Para já, só depois de se ter marcado, assim uns quantos dias depois, é que reparei que tinha logo a prova no dia do aniversário do Paganini.
Terror. Acagacei-me. Tremia de medo. Tremiam-me as mãos demasiado. Não falhei nenhuma parte, porque nem sequer era de memória, mas também não me pareceu que houvesse alguma coisa feita de jeito. Senti que o coração me caía aos pés quando me diz que agora tenho de ler à primeira vista (eu sou um desastre à primeira vista). Portanto, mais uma vez, nada de jeito. Disse-me que saía dali coisa algures para 80%. Um 16, para aí. Aquela nota, que não é nota má, mas também não é boa. E mais baixa que as anteriores.
Oh, o desespero.
(Agora a sério, se houver para aí alguma alma caridosa que leia isto e comente, digam-me, é ou não é uma porcaria de nota, desci, bolas, isso não me faz sentir melhor que porcaria. E agora?)
Depois, vá uma conversa sincera. Ou supostamente sincera. Eu sou sincera, às vezes demasiado sincera, reconheço. Então, com algumas pessoas, cometo o duplo pecado de ser sincera e ingénua. Mesmo que vá perdendo a minha confiança nas pessoas, que tenha receios. Mas tirou-se-me um peso do peito saber que aquela mensagem afinal era falsa, que se calhar, da próxima vez, devia era criar coragem para ir ter com a pessoa e perguntar-lhe na cara, mesmo que aquela filosofia de ver alguém a mentir não seja uma coisa que eu domine.
A confiança que eu tenho de arranjar, é coisa bonita de se dizer que eu tenho de ir buscar confiança em mim mesma. Eu não tenho confiança em mim. Não tinha nem na escola, apesar das notas, e é por isso que ando num psicólogo.
Que levou a outras coisas. Tentando não fazer drama, tive de me despedir do meu antigo professor. Ficar só no conservatório. E custou muito. Custa, porque depois de três anos tínhamos algo semelhante a uma ligeira amizade. Falávamos normalmente, havia alguma risota às vezes. E agora...
Agora não sei. Por mais que queira acreditar que as coisas vão melhorar, tenho medo. E se eu fiz a pior escolha, e deixei para trás uma pessoa que me podia ajudar? E se confiei demais para depois me falhar? Eu não sei como vai ser a partir de agora. Diz este professor que gosta de trabalhar comigo. Que me podia ajudar. Porque eu abri a boca e deixei sair os problemas que nestes anos me têm consumido. Mas, e se mudar de ideias, em que pé é que fico? Até porque eu acho bastante fácil deixar-se de gostar de mim: já perdi muitos amigos, já cheguei ao ponto de eu mesma me achar estúpida.
Não, eu não gosto de mim, porque tirei um 16 nesta prova e isso só mostra que eu não toquei bem (e este é um caso em que a palavra de ordem é a perfeição, e se eu não a consigo alcança, nem sequer chegar lá perto, então não acho que tenha grande valor).
Mas, enfim, o Paganini faz anos e eu suponho que isto deva ter sido um bom dia. Não sei. Se existir alma de violinista algures num céu particular seu, então, parabéns.