Fantasma da Orquestra
Aquela figura negra que se senta no fundo da orquestra, o violino que se ouve ao longe na noite de espectáculo. Os bastidores da alma e do concerto que se leva nos ouvidos já bem depois de ter sido tocado. E treze fogos fátuos em cima da corda Lá.
29 de Janeiro de 2012

   A depressão é uma merda. Ponto final parágrafo.

 

   É a doença mais estúpida e má, que eu tive a infelicidade de conhecer interiormente. Dói de uma forma que não se consegue quantificar, nem explicar aos outros. As pessoas à tua volta não vão entender essa coisa. Em muitos casos não vai ser sequer considerada como uma doença viável, face a outras tão mais graves. Também há aquelas pessoas que dizem que são fortes e que atiram com os comprimidos para o lado, fazendo-te sentir uma fraca por te estares a arrastar com um de manhã e um à noite, ou qualquer que seja a prescrição. Vão-te atirarà cara que só tens depressão por culpa tua. As pessoas olham-te de lado. Ou és a coitadinha, ou pior, és a que quer chamar a atenção sobre ti para seres apaparicada.

   Superficialmente, ninguém vai achar ninguém doente. Estás de cabeça em baixo, choras constantemente, não sorris, não falas... és uma idiota anti-social, qual depressão? A culpa é tua.

 

   A depressão é-me acordar todos os dias a perguntar porque é que não morri a dormir, porque é que tenho que me levantar para mais um dia. É andar de cabeça baixa, e com dores de cabeça. É-me aquele sentimento opressor no peito, como se estivessem a arrancar coisas cá de dentro, a espetar vidro na carne, a apertar o coração, a pôr-lhe chumbo dentro. Olhar horas e horas perdido para algum lado até deixar de se ver. É não ter nem forças para sorrir para os amigos. É exagerar no perfeccionismo e acabar a bater-se porque falhou alguma coisa, chegar mesmo ao choro por causa disso. Aliás, chega-se ao choro por qualquer coisa, até mesmo sem motivo. Não ter fome nem para o prato favorito, aquele que antes fazia crescer àgua na boca. Deitar e dormir mal, dar voltas na cama sem calar o desassossego. Olhar pelo canto do olho para as pessoas amadas e invejá-las, e ao mesmo tempo desejar só um abraço, e saber que ele não vem. Olha-se para facas e apetece cortar-se, olha-se para lâminas e apetece cortar-se, olha-se para agulhas e apetece espetar-se, olha-se para a caixa dos comprimidos e apetece emborcá-los todos de uma vez, olha-se para a banheira e apetece mergulhar até não haver respiração e perder os sentidos. Suicídio a cada cinco minutos.

   Vais-te achar um caco, uma merda. Vais sentir que a tua sanidade mental esvai-se por um ralo, por entre os dedos. Vais ver as coisas de outra maneira, e vão ser muito mais assustadoras. Ir a um balcão é um horror. Falar com alguém pessoalmente ou ao telemóvel é um horror. Falar com quem se gosta transforma-se num horror. Ser olhada, ser ouvida, só te leva a encolheres-te ainda mais e a desejar que fosses invisível. Porque na tua cabeça corre apenas que és uma fraca, uma idiota, uma estúpida, uma sem talento, uma feia, uma que não faz nada bem, nada de jeito. E vai-se para a cama a desejar morrer no sono.

 

   Não falei com ninguém. Nem quando comecei o tratamento. Só parte da minha família sabe, e mais duas amigas a quem confiei quando, mais uma vez, rebentei. De resto, as pessoas não suspeitam que tomo Prozac de manhã antes de ir ter com elas e falar com elas. Perdi a confiança nas pessoas.

 

   É uma doença solitária. É uma doença estúpida e idiota. É uma doença que te mata de dentro para fora e de uma maneira que não levanta suspeitas. É a doença do isolamento, da privação de vida. A doença do medo. A doença da tristeza, da extrema tristeza. A doença que vai materializando a morte à frente dos olhos, cada vez mais forte. A doença em que ninguém acredita, a doença dos ditos fracos.

 

   Desabafo hoje porque estou com medo. Já passou mais de um mês que fui diagnosticada, e entrei em tratamento, e nada. Continuo no mesmo estado, continuo com vontade de chorar todas as noites. Na quinta-feira só desejava morrer. As coisas correram mal, muito mal. Não sinto bem em lado nenhum, não chamo casa aonde moro, e agora nem me sinto segura em lado nenhum. Não percebo. Aumentei a dosagem dos comprimidos da noite e ironicamente durmo e acordo melhor com eles, mas continuo na mesma tristeza, na mesma dificuldade em ir deitar-me e em sair da cama.

   Tenho medo. E se eu for assim de natureza? E se eu estiver condenada a estes comprimidos para o resto da vida, só para me manter à tona da água?

 

   Neste momento, já não me sinto uma pessoa como deve ser, e sei que outros me olham assim.

Orquestrado por Violinista às 00:32
No momento, estou: Mal
Música do momento: Sheherazade - Rimsky-Korsakov
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27 de Outubro de 2011

   Para já, só depois de se ter marcado, assim uns quantos dias depois, é que reparei que tinha logo a prova no dia do aniversário do Paganini.

   Terror. Acagacei-me. Tremia de medo. Tremiam-me as mãos demasiado. Não falhei nenhuma parte, porque nem sequer era de memória, mas também não me pareceu que houvesse alguma coisa feita de jeito. Senti que o coração me caía aos pés quando me diz que agora tenho de ler à primeira vista (eu sou um desastre à primeira vista). Portanto, mais uma vez, nada de jeito. Disse-me que saía dali coisa algures para 80%. Um 16, para aí. Aquela nota, que não é nota má, mas também não é boa. E mais baixa que as anteriores.

   Oh, o desespero.

 

   (Agora a sério, se houver para aí alguma alma caridosa que leia isto e comente, digam-me, é ou não é uma porcaria de nota, desci, bolas, isso não me faz sentir melhor que porcaria. E agora?)

 

   Depois, vá uma conversa sincera. Ou supostamente sincera. Eu sou sincera, às vezes demasiado sincera, reconheço. Então, com algumas pessoas, cometo o duplo pecado de ser sincera e ingénua. Mesmo que vá perdendo a minha confiança nas pessoas, que tenha receios. Mas tirou-se-me um peso do peito saber que aquela mensagem afinal era falsa, que se calhar, da próxima vez, devia era criar coragem para ir ter com a pessoa e perguntar-lhe na cara, mesmo que aquela filosofia de ver alguém a mentir não seja uma coisa que eu domine.

   A confiança que eu tenho de arranjar, é coisa bonita de se dizer que eu tenho de ir buscar confiança em mim mesma. Eu não tenho confiança em mim. Não tinha nem na escola, apesar das notas, e é por isso que ando num psicólogo.

   Que levou a outras coisas. Tentando não fazer drama, tive de me despedir do meu antigo professor. Ficar só no conservatório. E custou muito. Custa, porque depois de três anos tínhamos algo semelhante a uma ligeira amizade. Falávamos normalmente, havia alguma risota às vezes. E agora...

 

   Agora não sei. Por mais que queira acreditar que as coisas vão melhorar, tenho medo. E se eu fiz a pior escolha, e deixei para trás uma pessoa que me podia ajudar? E se confiei demais para depois me falhar? Eu não sei como vai ser a partir de agora. Diz este professor que gosta de trabalhar comigo. Que me podia ajudar. Porque eu abri a boca e deixei sair os problemas que nestes anos me têm consumido. Mas, e se mudar de ideias, em que pé é que fico? Até porque eu acho bastante fácil deixar-se de gostar de mim: já perdi muitos amigos, já cheguei ao ponto de eu mesma me achar estúpida.

 

   Não, eu não gosto de mim, porque tirei um 16 nesta prova e isso só mostra que eu não toquei bem (e este é um caso em que a palavra de ordem é a perfeição, e se eu não a consigo alcança, nem sequer chegar lá perto, então não acho que tenha grande valor).

 

   Mas, enfim, o Paganini faz anos e eu suponho que isto deva ter sido um bom dia. Não sei. Se existir alma de violinista algures num céu particular seu, então, parabéns.

Orquestrado por Violinista às 23:17
No momento, estou: I don't know
Música do momento: Capricho nº 20 - Paganini
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25 de Outubro de 2011

   Bonito, já não está calor, já apanhámos alguma chuva. Não me devia queixar.

   Mas está frio. Tanto frio que agora as minhas mãos voltam ao inferno a que estão reservadas durante metade do ano: estão geladas e começam-me a doer os ossos. Os pés também, mas não me fazem tanta impressão, basta calçar uns dois ou três pares de meias em casa e andar. As mãos, as mãos, aí está o grande busílis.

   Porque eu preciso de tocar e com o frio os meus dedos perdem parte da capacidade para fazer o que quer que seja. Só sinto que consigo alguma coisa de jeito depois de estar duas horas com algum estudo de Kreutzer, e é na esquerda. A direita, de fria passa a gelada, de gelada a congelada. É o arco. Nem sequer sei como é que há de aquecer de alguma forma. E custa, porque não estou em casa, estou num espaço que gela. Este ano, com esta crise coisa, a coisa complica-se porque vamos cortar ao máximo os aquecedores. E eu quero cortar isso, não quero ser a única em casa a ter gastos desnecessários porque causa disto.

   Não aguento, porém, não aguento. Sou a única que já está a tirar e usar luvas porque as minhas mãos têm este problema. Não sei se está ligado ao facto de eu suar das mãos e depois, ao mínimo ar fresco, arrefecerem demais. Só sei que hoje foi o primeiro dia a ter as mãos geladas e não consigo evitar pensar que a aula hoje com o P foi do anedótico ao deprimente (a escala estava bem, o segundo andamento do concerto e o vibrato nele foi de chorar em desespero, pelos deuses que o primeiro andamento estava bem, e passámos à parte do vá, agora vamos fazer isto rápido, o quê?, vá rápido, e a coisa até saíu).

   Isto para não falar que ganhei uma borbulha no pescoço exactamente em La Mancha, que na verdade é um abcesso a dar para o doloroso de cada vez que encosto lá a queixeira, porque, sem ofensa mas as queixeiras da Stagg assassinam-me o pescoço. Um bocadinho de tempo e noto a impressão no maxilar.

   E há aula quinta feira. Não lhe disse nada, porque não sei como é que amanhã, com poucas horas para estudar (ódio, ódio, ódio), vou conseguir a proeza de sair bem na prova de quinta e não voltar a fazer treta na aula.

 

   Não, não vou. E depois da aula de hoje, depois da milionésima vez que ouço que o vibrato não pode ser nervoso, e a dificuldade em dominar até a mais simples coisa de técnica com as mãos geladas, e a prova mete staccato e spiccato pelo meio, depois de ver vídeos do Perlman no Youtube, e ouvir em casa que sou uma merda, que de merda não passo, pois claro, a confiança, se é que alguma vez cá morou, foi dar uma volta ao bilhar grande.

   Eu já sei que não vou passar de medíocre. Porra. Isso dói quando vemos a vida a andar para trás, porque não a quero de outra forma. Preferiria anular a minha existência.

   Bom, talvez na quinta entre em tanto negativismo depois de fazer merda da grossa que a auto-anulação seja possível.

 

   E não quero ouvir ninguém a dizer que eu tenho de pensar noutra coisa. Não quero, não gosto, já fiz antes, não vou voltar a fazer, não quero saber, eu só gosto de violino, mesmo que seja uma grande idiota de dedos gordos e toscos. Obrigada, foram muito prestáveis, davam excelentes conselheiros, dêem uma curva e vão-se embora que eu depois do desastre gosto de ficar sozinha a curtir a minha dor sem ter ninguém ao lado. A não ser que sejam pessoas nas quais estupidamente deposito confiança. E tragam chocolates. E abraços. E um cobertor quente.

Orquestrado por Violinista às 23:31
No momento, estou: Fear, fear, fear, fear, fear
Música do momento: The Piano OST - Michael Nyman
21 de Outubro de 2011

   Desta feita, ainda falta uma semana para o dito e já eu metia água por tudo o quanto era canto. Tive a ligeira impressão que até os lábios me tremiam, e eu ainda não tinha chegado a este ponto, antes. O fantasma do exame anterior ainda está sentado com toda a força em cima da minha cabeça, e não adianta dizer que tive 19, ou que há um desfasamento no nível das peças e do exame, ou que só faltam umas coisinhas, e que me falta confiança. Vão sempre faltar coisinhas para melhorar, e eu não me lembro de alguma vez ter tido confiança em mim.

   Hoje apanhámos com um teste de orquestra em cima, e individual. Como sempre, o habitual comentário reservado para mim: estás a ir depressa demais. Sempre, sempre, sempre o mesmo defeito. Vá lá não ter feito pior, o que, considerando que nestas alturas as mãos suam em bica (dando o espectacular resultado de primeiro estarem quentes, e depois se me gelarem até aos ossos), e eu tremia.

   E a modos que é isto, mandam-me ir arranjar confiança em mim para entrar com ela lá dentro, e eu não a arranjo. Não sei onde a arranjar. É por isso que ando no psicólogo, isso, a auto-estima de rastos e a ansiedade que eu tenho sempre que tenho de falar com pessoas (chega a ser deprimente o facto de eu ter um medo quase crónico de ter de me dirigir sozinha a pessoas num balcão qualquer, deprimente e angustiante).

 

   Tivesse eu confiança, e não tinha medo das pessoas, e também não era assim como estou agora. Logo desde cedo, saberiam que eu lá estou com os pés mais fincados, e mais vontade do que aquela que se calhar me atribuem, saberiam que eu não me calaria com o que quero realmente ser e não adiantar-lhes-ia de nada contestar. Porém, eu não faço isso, deixo-me estar calada e a um canto.

   Já disse que não gosto de ser estúpida, e tenho medo de me acharem estúpida.

 

   Tenho medo de chegar lá um dia e ouvir: lamento, tomámos-te por melhor, estudas, mas não tens talento, não podes pensar em fazer do violino uma vida, não vales para isso. E eu nem consigo imaginar vida depois disso.

 

   Fui viciar-me na música da banda sonora de DragonHeart, que me lembro de aparecer no filme do Mr Bean. Não faz sentido.

Orquestrado por Violinista às 21:43
No momento, estou: Não sei para onde me virar
Música do momento: To the stars, DragonHeart - Randy Edelman
Palavras soltas: , , ,
10 de Setembro de 2011

Orquestrado por Violinista às 22:09
No momento, estou: I shall point above
Música do momento: Hey you - Pink Floyd

Violinista, C. S. L. Stradivaria. 19. Nº 5. Nº 13. Pseudo Violinista. Estudante. Nerd. Chapeleira. Vitoriana. Dandy Lolita. Incerta. Inconstante. Sonhadora. Inteligente. Invisível. Tímida. Imprevisível. Intelectual. Estranha. Deprimida. Lacrimosa. Egoísta. Respondona. Obcecada. Cínica. Anti-social. Teimosa. Orgulhosa. Calada. Perfeccionista. Louca. Baixinha. Ridícula. Original. Solilóquio em Celulóide. Violino. Música. Letras. Notas. Pautas. Relógios de Bolso. Cartolas. Magia. Paranormal. Roxo. Vermelho. Raposa. Coruja. Melro, Corvo e Pêga. Cisne. Pássaro de Fogo. Chocolate. Chuva. Quinta Dimensão. Submarino Amarelo. Petrushka. Viajante do Tempo. Extraterrestre. Fantasma.
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