Fantasma da Orquestra
Aquela figura negra que se senta no fundo da orquestra, o violino que se ouve ao longe na noite de espectáculo. Os bastidores da alma e do concerto que se leva nos ouvidos já bem depois de ter sido tocado. E treze fogos fátuos em cima da corda Lá.
25 de Novembro de 2011

   Ontem não se fez greve e foi tão bom. Deu no que deu.

   Hoje, prova. De orquestra. Numa espécie de quarteto. Levei chocolate, mas o estado de desgraça já estava instalado. Não acho que tenha corrido lá grande coisa (aquela leitura à primeira vista, então, ultrapassava o caótico). Só que mantive-me mais ou menos animada com toda aquela movimentação de se ter feito no intervalo de orquestra, e depois ter continuado o ensaio, a seguir ainda um ensaio com piano.

 

   Agora cheguei a casa. Parei. Essas e outras coisas, uma avalanche de coisas, está agora a fazer peso em cima do peito.

   Sinto tristeza.

   Porque agora, olhando para trás, foi horrível. Mais uma vez na minha vida, só fiz merda.

 

   Mas, prontos, bem vinda ao 5º grau.

 

 

 

   Mesmo assim, gostava de repetir a experiência de tocar em quarteto. Acho graça, especialmente se houver alguma amizade entre os fulanos lá. Um dia gostava de formar um, mesmo que não tenha decidido em que posição ficar. Por um lado, gostava de ficar em primeiro. Por outro lado, logo eu, a coisa comigo à chefia devia correr mal como tudo. Além disso, por quem eu sou, suspeito que devo ficar confinada ao lugar de segundo.

Orquestrado por Violinista às 21:52
No momento, estou: Down low
Música do momento: Piano Concerto - Michael Nyman
27 de Outubro de 2011

   Para já, só depois de se ter marcado, assim uns quantos dias depois, é que reparei que tinha logo a prova no dia do aniversário do Paganini.

   Terror. Acagacei-me. Tremia de medo. Tremiam-me as mãos demasiado. Não falhei nenhuma parte, porque nem sequer era de memória, mas também não me pareceu que houvesse alguma coisa feita de jeito. Senti que o coração me caía aos pés quando me diz que agora tenho de ler à primeira vista (eu sou um desastre à primeira vista). Portanto, mais uma vez, nada de jeito. Disse-me que saía dali coisa algures para 80%. Um 16, para aí. Aquela nota, que não é nota má, mas também não é boa. E mais baixa que as anteriores.

   Oh, o desespero.

 

   (Agora a sério, se houver para aí alguma alma caridosa que leia isto e comente, digam-me, é ou não é uma porcaria de nota, desci, bolas, isso não me faz sentir melhor que porcaria. E agora?)

 

   Depois, vá uma conversa sincera. Ou supostamente sincera. Eu sou sincera, às vezes demasiado sincera, reconheço. Então, com algumas pessoas, cometo o duplo pecado de ser sincera e ingénua. Mesmo que vá perdendo a minha confiança nas pessoas, que tenha receios. Mas tirou-se-me um peso do peito saber que aquela mensagem afinal era falsa, que se calhar, da próxima vez, devia era criar coragem para ir ter com a pessoa e perguntar-lhe na cara, mesmo que aquela filosofia de ver alguém a mentir não seja uma coisa que eu domine.

   A confiança que eu tenho de arranjar, é coisa bonita de se dizer que eu tenho de ir buscar confiança em mim mesma. Eu não tenho confiança em mim. Não tinha nem na escola, apesar das notas, e é por isso que ando num psicólogo.

   Que levou a outras coisas. Tentando não fazer drama, tive de me despedir do meu antigo professor. Ficar só no conservatório. E custou muito. Custa, porque depois de três anos tínhamos algo semelhante a uma ligeira amizade. Falávamos normalmente, havia alguma risota às vezes. E agora...

 

   Agora não sei. Por mais que queira acreditar que as coisas vão melhorar, tenho medo. E se eu fiz a pior escolha, e deixei para trás uma pessoa que me podia ajudar? E se confiei demais para depois me falhar? Eu não sei como vai ser a partir de agora. Diz este professor que gosta de trabalhar comigo. Que me podia ajudar. Porque eu abri a boca e deixei sair os problemas que nestes anos me têm consumido. Mas, e se mudar de ideias, em que pé é que fico? Até porque eu acho bastante fácil deixar-se de gostar de mim: já perdi muitos amigos, já cheguei ao ponto de eu mesma me achar estúpida.

 

   Não, eu não gosto de mim, porque tirei um 16 nesta prova e isso só mostra que eu não toquei bem (e este é um caso em que a palavra de ordem é a perfeição, e se eu não a consigo alcança, nem sequer chegar lá perto, então não acho que tenha grande valor).

 

   Mas, enfim, o Paganini faz anos e eu suponho que isto deva ter sido um bom dia. Não sei. Se existir alma de violinista algures num céu particular seu, então, parabéns.

Orquestrado por Violinista às 23:17
No momento, estou: I don't know
Música do momento: Capricho nº 20 - Paganini
Palavras soltas: , , , ,
21 de Outubro de 2011

   Desta feita, ainda falta uma semana para o dito e já eu metia água por tudo o quanto era canto. Tive a ligeira impressão que até os lábios me tremiam, e eu ainda não tinha chegado a este ponto, antes. O fantasma do exame anterior ainda está sentado com toda a força em cima da minha cabeça, e não adianta dizer que tive 19, ou que há um desfasamento no nível das peças e do exame, ou que só faltam umas coisinhas, e que me falta confiança. Vão sempre faltar coisinhas para melhorar, e eu não me lembro de alguma vez ter tido confiança em mim.

   Hoje apanhámos com um teste de orquestra em cima, e individual. Como sempre, o habitual comentário reservado para mim: estás a ir depressa demais. Sempre, sempre, sempre o mesmo defeito. Vá lá não ter feito pior, o que, considerando que nestas alturas as mãos suam em bica (dando o espectacular resultado de primeiro estarem quentes, e depois se me gelarem até aos ossos), e eu tremia.

   E a modos que é isto, mandam-me ir arranjar confiança em mim para entrar com ela lá dentro, e eu não a arranjo. Não sei onde a arranjar. É por isso que ando no psicólogo, isso, a auto-estima de rastos e a ansiedade que eu tenho sempre que tenho de falar com pessoas (chega a ser deprimente o facto de eu ter um medo quase crónico de ter de me dirigir sozinha a pessoas num balcão qualquer, deprimente e angustiante).

 

   Tivesse eu confiança, e não tinha medo das pessoas, e também não era assim como estou agora. Logo desde cedo, saberiam que eu lá estou com os pés mais fincados, e mais vontade do que aquela que se calhar me atribuem, saberiam que eu não me calaria com o que quero realmente ser e não adiantar-lhes-ia de nada contestar. Porém, eu não faço isso, deixo-me estar calada e a um canto.

   Já disse que não gosto de ser estúpida, e tenho medo de me acharem estúpida.

 

   Tenho medo de chegar lá um dia e ouvir: lamento, tomámos-te por melhor, estudas, mas não tens talento, não podes pensar em fazer do violino uma vida, não vales para isso. E eu nem consigo imaginar vida depois disso.

 

   Fui viciar-me na música da banda sonora de DragonHeart, que me lembro de aparecer no filme do Mr Bean. Não faz sentido.

Orquestrado por Violinista às 21:43
No momento, estou: Não sei para onde me virar
Música do momento: To the stars, DragonHeart - Randy Edelman
Palavras soltas: , , ,
23 de Setembro de 2011

   Não quero nem pensar qual terá sido a minha figura ontem (de ter baralhado o horário completamente, de ter chegado lá quase a morrer das pernas e descobrir que, ahem, a aula era uma hora antes), o que é facto é que tive sorte ou provei muito da sua amabilidade ao dar-me aula hoje (não me parece que o volte a fazer, não comigo).

   Então, ahm, como é, vou fazer o exame para o 5º grau ali e já, tendo como argumento de obigação o facto de, na aula de pares, estar com uma colega do 5º grau. Até aí, tudo normal. A época desses exames é em Janeiro. E fazia dois graus num ano, e para o próximo seria o 6º, sem contar com a outra disciplina. Mas as coisas embaralham-se-me na cabeça quando ele diz Outubro. Em Outubro. Outubro. Em suma, estive uma aula do mais absolutamente calada e apagada de sempre. Eu não acho que vá estar tudo bem até Outubro. E eu não quero ter uma nota de caca.

   Isto, e afinal parece que há um concerto da Orquestra também em Outubro, e à conta disto tudo perdi o primeiro ensaio, assim hoje estive a ler tudo à primeira vista (um concerto de Vivaldi que gostei, outra coisa do Mozart que tem todas as características da anterior, incluíndo aí notas liliputianas, e o Canon de Pachelbel com o qual tenho uma larga série de preconceitos...). Nota mental: não voltar a faltar a um ensaio. Já é suficientemente difícil eu não parecer a maior nódoa no naipe dos segundos por estar a ler à primeira vista.

   E depois fizeram-me uma proposta de compra. Então, há um violino dado por um antigo aluno, que parece que pelos vistos é melhor. Queres comprá-lo? Esqueceram-se todos foi de um pequeníssimo detalhe: je n'ai pas d'argent. Se me faço entender. E o pior é que agora essa vai doer-me no estômago por dias.

 

   Também, a professora desencantou lá de uns arquivos umas revistas velhas da Câmara, uma delas onde eu tenho uma fotografia minha e de uma amiga estampada na capa, eu com uma roupa absolutamente horrível, o corte de cabelo deve ser assim meio parecido, não sei se com óculos ou não. Estávamos as duas a brincar nas recém inauguradas fontes à frente da Câmara, sem o conhecimento dos papás, claro, duas gaiatas com onze ou doze anos a correrem entre os repuxos de água, sem nada melhor para fazer. Tenho um exemplar dessa revista em casa. Parecia-me familiar, é, mas pediram-te autorização para aquilo, não e fomos descobertas em flagrante delito pelos pais quando a revista saíu.

 

   Epá, também foram-me desencantar com cada uma... bom, mas sim, eu já tive fama e estrelato numa revista. Aparentemente, continuo a ter.

Orquestrado por Violinista às 23:58
No momento, estou: Nhéééé...
Música do momento: Palladio - Karl Jenkins
30 de Junho de 2011

   Muito anti-climático ter constatado que não houve nada mais do que a normalidade, que comentámos aquilo como se aquelas palavras escritas não tivessem existido. Como se neste tempo todo não tivesse havido nada, tivesse pegado naquela manhã de quinta-feira, apagado tudo em diante e reescrito a partir de hoje à tarde. Cheguei lá e estava à espera, porque me atrasei dez minutos achou que eu não ia lá pôr os pés, não, só estou de novo meio coxa porque do nada o meu tornozelo esquerdo resolveu ter dores, e falámos no que não tínhamos falado, de volta ao amiguinho Beriot e o seu lindo concerto nº 9 que eu tenho de ir peneirar no Youtube. Então, o exame. Achei que foi grande porra, foi o que foi.

   96%. Que, no fundo, sabendo o que sei e o que significa, e que só foi isso assim porque estou no 3º grau, fosse no 5º ou 6º onde é suposto fazer aquelas peças que eu fiz e era muito menos. Ou seja, este 96% é uma nota baixa, uma nota de caca, não a nota de caca que eu estava à espera, mas é baixa, reles, suja.

   Mas, desenganem-se. Eu estou um bocado feliz agora. Talvez depois de ter passado algum tempo em que estive aflita por dentro, depois de hoje, de apenas uma aula suplementar sem nada de especial, em que parecia uma outra qualquer, voltou tudo a um ponto agradável. Porque eu voltei a entrar lá e tocar, e ver isto e aquilo, e o novo trabalho parece manhoso e aflitivo mas daqui a uns tempos não é. Eu gosto disso. Simples assim. Voltarei lá ainda. Da próxima vez, sem medo. Porque a partir de amanhã, há mais para fazer, e isso é-me bom, porque os estudos me mantêm a cabeça à tona. Não gosto de inércia nas férias. Mesmo que esteja calor, eu há uma ou duas semanas que ando a tossir muco para fora do peito, o meu pé esteja a doer.

   Sinto que voltei a um ponto seguro. E de repente olho para trás e foi um ano maravilhoso, apesar de tudo, de todas as facadas recebidas. Olho para trás e vou ter saudades destes dias. Das tardes na orquestra, dos concertos, das aulas, de entrar e tocar. De tudo. De tudo, mesmo.

   E sinto que quero mais. Tenho ânsia de mais, e mais, e mais. Até ao fim.

Orquestrado por Violinista às 23:07
No momento, estou: Respirar de alívio.
Música do momento: Tubular Bells - Mike Oldfield

Violinista, C. S. L. Stradivaria. 19. Nº 5. Nº 13. Pseudo Violinista. Estudante. Nerd. Chapeleira. Vitoriana. Dandy Lolita. Incerta. Inconstante. Sonhadora. Inteligente. Invisível. Tímida. Imprevisível. Intelectual. Estranha. Deprimida. Lacrimosa. Egoísta. Respondona. Obcecada. Cínica. Anti-social. Teimosa. Orgulhosa. Calada. Perfeccionista. Louca. Baixinha. Ridícula. Original. Solilóquio em Celulóide. Violino. Música. Letras. Notas. Pautas. Relógios de Bolso. Cartolas. Magia. Paranormal. Roxo. Vermelho. Raposa. Coruja. Melro, Corvo e Pêga. Cisne. Pássaro de Fogo. Chocolate. Chuva. Quinta Dimensão. Submarino Amarelo. Petrushka. Viajante do Tempo. Extraterrestre. Fantasma.
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