, o maestro diz com um olhar o que quer fazer ali, o concertino cumpre como se já nem precisasse de palavras para traduzir as vontades do companheiro. Olham-se como iguais, encontram-se na música, e no final do concerto para uma pizza comida a dois, a discutir o quão mal estiveram nas peças de orquestra, ou então culpam os oboés e as violas. Têm ambos um grande ego. Se o maestro for também violinista, então é caso para, de quando em quando, a casa não ter tamanho nem isolamento acústico suficiente para os dois egos. São, no entanto, capazes de calar o próprio ego quando o outro está ferido. Podem nem dizer nada, mas no fundo, sabem que o outro é melhor. Podem encontrar muitos outros violinistas e maestros; nenhum deles será um substituto para eles.

   O que faz de uma visão do amor uma boa visão deste, é compreender que a coisa não se fica pela paixão momentânea.

   Charlie – Todos falam de Romeu e Julieta com o maior exemplo de amor. Esquecem-se que foram uns cabeças duras logo desde o início que tinham muita paixão, e mataram-se sem pensar duas vezes. Se tivessem ficado vivos e juntos, era caso para ver quanto durava o romance.

   E tu, Charlie, que não és nada romântica. Mas, bem, é isso. A paixão é, e como muitos dizem, um fogo. Porém, se demasiado forte e repentino, consome a madeira e o ar numa questão de escassos momentos, e sufoca-se, apaga-se. O ideal é um lume mais brando; sim, tem que haver a primeira faísca, a primeira labareda avermelhada. O amor é, porém, uma lareira que arde lentamente, gerando calor durante a noite.

   Paganini – Continuo a preferir a visão da orquestra.

   Charlie – Tu já tiveste alguém.

   Paganini – Sim. O problema é que a entrega quase total a uma pessoa não coincide com a vida de liberdade de um violinista. Este, a não ser que encontre outro músico que queira voar com ele e não fechá-lo numa gaiola, está condenado a tentar para depois fugir, porque não pode ter a asas cortadas por outro. Por isso o seu problema: não durou.

   Visões diferentes do amor. A fidelidade é uma âncora constante, mas há amores mais livres do que outros, que se tornam sufocantes.

   Paganini – A dela é o Rudy.

   Charlie – Podemos manter-nos longe dessa conversa? A minha visão é a do maestro e do concertino, com aquela da lareira. Lá porque existe o Rudy, não quer dizer nada. Por favor? Isto já é mau demais na minha cabeça, não precisamos de piorar ainda mais a situação.

   Paganini – Pois, tens razão, amas-me mais e ele pode ficar com inveja.

   Charlie – Niccolò, conheces uma coisa chamada modéstia?

   Paganini – E depois? Gostas de mim à mesma.

Orquestrado por Violinista às 01:58
No momento, estou: Solo.
Música do momento: Romeu e Julieta - Tchaikovsky
Palavras soltas: ,
01 de Fevereiro de 2012

   Telly e Isabel estavam sentadas num banco perto da sala. Era época das primeiras avaliações do semestre, e naquela sala realizavam-se as primeiras provas dos alunos de violino. Telly já tinha feito a sua, e achava que se saíra razoavelmente bem para quem fizera o seu primeiro teste ali. Tinha tido a oportunidade de ver como funcionavam as avaliações, e o que esperar de cada professor. Mesmo que quisesse fazer melhoria da nota por algum motivo, já sabia com o que contava. Era a vez de Rosa; estavam a ouvi-la através da frincha da porta, esperando que nem Milkstein, nem os outros dois professores a enervassem demais. Telly achava que ela se estava a sair bem. Dominava a técnica, e de quando em quando era capaz de uns trechos da melodia bastante belos, como se fosse capaz de cantar aquilo com alma. Aquela era Rosa, através do violino. Rosa, uma miríade de cores psicadélicas condensadas numa frase melódica, numa corda do seu violino.

   Ouviram o professor dizer-lhe alguma coisa que não perceberam, no final, e nem repararam que Jascha também estava por ali, a ouvir. Seguravam o coração na expectativa de saber se lhe tinha corrido bem, ou se a tinham de amparar depois de um fracasso. Se bem que, pelo que tinham ouvido, duvidavam que tivesse tido um resultado mau. Quando Rosa saiu, estava de cabeça baixa e mãos lívidas. Conheciam-na, e sabiam que ela não lidava bem com o stress. Antes que pudessem dizer-lhe qualquer coisa, a voz dele soou atrás das suas costas.

   – Parabéns, Rosa. Tocaste bem.

   Telly estava hirto a olhar para ele, Isabel não sabia o que fazer ou o que dizer. Conhecia a inimizade de Jascha e Telly, e sabia que Rosa mantinha algumas horas de estudo partilhadas com o outro. Eles os dois, porém, não sabiam disto. Telly pensava que o outro também implicava com a colega, e foi com alguma surpresa que viu que os modos dele para Rosa eram totalmente diferentes. Pior ainda, eram correspondidos, porque ela respondia-lhe com um pequeno sorriso sincero de agradecimento, após um curto silêncio de hesitação.

   – Obrigada.

   – Vocês falam-se? – Foi a única coisa que verbalizou no momento. Tinha estado tão ocupado a implicar com Jascha que não reparara que ele tinha desenvolvido uma atenção especial sobre ela, e não estava a gostar daquilo.

   – Telly… eu e o Jascha estudamos juntos, alguns dias. Era a maneira mais fácil de arranjar uma sala, isto está tudo cheio.

   Ficou a olhar para ela, sentindo o olhar do outro preso em si. Ela não parecia ter a noção das intenções que Jascha tinha, e se havia coisa que Telly tinha aprendido, era que o colega teria sempre segundas intenções em relação a tudo o que fazia. Não confiava nele, e custava-lhe ver Rosa a confiar nele. Por momentos pensou, horrorizado, se o outro não a quereria afastar dele, ou virá-la contra ele. Imaginava uma meia dúzia de situações desagradáveis, todas elas um tanto infantis e tolas, com um Jascha maquiavélico e de riso escarninho.

   – Não vejo qual é o problema. – Jascha disse, olhando para um canto qualquer no tecto.

   Nesse momento, os dois fixaram-se, nos olhos. Seria possível dizer que soltavam raios pelos olhos, já de tantas tensões mal resolvidas entre os dois. Aquela seria mais uma discussão acesa nos corredores, se não fosse a intervenção da colega.

   – Não vos percebo. Vocês ganhavam muito mais se parassem com essa embirração, e resolvessem, para variar, tratarem-se pelo menos como colegas. Já estou farta de vos ver a serem infantis, um porque diz que o outro é mau, o outro porque diz que o outro não o respeita.

   – Estás a sugerir que nós sejamos amigos? – Olhavam-na com uma cara retorcida, de dedos apontados um ao outro.

   – Sim. Em vez de continuarem a ser umas criancinhas birrentas à briga.

   Telly olhou para os seus próprios pés. Tinha de abrir os olhos, e apercebia-se que Rosa tinha alguma razão. Na maioria das vezes, já só embirrava com o outro sem um grande motivo, só porque ele era quem era e já era hábito implicar. Jascha também não falava, um tanto envergonhado. Não gostava de ser chamado uma criancinha, muito menos quando quem lhe chamava isso tinha razão. Não era muito de sua vontade chamar amigo a Telly. Mas sabia que era essa a jogada a fazer, se queria manter a amizade de Rosa por mais tempo.

   – Não é má ideia.

   Olharam-se ainda. Finalmente, com um aperto de mão, davam por terminados os desacatos no corredor, ou assim faziam aparentar. Não sabiam ainda, mas tinha muito em comum, mais até do que imaginavam. Bastava um bocado de confiança, e podiam, de facto, ser tão amigos quanto qualquer outro grupo de jovens que ali estudasse. Faltava-lhes uma tarde para se conhecerem melhor, e um bocado mais de cordialidade de ambas as partes.

   – Pronto, não é melhor assim?

   A primeira resposta ainda seria não. No entanto, depois de passarem no refeitório para comerem qualquer coisa, sentados numa das mesas, à qual se juntaram Sunako e Constança pouco depois, aperceberam-se que eram agora um grupo completo. Telly tinha agora um rapaz com quem medir a força, se necessário, ou escapar dos assuntos feministas de Constança. E Jascha, não falava, mas já sentia falta daquele calor humano que era ter um grupo de amigos. Olhou para Rosa. Ainda teria muito que lhe agradecer, um dia. Por ora, preferia olhar para ela ao seu lado na mesa, e perceber que ela suspirava de alívio, com os demónios psicológicos calados.

Orquestrado por Violinista às 22:33
No momento, estou: Nervosa
Música do momento: Tubular Bells em orquestra - Mike Oldfield
24 de Janeiro de 2012

   Isto pretende ser um início, e nos inícios costumamos apresentarmo-nos, com um aperto de mão simples, ou um beijo compungido nas faces que sente demais a pele do estranho e o cheiro que dela se desprende levemente. Dizemos o nosso nome, revelamos um ou mais fragmentos da nossa identidade, sem saber o que fará o outro com esse estilhaço da nossa imagem. Por vezes, é um estilhaço cortante. Por vezes, acaba espetado nas nossas costas. Outras vezes, é guardado com todos os cuidados, outras vezes acaba esquecido. E ainda temos as raras vezes em que a pessoa se diverte a coleccionar pedacinhos nossos e a montá-los como um puzzle. Se encontrares uma dessas pessoas, agarra também os pedacinhos dela que conseguires: são pedaços de diamante vindos de uma excelente pessoa. A não ser que essa pessoa tenha boa pontaria e tos aponte todos ao coração quando tiver uma boa mão cheia de fragmentos.

   Portanto, a apresentação de nós é um risco, pode dar um bom final, um mau resultado. Sabemos lá nós quem temos à frente! Bom, este risco corre-se sempre e tem de se correr. Temos de nos apresentar.

   Charlie – Espera, tu queres que eu me apresente nestas condições?

   Faz-se silêncio. Ó céus! Por favor, apresenta-te lá a estas pessoas. Já te apresentaste mais vezes, a outras pessoas. Além disso, estamos no cérebro de alguém, a apresentarmo-nos a esse alguém, e, tal como disse, os fragmentos são afiados. Se esse alguém tentar alguma coisa, corta a mioleira.

   Paganini – E não lha podemos cortar agora?

   Não.

   Charlie – Eu não me apresento. Das outras vezes, correu sempre mal. Tenho síndrome da ansiedade social. Não o faço.

   Ora, que tu tenhas probleminhas já ficámos todos a saber. Faz o favor de te apresentares decentemente. Levanta-te, endireita-te, põe um sorriso e fala. Calmamente, como bem sabes.

   Charlie – Charlie. A idade não importa, mas já passei a barreira dos dezoito anos. E não sou uma pessoa interessante.

   Paganini – Tocas violino, e é o que basta.

   Charlie – E tu, Niccolò, não te apresentas?

   Paganini – Não preciso. Já me conhecem. Se não me conhecem, são burros e não leram coisa nenhuma.

   Pois, realmente não é por falta de informação aqui que vocês não sabem quem ele é. Isso, porém, não é motivo para vos chamar burros. Ignorantes, um pouco. Desatentos, muito provavelmente. Podem fazer uma pausa aqui e irem informar-se sobre quem é Niccolò Paganini.

   Charlie – E nós?

   Vamos comer pizza de chocolate.

   E enquanto fazemos este intervalo, pensamos na vantagem de já se estar morto. Se vocês quiserem mirar as costas da Charlie para espetar o fragmento afiado, conseguem, têm é de fazer boa mira para lho espetar, que as costas dela já estão cheias da pontaria e da falta de pontaria de muitos. Mas Paganini está morto e enterrado, os tiros passam pelo fantasma que é. Também não me parece que ele se importasse muito com isso.

   Paganini – Não mesmo. Eu sou um virtuoso. O resto é inveja do que eu fiz.

   Charlie – Sim, sim, diavolino.

   Paganini – Que importa? Podem não gostar de mim, que não me importo, não vale a pena. Importa que mantenha os amigos que valem a pena por perto, e que continue a minha vida. Meio morto. Vivo em quem se lembrar de mim e me der importância, e fico imune aos outros.

   Charlie – Isso significa que eu sou importante?

   Paganini – Vivo exclusivamente para ti.

   Charlie – Ena, que me fizeste feliz. Lisonjeada.

   Paganini – Mas não tanto quanto uma boa actuação.

   Charlie – Não, não tanto quanto a felicidade de um bom concerto dado.

   Tenho de concordar.

   Isto aqui é uma relação de uma breve amizade, que não sei se será duradoura. Depende. A verdade é que estamos no seu cérebro e não podemos ver ao certo quem é, como é. Depende, e Charlie sabe disso, e por consequência, Paganini sabe disso mas não quer dar importância. Charlie dá importância porque ainda gosta das pessoas. Em certos casos, gosta até demais. Talvez um dia destes, uma ou mais pessoas dessas possam ser convidadas aqui e falem também. As outras… como posso eu explicar a coisa que tão complicada é: peguem numa tigela e juntem amor, ódio, medo, raiva, carinho, nervos à flor da pele e toneladas de respeito silencioso. Com uma pitada de inveja, e hormonas, esses pozinhos malandros, marotos, que pegam na cabeça de um e viram-na de pernas para o ar.

   Charlie – Pára com isso. Não quero que saibam que sofro por amor. É ridículo da minha parte.

   És humana.

   Paganini – Eu também tinha amigos. Falas como se eu não os tivesse.

   Charlie – Sim, tipo aquele a quem pagaste o concerto de viola que não tocaste…

   Paganini – Tinha muitas pausas. Mas era bonito.

   Charlie – Bonito, mas não dava protagonismo suficiente ao Signor.

   Paganini – Aquele teu amigo também não te dá protagonismo.

   E, ponto para Paganini, que tocou num ponto extremamente fraco da Charlie. Os amigos têm destas coisas, sabem exactamente qual o fragmento espetado nas costas que dói mais.

   Mas não percam a esperança toda na humanidade. Quem sabe se quando alguém diz que gosta de nós, não mesmo verdade, quem diz que quando não olhamos, não estará esse a recolher os nossos fragmentos, sem nos mirar as costas, mas olhando-nos nos olhos, e dos olhos para o coração.

   Quem sabe? Algures por aí existirão uma Charlie e um Paganini, de preferência um mais a sério.

   Se encontrarem um para ela, ele que venha. A Charlie promete gostar dele.

   Paganini – Não. Eu sou o favorito. Ela gosta mais de mim do que de você.

Orquestrado por Violinista às 01:05
No momento, estou: Half dead.
Música do momento: 1492 - Vangelis
Palavras soltas: ,
13 de Janeiro de 2012

   Esta história sucedeu numa pequena sala de espectáculos, que, apesar de pequena, permitia ainda apresentar certos luxos cómodos: cadeiras de tecido aveludado, aquecimento, um palco amplo e uma excelente sonoridade. Boas condições para um local que tinha sofrido com um incêndio há vinte e cinco anos atrás, e ninguém sabia bem como sucedera isso. Quando a antiga orquestra ainda lá tocava, numa noite escura após um dos seus concertos, uma vela mal colocada tombara, supunha-se; e nesse incidente pegara fogo aos cortinados vermelhos que corriam sobre o palco quando terminada a actuação. Assim, o fogo consumira os tecidos, passara às madeiras ganhando força, e na hora seguinte tudo seria engolido pelas chamas impiedosas, transformando-se num pequeno inferno. Também ninguém sabia se alguém ficara preso nas entranhas do edifício em chamas (há vinte e cinco anos que foi, numa noite; é altamente improvável que surja alguém com conhecimento das causas e pormenores do incêndio).

   Agora, é noite de música. O público, em sumptuosos vestidos de cetins coloridos e écharpes de seda, fatos elegantes nos tons das sombras, aguardava com alguma impaciência a sua vez de entrar e de se instalar nos bancos, e nos camarotes de madeira entalhada e com folha de ouro. Entre esse mar de gente, de cabeças bem penteadas e com um aroma de perfumes misturados, destacava-se um homem jovem, de óculos, cabelo escuro bem aparado e penteado com aprumo, barba rala e um fato que já vira melhores dias; isto porque é o candidato a novo concertino da orquestra.

   Respondera ao apelo e apresentara-se perante uma pequena audiência que fez os testes e julgou os músicos. De entre os vários candidatos, fora o escolhido pelo maestro e pelo antigo concertino, que dava agora o seu último concerto, um homem já velho, quase careca e com uma barriga proeminente. Estava ali para ver o seu último espectáculo; no dia seguinte, entraria pela outra porta para os ensaios da orquestra.

   Sentou-se na fila central de cadeiras, à esquerda. Não tinha, infelizmente, uma muito boa visão do palco, ou pelo menos tão boa como aquela que queria ter. Era por isso que não gostava dos chapéus folclóricos das senhoras que insistiam em usá-los mesmo dentro da sala de espectáculos. Estiveram ainda um bocado à espera até que os músicos entrassem no palco e afinassem os instrumentos. O concertino parecia irritado e afogueado. Tentou perceber qual seria o problema, o que fazia o seu antecessor tão angustiado. Não conseguiu.

   À entrada do maestro, todos se levantaram e o público aplaudiu, forçando-o a uma vénia. Depois, ficou apenas o silêncio expectante antes das primeiras notas efusivas da sinfonia.

   Achou fantástico. Fechou os olhos a ouvir a música que invadia a sala, expandia-se no ar e dançava na penumbra, brincando com os seus ouvidos. Haviam, implícitas nas sombras à volta da orquestra banhada em luz, as cores caleidoscópicas que resultavam dos volteios da melodia. No seu peito erguia-se a vontade de se juntar a eles na música, de tocar e fazer parte daquilo que se sentia sem se poder agarrar com as mãos. O sentimento impregnado na música, tão forte e, no entanto, não palpável. Veio um solo do primeiro violino; e, aí, percebeu algo.

   Não havia um só violino a tocar. De olhos fechados, ouvia o concertino, eloquente e trabalhado ao mais ínfimo detalhe, e ouvia um outro violino melodioso, quase ad libido, apaixonante. O resultado, apesar de não ser o esperado, não era de todo desagradável; na verdade, era bastante belo. Abriu os olhos, escuros naquela penumbra a que submetiam o público, e correu a orquestra com o olhar, os dois naipes de violinos. Não via mais ninguém a tocar, além de um concertino visivelmente incomodado. Estava pasmado.

   Com o fim do concerto, vieram os aplausos fortes do público. Ele também aplaudia, porém, impressionado com aquele violino que não via, e que tivera a audácia de tocar o solo com o concertino. Estava curioso. No entanto, a noite não lhe traria a resposta, nem sequer em sonhos.

   Seria no dia seguinte, na primeira manhã em que o novo primeiro violinista se apresentou lá e conversou pela última vez com o ex-concertino, para se despedir dele. A resposta, ou parte dela, chegaria nesse preciso momento.

   – Luís, meu caro. Bem-vindo.

   – Assisti ao concerto ontem.

   Havia aquela questão implícita no seu olhar, e o outro percebeu-a, como se pôde ver pelo arrefecimento gradual da sua expressão na hesitação, antes de responder.

   – Pois, eu sei. Quanto àquilo… e tem de me prometer que não conta a mais ninguém fora desta orquestra, que eles, nós todos aqui sabemos… nós estamos assombrados.

   – Como? – E franziu o sobrolho ante aquilo. Não acreditava, tinha vontade de rir daquilo. E, contudo, ouvira.

   – Já dura há vinte e cinco anos. Temos um fantasma na orquestra. Sempre que tenho um solo, esse malfadado fantasma de violinista toca também. Olho para trás, para os lados… é escusado, nunca o vejo. Já antes de mim havia esse dilema. Agora é seu. Terá de lidar com ele, Luís, ver os seus solos roubados, ouvir sempre aquele violino a zombar de si!

   No ensaio pensou, porém, que a ideia de partilhar o solo com aquele misterioso violino, lutar com ele para ficar por cima, era até um tanto sedutora. Cumprimentou os outros músicos e o maestro quando subiu ao palco para o ensaio, sempre a pensar naquilo. Para sua completa frustração, durante as horas que se seguiram a ver a programação dos próximos concertos, não o ouviu; ou, se o ouvia nalguns momentos, era algo leve e distante, como se estivesse longe daquela sala. Não satisfeito com aquilo, optou por ficar ao final da tarde, quando todos se foram embora. Sozinho no palco, tocou o solo do concertino que ouvira na noite anterior, e ouviu o seu acompanhamento sinistro mesmo atrás das suas costas. Sorriu, olhando para trás, para as cadeiras dos músicos, vazias.

   – Está aí alguém?

   Não obteve uma resposta concreta. Pareceu-lhe apenas que uma voz diferente da sua fez um eco das suas palavras atrás das cortinas. Virou-se, e continuou a tocar, contando mentalmente os compassos até que algo acontecesse.

   – Gosto de si. – Surgiu uma voz, clara como a água.

   Virou-se para encontrar uma mulher mais baixa do que ele, de aparência bastante jovem e com uns olhos vivazes, esverdeados. Também de óculos, quase que como uma mímica dele nas vestes e no cabelo curto. Estava de calças, e com os pés descalços, sem meias. Supunha ser o fantasma, de violino escuro como breu nas mãos. Afinal, era uma.

   – Gosto de si. Parece-me melhor do que aquele velho. E achava-se o melhor…

   – Obrigado.

   – Oh, não é motivo para agradecer. Eu disse que gosto porque gosto, não para agradar. E eu não sou um bom augúrio para quem me ouve, ou quem me vê. É a primeira vez que sou vista desde há vinte e cinco anos.

   O seu coração batia e, naquele silêncio, quase que se ouvia. Então era verdade. Era um fantasma, uma assombração ali presente desde um infortúnio em que deixara de ser humana. Ela sentou-se numa das cadeiras da orquestra, e ele acompanhou-a sentando-se ao lado, à espera de a ouvir falar, explicar o que queria dizer com aquilo. Ela, porém, não falou mais, nem sequer se apresentou melhor, o que o deixava a arder de curiosidade. Pôs-se antes a tocar qualquer coisa. Tentou falar com ela, mas não lhe ouvia respostas. Tentou acompanhá-la com o violino, e acabaram por ficar meia hora assim, antes dela parar.

   – Eram boas épocas. O nosso concertino era parecido consigo. Eu estava lá atrás. Não eram boas essas épocas?

   – O que aconteceu?

   Suspirou, a olhar para as cadeiras de veludo vazias, para os camarotes de madeira entalhada e dourada, para o grande candeeiro de lustre, pesado. Tinha um sorriso melancólico, e os olhos perdidos, algures.

   – Eu existia, sem existir todavia. Eles não se interessavam por mim, não queriam saber de mim. Ele nem olhava para mim. Uma noite, esqueceram-me aqui, e eu aqui fiquei. Os meus ossos estarão algures por aí, fazem parte da casa. Eu vivo aqui. Eu sou a orquestra.

   Dito isto, levantou-se, sem cerimónia, e sem olhar para trás, para ele. Deixou de a ver quando ela se desvaneceu nas sombras.

   Ficou a pensar que ela era uma alma bastante triste e solitária que, presa àquele lugar, vagueava; porém, não lhe vira tristeza nos olhos, nem na música que tocava. Melancólica, pensativa, profunda… mas não triste. Isto instigou-lhe a curiosidade. O concertino não sabia ainda do incêndio. Ficaria a saber nessa noite, em casa, a ler jornais antigos. Sabido isto, no dia seguinte, voltou a deixar-se ficar para trás depois de todos saírem, para falar com ela; e repetiu isto todos os dias de ensaio.

   Ficou a conhecê-la melhor. Com alguma pesquisa em listas e panfletos velhos dos arquivos da orquestra, inferiu que o nome dela seria Rosa. Tal como ela lhe dissera, não falavam muito dela. Aparecia entre o naipe dos primeiros violinos, e depois era como se desaparecesse; tornava-se invisível nos relatos que lia e ouvia da antiga orquestra. O concertino de quem ela falara era bastante parecido com ele, de rosto mais redondo e sem óculos, um pouco mais forte e barba bem aparada. Mostrou-lhe a fotografia, um recorte de jornal a preto e branco, na qual ela apontou a sua quase apagada presença atrás dele. Tinha um sorriso mole, triste, de quem guarda sentimentos. Para ela, às vezes, o tempo parecia não passar.

   Na orquestra actual, ela não perdera o seu lugar. Fazia-se anunciar, tocando; não havia músico que não conhecesse o fantasma da orquestra e o seu indomável violino. Acusavam-na de ser a responsável pelas cordas partidas, palhetas inutilizadas e instrumentos desafinados, ou desaparecidos. Nalguns casos ela era mesmo a culpada, de facto. Não gostava de alguns músicos, nem lhes tinha respeito algum.

   Contavam-se ainda as lendas a respeito do fantasma, as divergências na história que se criavam como boatos de boca em boca. Para uns, o fantasma fora um homem que perdera a amada, uma soprano, e jurara vingança sobre o palco onde a perdera. Outros falavam num maestro que vendera a alma ao diabo nem jogo de cartas, ou um violinista que vendera a alma dentro de uma garrafa que se partira nas mãos de Satanás. E havia quem falasse num violinista assassinado a sangue frio por causa de um stradivarius que desaparecera nas chamas. De todas essas histórias, a fantasma ria-se, achava-as algo rocambolescas. A verdadeira história era menos interessante, afirmava. Ali fora esquecida, e não vira a primeira chama.

   Durante os concertos que se seguiram, ele partilhara sempre os solos com ela. Habituara-se a ouvi-la, quase como se estivesse a cantar mesmo atrás de si. Com ela, as músicas ganhavam uma outra dimensão: se semicerrasse os olhos, via as chamas de fogos-fátuos sobre as almas das pessoas, dançando, projecções de pássaros de cores no tecto e a vida da própria música, quase alcançável com a mão de dedos esticados, desenrolando-se no ar. Cada concerto era mais que uma actuação ao público; era uma jóia de um dia na vida, uma obra de arte feita dos pensamentos deles, dos ossos das mãos a moverem-se ditados pelas notas nas partituras, coisas banais unidas num único momento condensado de extrema beleza. Nessas noites, ele olhava pelo canto do olho por cima do ombro, e atrás dele ela tinha os olhos fechados e uma solitária lágrima cor de pérola nas faces.

   Rosa ia-se embora sempre antes dos aplausos.

   Uma vez perguntou-lhe porque fazia aquilo, porque se ia embora antes de receber a resposta à beleza do seu trabalho. Nessa noite, ela mal que aparecia, enfiada nas sombras.

   – Não me interessa a reacção das pessoas. Interessa-me só a música.

   Desde então, ele começou a desconfiar mais ainda do que lhe teria acontecido verdadeiramente quando morrera. Ela evitava essa pergunta vezes demais. Olhava para o lado e dizia que tinha sido esquecida ali, evitava-lhe o olhar. Evitava olhar para os olhos dele na maioria das vezes que ele lá ficava até mais tarde. Cada vez que tentava falar com ela, ela falava ainda menos, até chegarem ao ponto de não falarem, apenas passarem mais três horas do serão em que o único som era o dos violinos. Quando deu por si, já se tinham passado anos, e aquilo tornara-se uma parte vital da sua existência. Da dela, como fantasma, também. Nos dias em que ele não aparecia por estar doente, ela amuava mais que o normal e forçava as cortinas a correr sobre o palco, com resultados desastrosos (certo dia em que faltara com uma gripe, o maestro caíra do palco abaixo com o movimento anormal das pesadas cortinas). Foi depois desse acontecimento que soube a verdade.

   Naquela noite de há vinte e cinco anos atrás, Rosa tinha tentado falar com o concertino, após um concerto. As palavras que lhe queria dizer eram das que exigiam a coragem que muitas vezes lhe faltava. O brilho nos olhos dela apagou-se quando o ouviu falar com ela pela primeira vez e apenas lhe sentiu desprezo. Ele virou-lhe as costas e ela, sozinha, correra as pesadas cortinas do palco da época, maldizendo a sua sorte e a sua miserável figura. Fora nessa altura que uma das velas tombara, coisa à qual ela deu pouca ou nenhuma importância. Nem mesmo quando a chama começou a roer a ponta do cortinado. Ela ficou no palco, escondida.

   E agora, passados mais cinco anos desde que se encontraram pela primeira vez, precisamente no mesmo dia do incêndio e do infortúnio, tinham um concerto. Seria, para o primeiro violinista, um estranho concerto em que a música atingira uma apoteose quase insuperável. Ela estava ao seu lado, descalça e com um sorriso largo. Mergulhara-os a todos naquela vertiginosa força sobrenatural. Os músicos não eram capazes de controlar sequer o que tocavam, como se a melodia fosse já a corrente caudalosa de um rio furioso. O maestro suava, sem saber como agarrar nas rédeas da orquestra e segurar tudo. Estavam todos hipnotizados. E então, tudo parou: o som, o movimento, as cores que via à sua volta, para lá da sombra onde o público se escondia, invisível a quem olhava de dentro da redoma de luz da orquestra.

   Virou-se para o lado, para ela. O concertino e a violinista descalça encaravam-se, olhavam-se nos olhos como se fosse pela primeira vez que se viam verdadeiramente. E talvez fosse, porque era a primeira vez que ela ganhava cores mais fortes, em vez do seu tom desmaiado de fantasma. Os olhos da violinista, com vida, eram sinistros, magníficos. Só as suas mãos continuavam fantasmagóricas sobre o violino, como se fosse essa a sua eterna condição a pagar por tocar como tocava. As palavras que eles finalmente queriam dizer um ao outro, e que queriam com toda a sua força sair-lhes da garganta, não soavam. Mas entendiam-se perfeitamente. Ela estendeu-lhe a mão, a porta para um destino. E ele deu-lha a dele.

   Cinquenta, cem, outros tantos anos se passaram. A orquestra continuou a actuar, sempre com o mesmo concertino e a mesma companheira descalça a seu lado; mas a música nunca era exactamente igual à anterior. Nem eles, nem as melodias envelheciam. Permaneciam imutáveis, como uma fotografia velha a desbotar-se lentamente no tempo. Se alguém, algum dia, se lembrasse de destruir o palco e levantar aquelas tábuas todas, por baixo dele encontraria duas ossadas abraçadas: de um homem na casa dos trinta e uma mulher bastante jovem, ainda com os violinos presos nos ossos das mãos. Os seus espíritos viviam na música tocada na orquestra, muito depois desta já ter terminado para o público que os assiste.

   Mal se ouvem os aplausos sob a beleza da sinfonia que os violinos tocam.

Orquestrado por Violinista às 13:57
No momento, estou: Metafórica
Música do momento: Prince Kalendar, Sheherazade - Rimsky-Korsakov
Palavras soltas: , ,
01 de Dezembro de 2011

   Rosa estava na Orquestra, e estava nervosa naquele, e em muitos outros dias. Era uma das classes que tinha de ter, e o professor Milkstein dissera-lhe logo que não havia problema. Mas isso não lhe apagava os nervos de estar rodeada de tanta gente, e com tanta gente melhor que ela que a estariam a avaliar. Ficara colocada numa das cadeiras da segunda estante dos segundos violinos, com boa visão do maestro. Telly estava perto, mas na segunda estante dos primeiros. Na disposição da orquestra ficavam quase lado a lado. Jascha, como era mais que óbvio, estava no lugar de mestre de concerto.

   Nos primeiros dias estivera mais nervosa. Durante alguns dias, anteriores àquele, ainda estivera chateada demais com eles para lhes falar. Contudo, depois da breve conversa, voltara à mesma personalidade com Telly, calma e mais calorosa. Assim, de quando em quando olhava para ele, sorriam com algum erro, ou faziam caretas. Jascha observava-os pelo canto do olho, sorrindo levemente sempre que ela metia a língua de fora e torcia a cara com um acorde mais abrupto. Ela, no fundo, ia começando a ganhar alguma confiança, aos poucos e poucos, e a desinibir-se naquele lugar.

   Aquele espaço, no fundo, representava mais do que uma orquestra para ela. Eram amigos e desconhecidos misturados com pessoas que não apreciava, era o melhor da música, por vezes com uma ou outra peça que não lhe fazia muito o género. Era uma forma de se superar a si mesma e, ao mesmo tempo, deixar que o seu som se fundisse agradavelmente com os outros. Havia uma certa sensação de união, e de fazer parte de algo mais grandioso.

   Naquele dia, quando todos saíam para o intervalo, Rosa deixou-se ficar para trás. Não lhe interessava sair para ir falar de banalidades com os outros, interessava-lhe estudar e não parecer tão má a tocar aquilo como se achava. Sentada no chão, de surdina, tocava, e nem deu pela presença de mais ninguém a observar, ou sem sequer olhar para ela. Sabia que lá mais ao fundo estaria o maestro à procura de algumas partituras. Não fazia a mínima ideia de ter alguém a espiar atrás de si.

   Quando regressaram do intervalo, agiu como se não se tivesse passado nada. Iam ver uma peça nova, pela quantidade de folhas que o maestro lhes entregava e pelo sorriso que tinha na cara. Já estava à espera de alguma coisa particularmente custosa, que depois o irritasse por ter de fazer tantas correcções. Deparou-se com a Gymnopédie nº1 arranjada para orquestra nas suas mãos. Piscou os olhos, entre o espanto e o nervosismo latente. Ao lado dela, Telly sorria, enigmático. Rosa olhou então em volta, e os seus olhos cruzaram-se com os de Jascha, cuja escuridão, habitualmente metamorfoseada num mar, era agora da doçura do chocolate, com um certo divertimento a olhar para a peça. E depois para ela. E nela, ele lia aquilo que sentia e não revelava, o sentimento que o pequeno fragmento de música lhe podia produzir e que era tão contraditório com a sua imagem.

   Mesmo depois do ensaio, e já passadas horas perdidas entre o caminho a pé para a residência, e o jantar solitário, ainda a música tinia nos seus ouvidos. Algumas partes, compassos isolados, repetiam-se nos seus ouvidos até à exaustão. Tanto que dava por si a cantarolar as notas para dentro de si. A orquestra inteira parecia que tinha encolhido até atingir um tamanho absurdamente minúsculo e entrado na sua cabeça, fazendo dela o novo lugar onde viveriam, e comeriam com ela quando ela comesse, sem pararem de tocar, nem para dormir. Por vezes ainda podia sentir alguma resistência nos membros, como se os braços estivessem sob controlo do maestro e aguardassem as suas ordens. De cada vez que os olhos se iludiam a ver mãos suspensas no seu campo de visão, segurava a respiração.

   Aquela música fazia-a ainda mais sentimental. Obrigava-a a ir buscar o frasco de chocolate e a comê-lo às colheradas, fazia-lhe os olhos ainda mais vidrados que as lentes, fixos em ponto algum. Olhou para o telemóvel, e ocorreu-lhe a vontade de telefonar para alguém. Matava essa vontade com o receio de não ser atendida, ou de incomodar esse alguém que já não tinha nome, nem sabia se existia. Só nessa hora, no quarto, pela ausência de tudo sentiu o lugar nas costas onde os olhos se cravaram na sua pele. Não sabia quem fora, mas sentia algo de diferente. Também não tinha lágrimas, havia música a escorrer corpo abaixo.

   Mandou as regras à fava, e resolveu tocar. Tinha de voltar a fazer e a ouvir aquilo, mais uma vez pelo menos. O sentimento que aquilo lhe dava era mais poderoso que qualquer chocolate no mundo. Queria-o. Precisava daquilo, quase tanto como de ar.

   Tocava violino. À sua volta erguia-se uma parede de tijolos brancos, a sua protecção activada contra o mundo. Rosa estava a começar a ficar assustada demais com todas as coisas, e a desistir de tentar confiar no cenário que tinha. Dentro da parede, estava segura, confortável, e sozinha. Mas quem precisava de coração, quando este já se estilhaçara tantas vezes?

   Não ouvira as pancadas na porta, de novo. Cada vez mais fortes, compassadas. O gato estava de novo à janela, os seus olhos sinistros a olhar. Ouviu-se, ao longe, o suave ronronar de um motor, vindo em fiapos como um nevoeiro. Sentia as entranhas a moverem-se como o intrincado mecanismo de um relógio quando ouviu um sussurro mesmo atrás das suas costas, exactamente na última nota prolongada no silêncio abstracto.

   – Está aí alguém?

Orquestrado por Violinista às 23:55
No momento, estou: Confusa
Música do momento: Hey You - Pink Floyd

Violinista, C. S. L. Stradivaria. 19. Nº 5. Nº 13. Pseudo Violinista. Estudante. Nerd. Chapeleira. Vitoriana. Dandy Lolita. Incerta. Inconstante. Sonhadora. Inteligente. Invisível. Tímida. Imprevisível. Intelectual. Estranha. Deprimida. Lacrimosa. Egoísta. Respondona. Obcecada. Cínica. Anti-social. Teimosa. Orgulhosa. Calada. Perfeccionista. Louca. Baixinha. Ridícula. Original. Solilóquio em Celulóide. Violino. Música. Letras. Notas. Pautas. Relógios de Bolso. Cartolas. Magia. Paranormal. Roxo. Vermelho. Raposa. Coruja. Melro, Corvo e Pêga. Cisne. Pássaro de Fogo. Chocolate. Chuva. Quinta Dimensão. Submarino Amarelo. Petrushka. Viajante do Tempo. Extraterrestre. Fantasma.
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