A depressão é uma merda. Ponto final parágrafo.
É a doença mais estúpida e má, que eu tive a infelicidade de conhecer interiormente. Dói de uma forma que não se consegue quantificar, nem explicar aos outros. As pessoas à tua volta não vão entender essa coisa. Em muitos casos não vai ser sequer considerada como uma doença viável, face a outras tão mais graves. Também há aquelas pessoas que dizem que são fortes e que atiram com os comprimidos para o lado, fazendo-te sentir uma fraca por te estares a arrastar com um de manhã e um à noite, ou qualquer que seja a prescrição. Vão-te atirarà cara que só tens depressão por culpa tua. As pessoas olham-te de lado. Ou és a coitadinha, ou pior, és a que quer chamar a atenção sobre ti para seres apaparicada.
Superficialmente, ninguém vai achar ninguém doente. Estás de cabeça em baixo, choras constantemente, não sorris, não falas... és uma idiota anti-social, qual depressão? A culpa é tua.
A depressão é-me acordar todos os dias a perguntar porque é que não morri a dormir, porque é que tenho que me levantar para mais um dia. É andar de cabeça baixa, e com dores de cabeça. É-me aquele sentimento opressor no peito, como se estivessem a arrancar coisas cá de dentro, a espetar vidro na carne, a apertar o coração, a pôr-lhe chumbo dentro. Olhar horas e horas perdido para algum lado até deixar de se ver. É não ter nem forças para sorrir para os amigos. É exagerar no perfeccionismo e acabar a bater-se porque falhou alguma coisa, chegar mesmo ao choro por causa disso. Aliás, chega-se ao choro por qualquer coisa, até mesmo sem motivo. Não ter fome nem para o prato favorito, aquele que antes fazia crescer àgua na boca. Deitar e dormir mal, dar voltas na cama sem calar o desassossego. Olhar pelo canto do olho para as pessoas amadas e invejá-las, e ao mesmo tempo desejar só um abraço, e saber que ele não vem. Olha-se para facas e apetece cortar-se, olha-se para lâminas e apetece cortar-se, olha-se para agulhas e apetece espetar-se, olha-se para a caixa dos comprimidos e apetece emborcá-los todos de uma vez, olha-se para a banheira e apetece mergulhar até não haver respiração e perder os sentidos. Suicídio a cada cinco minutos.
Vais-te achar um caco, uma merda. Vais sentir que a tua sanidade mental esvai-se por um ralo, por entre os dedos. Vais ver as coisas de outra maneira, e vão ser muito mais assustadoras. Ir a um balcão é um horror. Falar com alguém pessoalmente ou ao telemóvel é um horror. Falar com quem se gosta transforma-se num horror. Ser olhada, ser ouvida, só te leva a encolheres-te ainda mais e a desejar que fosses invisível. Porque na tua cabeça corre apenas que és uma fraca, uma idiota, uma estúpida, uma sem talento, uma feia, uma que não faz nada bem, nada de jeito. E vai-se para a cama a desejar morrer no sono.
Não falei com ninguém. Nem quando comecei o tratamento. Só parte da minha família sabe, e mais duas amigas a quem confiei quando, mais uma vez, rebentei. De resto, as pessoas não suspeitam que tomo Prozac de manhã antes de ir ter com elas e falar com elas. Perdi a confiança nas pessoas.
É uma doença solitária. É uma doença estúpida e idiota. É uma doença que te mata de dentro para fora e de uma maneira que não levanta suspeitas. É a doença do isolamento, da privação de vida. A doença do medo. A doença da tristeza, da extrema tristeza. A doença que vai materializando a morte à frente dos olhos, cada vez mais forte. A doença em que ninguém acredita, a doença dos ditos fracos.
Desabafo hoje porque estou com medo. Já passou mais de um mês que fui diagnosticada, e entrei em tratamento, e nada. Continuo no mesmo estado, continuo com vontade de chorar todas as noites. Na quinta-feira só desejava morrer. As coisas correram mal, muito mal. Não sinto bem em lado nenhum, não chamo casa aonde moro, e agora nem me sinto segura em lado nenhum. Não percebo. Aumentei a dosagem dos comprimidos da noite e ironicamente durmo e acordo melhor com eles, mas continuo na mesma tristeza, na mesma dificuldade em ir deitar-me e em sair da cama.
Tenho medo. E se eu for assim de natureza? E se eu estiver condenada a estes comprimidos para o resto da vida, só para me manter à tona da água?
Neste momento, já não me sinto uma pessoa como deve ser, e sei que outros me olham assim.




