Fantasma da Orquestra
Aquela figura negra que se senta no fundo da orquestra, o violino que se ouve ao longe na noite de espectáculo. Os bastidores da alma e do concerto que se leva nos ouvidos já bem depois de ter sido tocado. E treze fogos fátuos em cima da corda Lá.
12 de Janeiro de 2012

   Como eu tenho uma sorte tremenda e tenho aquela mania do "é só uma constipação, não vou tomar para isto", ora hoje toma lá com uma quase otite no ouvido direito. Primeiro, sons ampliados (especialmente a minha voz), depois, um tímpano relaxado que me obriga a fazer compensação de cada vez que me vou para assoar, e umas pontadas de dor lá de quando em quando. Agora, adicionem a isto uma aula de violino. Pois.

   Não houve tempo para a escala (uma hora não dá para muito, é o grande problema), saltámos logo para os estudos. O primeiro, ainda foi, que é como quem diz que tenho de fazer o tempo igual em todas as partes e não falhar na afinação de um único ponto que em todo o estudo é logo ali que me espalho. Chegamos ao outro, desastre pegado. A afinação, ah pois que aquilo das cordas dobradas é bonito mas é um cu para acertar as diferenças de afinação, com a corda ré é uma coisa, com a corda mi é um milimetro mais abaixo. E de que me recordo eu? Master P dizendo na sua infinita sabedoria que o problema dos violinistas começa e acaba na afinação.

   O concerto. Quando ouço que tenho de melhorar a articulação numa das partes, não consigo conter o sorrisinho estúpido, porque era uma das coisas que o outro me marrava mais na cabeça. E se eu tinha orgulho quando lá chegava com uma articulação de invejar (na altura). Isso, e o início de fobia aos pizzicatos, que motiva sempre para estarmos os dois um ror de tempo a fazê-los em conjunto, para ver se sai. Fora o resto. Diz-me que está a sair, qualquer dia está na altura de lhe juntar o piano, mas ainda há uma boa meia dúzia de detalhes a ver.

   E aquela peça. A que tinha uma versão simplificada. A que diz que o som está melhor, que me foi uma batalha para chegar a isso. Porém, o pior problema, o das frases serem iguais mas com dedilhação diferente, é precisamente o ponto da peça e é precisamente onde eu começo a baralhar-me.

   Tocar com mais força, manda-me.

 

   Eu não posso tocar forte em casa. Se pudesse, se calhar já tinha resolvido esse problema mais cedo, mas não posso, é-me impossível fazê-lo. E é ordem que me é sempre dada. Ordem que chego a casa e só muito raramente a posso fazer. Não posso tocar forte em casa. Esta semana só o fiz uma vez, para fazer barulho na porta traseira de casa porque fiquei trancanda fora de casa.

 

   Sempre quero ver amanhã o que é que fazemos (época de partituras novas pós-concerto), e como vai ser bonito o meu ouvido na orquestra (vou sofrer). Hoje que é hoje, estou ligeiramente enervada, ou seja, coisa normal.

 

   Estou a ouvir Tubular Bells, versão orquestra, que é só capaz de ser a coisa mais épica com uma orquestra à face da terra (tirando Sheherazade). Estou com lágrimas de excitação nos olhos de tão bom que é. É como cruzar a minha infância com a minha actualidade, eu a tocar a minha criança interior, e nós as duas a tocar violino no meio disto tudo, isto é tão lindo, tão lindo, porra, isto é lindo. Estou capaz de ir fazer olhinhos ao maestro a pedir para tocar isto (quero lá saber que não temos sopros, arranjam-se), a sério que estou. Epá, se por alguma chance ler este blog, veja lá por favor especial, se me arranja as partituras desta coisa épica que é o Tubular Bells do Mike Oldfield tocado em orquestra.

 

   Ultimamente ando sensível e estranha.

Orquestrado por Violinista às 19:29
No momento, estou: Emocionada
Música do momento: Tubular Bells em orquestra - Mike Oldfield
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07 de Janeiro de 2012

   Cheguei lá de manhã e ainda antes de tempo. Vou a passar a passadeira, passa sua excelência e a professora de carro mesmo à frente, enquanto eu segurava o pé suspenso. Desta vez fiquei com um camarim só para mim, onde pude encher a mesa com as minhas coisas à larga. Tocámos de pé. O ensaio todo de pé. Por isso, quando nos disse que tínhamos de fazer vénias a agradecer, foi um alívio (para as costas). O cravo, desta feita, era um daqueles pianos digitais a imitar um cravo, que sempre era mais fácil de transportar, e não exige tempo a afinar, nem cordas.

   Não fui ao almoço de convívio. A verdade é que, fora as conversas paralelas que ouvi em que uns queriam ir para um lado, e sua excelência ainda gozou quando nos disse que tínhamos marcado no restaurante mais fino e caro cá da terra, não sabia de nada, ninguém me esclareceu sequer quem é que pagava, e assim agarrei em mim e fui para casa. Azar o meu, sempre era almoço pago por eles. A verdade é que até acho que houve pessoal que gostou de eu ter desaparecido de vista.

   Eis que quando chego (outra vez cedo, e tive de esperar que abrissem a porta) e vou ao meu camarim, reparo que alguém foi lá deixar o seu violino. Levei um bocadinho de tempo a perceber de quem era. De todos os camarins que havia, e não é possível que não reconheça as minhas coisas...

   Em suma, lá foi sua excelência, eu estava sozinha lá dentro, comentou que eu não fui almoçar, pois não fui, foi lá buscá-lo (não acredito que ele não se lembrasse de onde tinha deixado o violino. Deixar as suas coisas ao pé das minhas na sala, quando fomos à cantata pela primeira vez, cheira a coincidência. Ir deixar o violino no meu camarim com tantos camarins à escolha...), e mais um ensaio.

   Depois, tempo morto em que estive no camarim, sozinha, como a estranha anti-social que sou. Havia bolo, não comi. Estava cheia de frio, até actuar. Aí, a tocar, fico mais quente, nem que seja pelo camadão de nervos.

  

   O concerto. Correu bem, eu diria. Não houve assim nenhum erro muito mau, acho que estivemos bem, o público até gostou (gostaram mais do Palladio do que de Corelli, Mozart, Pachelbel e Vivaldi's, o que é que se lhes pode fazer). Desta vez tive público para mim. O meu padrinho e a mulher dele estavam lá, de bilhetes oferecidos por mim, e parece-me que gostaram. Fico feliz. Com uma gerbera vermelha entalada nos dedos, saí dali, com aquela sensação de mais um concerto (bom) feito.

   E, ao que parece, a nossa popularidade é agora tanta que os bilhetes esgotaram-se na manhã do dia anterior, quando costumavam só esgotar-se no próprio dia.

 

   Amanhã aguarda-me o dia da tristeza pós-concerto.

Orquestrado por Violinista às 22:19
No momento, estou: Cansada, mas bem.
Música do momento: Palladio - Jenkins
23 de Dezembro de 2011

   Para já, o melhor presente que já sei que posso esperar: um livro de história da música do período romântico até à actualidade. Sim, podia ter pedido também o primeiro volume, tenho amor ao clássico e ao barroco, mas achei que era pedir demais a uma pessoa que quero bem, e assim fiquei-me só pelo livro que dizia Paganini no índice.

   Eu sou esquisita.

   Infelizmente, não havia Tolkien, nem Sherlock Holmes, nem o Retrato de Dorian Gray...

 

   Acho deprimente estar num país que, das duas uma, ou compras cds de música erudita numa loja altamente especializada em procura e venda de cds, ou seja, uma loja onde uma colectânea de Bach vos custa os olhos da cara e o olho do cu; ou vais a uma Worten e vais às cestinhas do meio com as pechinchas, chafurdas naquilo até encontrares Beethoven e Karajan enfiados com coisas pimbas rascas, uns trezentos cds de Natal de todas as cores e maneiras e dvds de desenhos animados fracotes. Custam abaixo de cinco euros.

   Por um lado, é bom: basta-me ter paciência e persistência, e descubro pérolas no meio daquilo.

  

   Mas, não, não deixa de ser deprimente que esta música tenha sido metida sob o grande rótulo de clássica e esteja rebaixada ao nível que está, porque na sua maioria, as pessoas não a sabem apreciar. Nem dar-lhe valor.

Orquestrado por Violinista às 22:42
No momento, estou: Ligeiramente aborrecida
Música do momento: Concerto para 4 violinos em si menor - Vivaldi
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27 de Outubro de 2011

   E como é da praxe, Feliz Aniversário Niccolò Paganini.

 

Orquestrado por Violinista às 19:13
No momento, estou: Ergue o copo de vinho
Música do momento: Carnaval de Veneza - Paganini
Palavras soltas: , , ,
01 de Outubro de 2011

   Não há ser humano que não tenha tido alguma vez na sua vida contacto com a música. É uma daquelas coisas da lista das coisas inevitáveis da vida, a mesma lista que começa com  o ponto "nascer" e termina no ponto "morrer". É escusado. Também não acredito nem um bocadinho nas pessoas que dizem que não gostam de música, que odeiam música. Isso é mentira. Podem não gostar de um género, de um estilo, mas a música é todo um mundo de variedades, e há sempre mais do que uma que nos faz as delícias. Dizer que não se gosta de música é o mesmo que dizer que não se gosta de arte, nem de nenhuma cor. Só os mentirosos e metidos a pseudo qualquer coisa é que diriam uma dessas.

   Comigo começou assim: uma rapariga pequenina cujos pais ouviam Pink Floyd. Creio que algumas das memórias mais antigas envolvem a minha antiga casa, uma sala de chão e tecto de madeira com uma aparelhagem e um gira-discos, com os LPs do The Wall. Ou então o carro e as viagens de regresso da casa dos avós a ouvir Division Bell. A mais antiga mesmo, porém, é ir aos lados de Lisboa a casa de uns tios e uma prima, que tinham um teclado na sala, e ainda hoje não percebo bem porquê, mas era extremamente novinha e lembrei-me, durante anos, do que tinha ouvido no carro, mesmo que se tenham passado anos sem ouvi-la outra vez. E era Phill Collins.

   Depois disso, há uma série de memórias, todas elas com música. A televisão em cima do frigorífico da cozinha, que passou Yellow Submarine e o Top+ da RTP quando este ainda passava alguma coisa de jeito. Numa altura em que as criancinhas pediam CDs de cantoras loiras e afins aos pais, num certo aniversário eu lembrei-me foi de pedir Vangelis. E, verdade seja dita, ainda hoje tenho e ouço o dito CD, gravado com uma orquestra e tudo, ao passo que outros se foram com as brumas da memória.

   Com a minha música favorita, foi diferente. A coisa começou de uma maneira bastante subtil, foi um gosto que se foi entranhando, ao contrário do gosto pelos Pink Floyd que parece que sempre lá existiu e sempre lá esteve. Começou com um bailado de dança contemporânea e o Lago dos Cisnes, que evoluíu para um CD com o Concerto nº1 para Piano, o Quebra Nozes e o Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky, pelo meio entrou o Bolero de Ravel sem se ter identificado, uns bocadinhos de Mozart, Vivaldi em reclames de televisão. Terminaria um belo dia, com duas amigas, a ouvir o que uma tinha "sacado da net e apresentado como olhem, tenho aqui as músicas dos Evanescence que ainda não saíram em CD!", entre as quais a Lacrymosa. Não a voz da Amy Lee, mas os acordes da orquestra e as vozes do coro foram todas em conjunto àquele corredor da escola com o Mozart, ferrar uma chapada na minha cara. Miúda, tu gostas disto.

  

   Aqui acabam as memórias do que parece já ter sido uma outra vida, um passado. Não sabia, não imaginava que a minha vida chegaria a este ponto. A minha relação com a música mudou. Deixou de ser apenas a menininha que pulava na sala ao som dos discos que os pais punham. Porque, não posso negar, apesar de difícil e por vezes desesperante, a primeira vez que peguei no arco, a primeira vez que toquei uma única corda, foi a vez em que tudo mudou. Quando já antes a minha vida oscilava e por vezes deixava de fazer sentido, agora havia algo. Uma coisa. Uma luz ao fundo do túnel, que se ainda não me afundei, se ainda não desisti, é porque ainda estou a caminhar para lá.

   Porque passei a ver a música com outros olhos. Porque não lhe chamo música erudita, porque não é só para os sábios, é livre e é para todos. Porque na maior parte dos dias não há coisa mais bela que um capricho. Que uma sinfonia. Que um concerto. Porque quando tenho aulas de violino, levanto-me de manhã com um objectivo que me preenche a alma, que é o que faz falta nas férias que me fazem desanimada e dormente. Apesar de tudo, eu vou para lá e ainda rio. Ainda há um sorriso, mesmo que tímido, que sai para fora, mesmo que eu não queira que se veja.

   Todas as pessoas que eu conheci na música, mesmo que tenham virado as costas e ido embora, ou só me estejam a falar de costas voltadas, ou que sejam minhas amigas, todas essas pessoas, de alguma forma, ajudaram-me em algo. Fizeram de mim o que eu sou hoje (bom, para trabalho malfeito e inacabado, talvez nem tanto). Mas, no fundo, eu gosto de todas essas pessoas, agradeço-lhes que me tenham conhecido, que tenham perdido tempo comigo. Obrigada.

   Eu gosto de música. Eu gosto muito. Neste momento, é a única coisa que eu ainda sinto que estou a fazer e que estou a respirar de vida. Não trocava, por nada deste mundo, as horas repetidas de exercícios, os calos nos dedos, nem a tenebrosa mancha no pescoço, por nada, porque gosto demasiado deles.

 

   Feliz Dia da Música. Espero que algures por aí tenham ouvido música que apreciem muito, porque hoje é dia disso.

Orquestrado por Violinista às 23:09
No momento, estou: Cansada, mas bem
Música do momento: Carnaval de Veneza - Paganini

Violinista, C. S. L. Stradivaria. 19. Nº 5. Nº 13. Pseudo Violinista. Estudante. Nerd. Chapeleira. Vitoriana. Dandy Lolita. Incerta. Inconstante. Sonhadora. Inteligente. Invisível. Tímida. Imprevisível. Intelectual. Estranha. Deprimida. Lacrimosa. Egoísta. Respondona. Obcecada. Cínica. Anti-social. Teimosa. Orgulhosa. Calada. Perfeccionista. Louca. Baixinha. Ridícula. Original. Solilóquio em Celulóide. Violino. Música. Letras. Notas. Pautas. Relógios de Bolso. Cartolas. Magia. Paranormal. Roxo. Vermelho. Raposa. Coruja. Melro, Corvo e Pêga. Cisne. Pássaro de Fogo. Chocolate. Chuva. Quinta Dimensão. Submarino Amarelo. Petrushka. Viajante do Tempo. Extraterrestre. Fantasma.
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