Fantasma da Orquestra
Aquela figura negra que se senta no fundo da orquestra, o violino que se ouve ao longe na noite de espectáculo. Os bastidores da alma e do concerto que se leva nos ouvidos já bem depois de ter sido tocado. E treze fogos fátuos em cima da corda Lá.
24 de Outubro de 2010

   As chamas estavam agora extintas, mas tinham deixado marcas da sua pesada violência sobre o edifício, assim como o fumo ainda teimava em existir, como traços leves de carvão numa imagem a escurecer. A multidão à sua frente gritava, entre a histeria e a cólera. A maioria era o público, que antes estivera na plateia, e agora já discutia histórias rocambolescas sobre o incêndio, em que cada um deles era uma vítima, um alvo a abater, por serem o início de um escândalo qualquer. Todos se achavam uns injustiçados, uns desprotegidos, que tinham escapado à morte agonizante e não eram mais que uns mártires daquela sociedade que não olhava pelos seus.

   Mas mais enraivecidos que a plateia estavam os participantes do concurso, por causa dos resultados que ainda não tinham sido divulgados e, principalmente, por causa da verdade descoberta. Uma mulher entre os participantes. Isso era mais que um problema, era quase um ultraje. Uns queriam repetir tudo novamente, outros queriam apenas deixá-la de lado e serem eles os vencedores, ou ter direito a, pelo menos, alguma indemnização pelo incómodo.

   Estavam todos alheios à pessoa em questão. Cassandra, sentada e afastada do resto do mundo, já não chorava. Apenas olhava a direito o espaço vazio que tinha à sua frente, sem ouvir ninguém. Fora para ali arrastada por Rodolfo, e ali se deixou ficar, como uma boneca de trapos caída.

   Teria dado tudo para ainda ter o irmão ali. Para não lhe ter visto o sangue escorrer do corpo e a alma a esvair-se no fumo denso do fogo. Para não ter ouvido o grito e o choro de Isabella quando Afonso lhe contou, nem quando ela se agarrou ao peito dele a esmurrá-lo. Essas imagens e sons entravam-lhe na cabeça e fragmentavam-se, lentas de súbito. Misturavam-se com as outras, tornavam-se intermináveis, vezes e vezes e vezes sem conta. Não queria saber do Conde, do incêndio. Nem do prémio. O que importava tudo isso, quando lhe tinham tirado um irmão? Sangue do seu sangue, carne da sua carne. Era família.

   – Cassandra.

   Só ouviu quando ele lhe pousou a mão no ombro. O rosto, antes com um aspecto jovial, estava coberto de negro, com os óculos sujos e olhos ainda brilhantes atrás deles. Não sabia dizer se tinha estado a chorar ou não. Ela tinha. Os sulcos das lágrimas estavam marcados na face, longos traços entre as cinzas e a pele seca. Queria afastá-lo, torná-lo numa mera lembrança, distante no tempo, ou nunca o ter conhecido sequer. Mas agora não podia, e Rodolfo Lobato era demasiado real, a puxar-lhe o braço para se levantar. Lá, distantes, os júris já tinham decidido o que fazer em relação aos vencedores do concurso.

   Que importava? Tinham-na descartado de imediato.

   – O vencedor da categoria Violino é Rodolfo Lobato. Por favor... oh, o prémio. – A directora estava afogueada, contudo, nem mesmo assim dispensou o sorriso meloso quando se voltou para ele e entregou aquilo a que tinha direito, apesar dos protestos. Entre tudo, o relógio, reflectindo tudo e todos no seu brilho dourado e fosco.

   O sorriso resvalou pela cara gorda abaixo quando ele segurou Cassandra com um braço, e com a outra mão lhe enfiou o relógio nas mãos, afastando-se dali sem uma palavra.

   Aquele relógio já segurava as vidas de duas pessoas, talvez de mais, que tivesse sugado ao longo da sua existência. Com elas, tornava-se frio de pesado nas suas mãos dormentes. Parecia que tinha um preço alto, que lho estava a cobrar aos poucos e poucos. Cassandra sentia-se fraca. Por ela, tinha chegado ao fim da linha.

   – O relógio é seu. Porquê? – Falava num fio de voz, irreconhecível.

   – Não. O relógio é teu. Eu conheci-o. Não tanto, ou tão bem quanto o teu irmão, mas conheci-o, e sei o quanto esse relógio tem para ti. Achilles era mais que um amigo, era uma pessoa excepcional. Conhecem-se poucas pessoas assim. Era capaz de resolver qualquer problema, ser um bom aliado e mover-se em qualquer círculo social. E via. Via o que havia de melhor nas pessoas, redimia os nossos erros. Foi ele que me redimiu depois de ter sido manietado pelo Conde. E agora...

   – Não, por favor, cale-se... e leve o relógio. Já foi capaz de me tirar tudo. Não sei se acredita em magia, mas eu acredito que esta maldiça peça de ouro matou o meu amigo, e o meu irmão. E tirou-me a música. E tirou mais e mais, até não restar mais nada...

   Antes de terminar a frase, recebeu uma estalada na cara. O suficiente para lhe arregalar os olhos, e abrir os ouvidos ainda mais, quando aquelas palavras a feriam por dentro e por fora.

   – Só te tiram aquilo que deixas tirar. Eu não sei o que tens na cabeça, além desse perfeccionismo doentio, mas o teu irmão não te quereria assim. Ele ficou até ao final para te voltar a ver um dia, como tu eras. A Cassandra. Com o violino. A viver.

   Apertou o objecto metálico e frio nas suas mãos, e este já não lhe parecia tão frio quanto antes. Mas estava longe de estar quente. Talvez fosse ela a ficar cada vez mais gélida, até ser pouco mais que uma estátua de gelo.

   – O meu violino?

   – Está guardado. Vem. Tenho uma proposta.

 

 

   Os meses passaram-se. Já não havia memória do Conde. Não havia corpo queimado entre as cinzas, ao contrário de Achilles D'Addario, cujo funeral fora invulgarmente grande. Muitos eram aqueles que guardavam memórias dele, fossem respeitosas ou, pelo contrário, de festanças, bebedeiras e coisas tão banais como uma aposta que ninguém ganhara. Tudo indicava que o Conde tivesse fugido com a fortuna que tinha para algum país como o Brasil, e apagado as suas pegadas.

   A mansão de Achilles fora vendida pelas irmãs, e comprada por Afonso como proposta de casamento, o que gerou uma discussão tremenda. Terminou no altar, altura em que Isabella não se atreveu a lançar mais olhares provocadores ou irados. E, mesmo assim, o padre encolhia-se de medo de cada vez que se voltava para ela.

   A Casa Napolitana continuou aberta. Isabella reservou um pequeno cantinho atrás do balcão para o irmão, com uma fotografia a preto e branco para a qual olhava. Os seus velhos amigos, os que eram mais requintados, apareciam lá de quando em quando para um chá, uns bolinhos e música. Aquela casa de chá estava agora completa. Tinham contratado algumas empregadas, para ajudar ao negócio. Eram jovens, nervosas, que trabalhavam para pagar estudos ou ajudar a família.

   O quarteto de cordas tinha sido batizado com o nome do falecido, Achilles. Rodolfo, Cassandra, um violista que tinham descoberto recentemente, chamado Cornélio, e o velho amigo violoncelista, Sergey Petrov. Olhava agora para a irmã, totalmente imersa no que tocava, com um sorriso sereno. Agora, sim, podia dizer que havia vida a pulsar nela, uma vida que tinha esquecido os choques e as dores a que fora constantemente forçada.

   E então ouviu. Claramente, como se o tivesse encostado ao ouvido, o tiquetaquear do relógio de ouro, no bolso da irmã. E no vidro da entrada, o fantasma do irmão acenava, o fantasma de um velho amigo fitava Cassandra, e uma figura alta e escura exibia um sorriso familiar.

 

FIM

Orquestrado por Violinista às 22:25
No momento, estou: Cansada.
Música do momento: Heart-shapped Box - Nirvana
25 de Setembro de 2010

   Isabella desejava ter sido mais corajosa e mais sensata. Desejava que tudo tivesse acontecido, e não aquele dilema em que estava. Teria sido tudo tão fácil se fosse como Afonso tinha dito, como se a acção já estivesse escrita, em semelhança a uma das frases dos livros que lera para saber ser fluente em línguas. Talvez por isso, só tivesse jeito para falar em língua estrangeira como se estivesse rígida, qual estátua de pedra, e não tivesse nenhum dom para as artes e o improviso. Ao contrário da irmã, que não tinha modos de sociabilização mas com devoção pela arte, ou Achilles, que era uma autêntica borboleta social sem jeito para muito mais.

   Se tudo fosse como a receita de um bolo, que fácil seria.

   No entanto, agora estava de mãos atadas. Falara com o chefe da polícia apenas para ver, em poucos minutos, a garrafa a desaparecer e os três acusados de fogo posto. Charles, ou melhor, Cassandra, fora desmascarada. E agora que se conhecia a fraude da entrada de uma mulher no concurso, havia tentativas de boicote aos prémios e lugares, por mais que a directora insistisse na inocência de Rodolfo, no seu direito ao primeiro lugar e ao prémio, e que tinha sido sequestrado pelos terríveis irmãos. Isabella torcia o nariz à forma enjoativa que a mulher usava para choramingar pelo queridinho ao marido. Como se o quisesse para uma colecção extensa de amantes, com a aprovação do principal visado.

   E eles os quatro continuavam lá dentro, com as chamas e o Conde a correrem livremente nos mesmos corredores em que davam aqueles que poderiam ser os seus derradeiros passos.

   Cassandra não era capaz de encontrar o irmão no meio da densa coluna de fumo, e queria que tanto Afonso como Rodolfo voltassem para trás e saíssem dali. Contudo, estar a insistir com eles para o fazerem, especialmente quando sabia que a primeira a sair seria ela, conforme ditavam as regras de cavalheirismo naquela sociedade. Seria uma discussão sem pés, nem cabeça, nem fim, que só lhes ia consumir tempo necessário para encontrar o irmão. Já temia que algo lhe acontecesse, como uma intuição processada pelos seus sentidos, que resultava num aperto na garganta. Não estava segura do que ia encontrar, e começava a reviver o ardor nas têmporas, o cérebro em choque. E as más recordações vinham em catadupa, como se o trinco da porta que as prendia se tivesse partido em dois.

   Achilles tinha o revólver em riste à sua frente, e observava com um contentamento quase mórbido a figura à sua frente. E o Conde possuía um brilho tresloucado nos olhos, aumentado pelo sorriso de escárnio. Apesar disso, a mão tinha cada vez mais um pior aspecto, agora que não era mais que carne negra e sangue a apodrecer. Ignorava a dor, ou esta era parte de um plano ao qual ele era esquivo, não se deixando afectar por isso.

   – Parabéns… custaram-me uma mão.

   Podia estar-se a rir sem problema nenhum, embora um ligeiro tremor o denunciasse. Apesar de tudo, o Conde tinha um corpo humano, e como tal tinha o mesmo que todos os homens, não sendo mais do que ninguém.

   – Subvalorizei-vos. A tua irmã levou a dela avante até ao fim, e aquele idiota seguiu-a. Se não o tivesse feito, nada teria mudado. O Lobato continuaria a ser um carneirinho bem mandado, para garantir as minhas ligações com os directores de espectáculos. A tua irmãzinha teria continuado no seu buraco. Ou então, seria apenas mais um trunfo a usar. Se não fosse tão presa ao seu sentido utópico, seria uma excelente cartada.

   – Ela nunca se vai deixar usar! – Berrou, despertando mais um sorriso cínico na cara dele.

   – Tal como eu disse, subestimei-vos. Julguei que a podia travar, que podia voltar a meter tudo na linha sem estar a fazer muito. E agora, olha, paguei com uma mão, quando devia ter feito o trabalho todo sozinho e com perfeição logo desde o início. Devia ter encerrado a Cassandra num cemitério, em vez do hospício. Provavelmente, com o Lobato também. Depois do concurso, subiu-lhe o ar à cabeça.

   Começaram a ouvir passos, vindos de outra direcção e encobertos pelo sufocante cheiro a queimado do fogo que começava a chegar perto deles. Só lá estavam eles. Vieram atrás de si, em vez de saírem e fugirem do incêndio.

   – Não! Não!

   Os seus gritos sobrepunham-se às risadas do homem, completamente desvairado e extasiado com a cena. Os três chegavam ali, lívidos de terror, e reuniam-se novamente. Desta vez, para o final definitivo.

   – Ainda bem que estão todos aqui, afinal tenho de vos agradecer. Só com a vossa presença neste enredo é que consegui tomar a decisão definitiva de me alojar num país simpático, e longe deste que já não tem nada mais a oferecer-me. Estava um bocado indeciso, demasiado. Agora é chegado o tempo. Mas antes, tenho outra indecisão…

   Tinha ainda outra arma. Só um idiota, pensava, é que nunca trazia uma ou mais armas de reserva, caso a primeira falhasse. E o Conde era um homem prevenido. Só não sabia se havia de mirar o peito dela, ou o do antigo protegido. Entre ela e ele, não sabia quem mais o irritava no momento, quem mais ele desejaria, ainda assim, apagar. No fundo, desejara possui-los a todos, ser o senhor deles e tê-los entre os dedos para poder gozar de tudo o que tivessem para lhe oferecer. E, não negava, também gostava imenso se saciar prazeres da vários tipos. Então, qual deles seria aquele que mais ninguém teria, porque não lhe podia pertencer?

   O crepitar das labaredas estava cada vez mais próximo e ensurdecedor. Levantou-a em direcção ao coração pulsante como um pássaro entre a vida e o susto de Rodolfo, que foi empurrado com uma cotovelada por ela. E, quando a bala, que percorreu o seu caminho numa velocidade irreal, quando os segundos pareciam ter congelado dentro daquele espaço fraccionado em infinitas unidades, sucessivamente mais pequenas, encontrou carne, encontrava o fim da vida de Achilles.

   O Conde não viu. Desapareceu, entre as sombras e a luz vermelha do perigo.

   Cassandra agarrava o corpo do irmão, mas ele já não lhe falava. Já não lhe passava a mão pela face e pela cabeça, por cima do cabelo, nem lhe dirigia mais palavras. Os seus olhes estavam, agora, para sempre fechados, encerrando a casca vazia e sem alma, fustigada pelas lágrimas dela. E eram imensas, porque estava a reviver todo o momento. As suas mãos voltavam a ser pequenas demais para segurar a vida dentro do corpo.

   – Não! Não! Não! – Repetia ela, vezes sem conta, como uma ladainha. – Não, não, não, não, não…

   Em desespero, ainda tentou uma das suas rezas. Talvez daquela vez, as suas crenças lhe valessem, talvez houvesse mesmo ainda um traço qualquer de magia, que não vinha porque mais ninguém acreditava, mais ninguém via.

   Um par de mãos agarrou-a. Repeliu-as, sem querer saber de quem eram, nem da familiaridade que estas ainda lhe traziam, porque não eram do seu irmão Achilles, não lhe traziam o mesmo conforto que só ele lhe dava. Voltaram a agarrá-la com mais força, e a levá-la dali, em prantos, deixando um grande pedaço de si ali estendido. Famiglia. Ele dizia essa palavra muitas vezes. Ele era família, e era um tesouro valioso que agora lhe era arrancado.

 

~~~~~~~~~~~~~~~*

   Podem dizer: eu sou má.

Orquestrado por Violinista às 17:28
No momento, estou: Malvada.
Música do momento: Alice - Cocteau Twins
10 de Setembro de 2010

   Cassandra tinha ficado deitada numa das salas, porque precisava de descanso. Não era grave, não tinha bebido muito e o veneno estava longe de ter vivacidade suficiente para provocar-lhes mais estragos. Além disso, Afonso confiava nos anos de hospício que lhe deram resistência ao corpo, e tentava-se convencer disso, quando arrastava a irmã de que gostava. Isabella estava aterrorizada, com a irmã desmaiada e o irmão a correr, sozinho, por aqueles corredores vazios à procura do amigo e do assassino. Era melhor tirá-la dali.

   O seu plano, se é que podia chamar isso a uma ideia feita em três minutos e que consistia apenas em tirar Isabella dali antes que se magoasse e voltar para procurar os outros, além de não lhe parecer promissor, tinha agora uma falha enorme quando o cheiro a coisas queimadas lhe invadiu o nariz. Ela apontou para o ar, que começava a ficar pesado conforme o fumo se espalhava, vindo de outro lado. E onde havia fumo, haveria, de certeza, fogo.

   O mesmo fumo também chegou à sala vazia, que servia de arrecadação para aquilo que já não tinha uso. Talvez o cheiro, ou a eminente sensação de perigo, forçou Cassandra a franzir a cara e a acordar à força. Os olhos ardiam, tão secos que a levavam a lacrimejar. A garganta também estava seca, acompanhada por um gosto estranho e entorpecente na língua, uma sensação vagamente familiar. Tinha as lentes dos óculos embaciadas. Durante alguns minutos, não era capaz de se recordar do que tinha feito naquele dia, e como é que tinha ido parar ali desde o seu quarto. Lentamente, apesar do fumo se estar a adensar sobre a sua cabeça, começou a pensar com mais fúria, e os pedaços juntavam-se. O concurso, estar a tocar, e depois, a garrafa.

   Beber daquela garrafa tinha sido uma atitude estúpida. Onde é que ela estava com a cabeça? Não estava a agir com razão nesse momento, e talvez não estivesse a agir com razão agora que tinha acabado de acordar com a cabeça pesada.

   Havia fumo, e o cheiro a tecido e madeira queimada era cada vez mais forte. Com uma pontada de dor, apercebeu-se que tinha lá os irmãos, e aquele lugar estava a arder. Levantou-se, e voltou a sentar-se, zonza. Foram necessárias mais umas quantas tentativas, até que a estranha sala deixasse de rodar à sua volta, e algum tempo de pé, a tentar respirar, antes de dar um passo em frente. Durante esse processo, teve a sensação de estar a ser observada, que lhe provocava um formigueiro na nuca. Olhou várias vezes para trás, e não via nada, nem ninguém.

   Fora da sala, o corredor já não tinha um fim visível, tanto de um lado como do outro. De nada lhe serviriam os olhos, com óculos ou sem óculos. Teria de se guiar por outro sentido, que não fosse a visão. Julgou ouvir alguém a vir do lado esquerdo, e seguiu por esse caminho, com o coração a palpitar. Queria gritar, chamar pelos irmãos, mas a boca estava paralisada pelo medo, e muda. Sentia arrepios na espinha, e a apreensão instalara-se na boca do estômago.

   – Quem está aí?

   Era a voz de Achilles. Vinha, a empunhar um revólver, e só o baixou quando estavam muito perto um do outro, o suficiente para se conseguirem distinguir melhor no meio do fumo.

   – Baixa essa coisa, queres dar um tiro em alguém? – A sua voz estava irreconhecível, empastada. No entanto, ele já não precisava da voz para saber quem era, e apertá-la num abraço.

   – Eu bem quero dar um tiro nalgumas pessoas que o merecem. Oh, Cassandra. – Rodolfo, ao lado, olhava para trás e para o tecto, como se quisesse evitar olhar para os dois.

   – Onde está a Isabella?

   Entreolharam-se, desta vez com algum receio. Se não estava nem com um, nem com o outro, então não sabiam onde estava, ou se estava bem.

   – Eu pensava que ela estava contigo e com Afonso. Eles ficaram contigo naquela sala.

   – Achilles, eu acordei sozinha. E este lugar está a arder.

   Os três viraram-se para o lado oposto àquele para onde Cassandra tinha corrido ao seu encontro. Iriam por aí, sem saber para onde tinha a irmã e o médico ido. Não sabiam em que pensavam, ou qual o motivo. Podiam até ter sido raptados pelo Conde e fechados na sala a arder, como podiam ter ido à procura de algum deles e ficado presos entre as chamas. Chamavam por eles, e não obtinham nenhuma resposta.

   Não sabiam, mas as pessoas que antes estavam naquele edifício, tinham fugido. O incêndio começara numa das salas que guardava adereços, sem se saber bem porquê, ou se era fogo posto. Os júris tinham sido os primeiros a detectá-lo, e a mandar evacuar o local. E, se não fosse a directora, ninguém teria dado pela falta de ninguém. A mulher não via Rodolfo em lado nenhum, e já chorava, a imaginá-lo como um príncipe indefeso fechado numa sala que se assemelharia a um dos nove círculos do Inferno.

   Afonso e Isabella estavam perto da saída quando ela fincou os pés no chão e se recusou a avançar.

   – Não, Afonso, eu não vou lá para fora porque achas mais seguro. Eu pensava que estávamos à procura do meu irmão.

   – E estamos à procura deles. Mas eu quero que vás ali para fora e avises alguém do que está a acontecer. O Conde tentou assassinar a tua irmã, e Rodolfo. Tens aqui a garrafa endereçada. Não sei se é o suficiente, mas pode servir. Tens de ir lá fora e dar o alerta.

   Isabella engoliu em seco e assentiu. As mãos tremiam-lhe, quando aceitou a garrafa com restos de bebida envenenada, e fazia força para não chorar ali, à frente dele. Queria ir buscar a irmã e voltar para Londres. Não gostava daquela cidade mas, ao lado daquela onde estavam, parecia muito mais pacata. Bom, era poder regressar à terra dos avós e ficar por lá, mesmo que isso implicasse afastar-se da Casa Napolitana, e de Afonso.

   – Isabella…

   Levantou a cabeça e olhou-o nos olhos, amedrontada. Cada minuto que ali perdiam naquela indecisão, naquele impasse, podia ser fatal para algum deles.

   – Eu amo-te, Isabella.

   O beijo que lhe deu a seguir era tão doce que deixou de perceber porque tinha medo de um momento daqueles. Fora rápido, porque os segundos não paravam para esperar por eles. Soou como uma promessa de um dia melhor em que se reencontrariam, e no qual finalmente admitissem o que sentiam um pelo outro. O suficiente para olhar para ele, e encher o peito de ar, para compensar a coragem que lhe faltava. Correu para a saída, sem olhar para trás. Afonso seguiu na direcção oposta, também sem se voltar para a ver.

   Regressaria à sala para ir buscar Cassandra. Pensava que ela seria, pelo menos, não tão pesada que lhe fosse impossível carregá-la. Pelo menos, nas últimas vezes em que a tinha visto, não lhe parecera muito mais pesada que a irmã. Porém, a meio do caminho, para sua felicidade, encontrou os três.

   – Afonso! Onde está a minha irmã?

   – Está lá fora, está a salvo. Mandei-a falar com alguém da polícia, a garrafa é uma prova de…

   – Ele mantém amizade com os círculos da polícia, no máximo o que vai acontecer é desaparecerem com a prova e acusarem-nos de mentir, ou de suicídio. – Rodolfo disse, num fio de voz.

   – Esse sacana… eu… eu vou encontrá-lo, e quando o encontrar…

   Nem lhes deu hipótese de o impedir. Achilles, desapareceu por um dos corredores, apesar dos protestos deles e do fumo. Sem outra hipótese, os três seguiram-no, determinados a não ficarem de braços cruzados numa situação daquelas.

 

~~~~~~~~~~~~~~~*

   Nunca mais eu acabo esta. Daqui a nada faz um ano.

Orquestrado por Violinista às 13:08
No momento, estou: Lalalalalala.
Música do momento: The Unholy Trilogy - Epica em Miskolc
16 de Agosto de 2010

   – Cassandra!

   Isabella precipitava-se sobre a irmã, de rosto subitamente contorcido num esgar de medo, transformado a meio do caminho que os separava dela. Afonso tinha-se aproximado também, com um pulo, tomando-lhe o pulso. Como médico de clínica reconheceu os primeiros sinais de envenenamento, e um ligeiro odor a amêndoas amargas denunciou o responsável pelo estado dela.

   – Meu Deus, é cianeto.

   – Devia estar na garrafa, ela estava a beber… e… – Rodolfo estava visivelmente atrapalhado, e apontava para a garrafa caída a pouca distância das mãos dela.

   – Não sei se ela terá sorte, é pouco provável… é um veneno muito tóxico…

   Face a esta frase, as caras dos irmãos e de Rodolfo empalideceram. Isabella ficou sem forças, de tal forma que nem era capaz de falar, limitando-se a cair de joelhos e a deixar que as lágrimas encontrassem por si próprias o caminho no rosto. Achilles também já não tinha fala. Como se fosse pela primeira vez na vida, o coração dava um salto irreal e perguntava-se porque é que não tinha tido mais tempo para estar com ela, enquanto podia aproveitar. O que eram umas quantas dívidas, face ao corpo dela a fraquejar com o fim que se anunciava? Afonso fazia o que podia por ela. No entanto, aquilo funcionara como uma faca a deslizar-lhes nas costas, pelo choque de não terem sequer pensado que alguma vez era possível aquilo acontecer. Fazia sentido. Alguém descobrira que ela não era um rapaz inglês distinto, ou quisera sabotar a concorrência. Como é que não tinham pensado naquilo?

   Mas o amigo não aguentou mais aquilo. A garrafa não estava ali por mero acaso, nem o papel com o seu nome. Guardou-o antes de o verem e limitou-se a sair de lá sem dizer nada. Deixava tudo para trás e saía a correr, sem se importar sequer com a votação que decorria a duas salas de distância e que decidiria os resultados a serem anunciados no dia seguinte.

   Atrás do palco, vira o rosto dela a iluminar-se levemente enquanto a música se elevava como um espírito gigantesco na sala. Durante aqueles minutos, chegara a acreditar que estava tudo bem. Cassandra parecia pacificada por dentro, em paz com os seus demónios. Tinha pensado em convidá-la para o quarteto, e ensaiado a pergunta em frente a um espelho vezes e vezes sem conta. Esperava poder convidá-la assim que saíssem os resultados, sem se importar se ela ficava entre os primeiros ou no último lugar possível. E agora, nada disso lhe era possível.

   Rezava para que houvesse uma hipótese de vida para Cassandra. Ela merecia viver.

   – Onde vais com tanta pressa, Lobato?

   Uma figura alta e sombria aparecia ao seu lado, no caminho, e cortou-lhe a passagem. Rodolfo viu-se preso, à frente do Conde, e percebeu de onde tinha vindo o presente envenenado. Era, mais uma vez, obra dele. Um aviso do Conde para lhe dizer que ainda continuava a puxar os fios deles e a manietá-los. E a raiva irrompeu-lhe por dentro, quando se debatia para se libertar, com um riso frio a ecoar-lhe nos ouvidos.

   – Ela não vai morrer. Era uma dose pequena demais, e fora de validade. O suficiente para provocar um desmaio ligeiro, e destinada a ti, para te levar daqui. Precisamos de ter uma boa conversa. Não sei se considere azar ou sorte a tua amiguinha ter tragado uns golinhos do presentinho. Quanto mais depressa tivermos esta conversa, melhor será para todos.

   – O que queres? O que pretendes com este jogo todo? – O violinista cuspiu-lhe na cara, com os óculos a escorregarem-lhe pela cana do nariz e tortos. Aquela imagem dava ao outro uma imensa vontade de rir, por se sentir com poder suficiente para continuar a controlá-los.

   – Não me interessava matar Cassandra. No fundo, ela tinha potencial até para vir ocupar o teu lugar. Também não me interessam as finanças do irmão. Os D’Addario não têm absolutamente nada para me dar em troca. Isto é tudo para que tu pagues o que me deves, e deves-me o que eu te entreguei. A tua vida. E contava aliciar a tua amiga, mas vendo por este ponto, ela não vai aceitar a minha proposta. Por isso, apesar de ser um trabalho sujo, eu quero-o bem feito, e terei de vos eliminar.

   Então, era assim que tudo terminava. Ao ver o vulto do revólver a emergir das roupas, não teve a menor dúvida do que lhe iria acontecer. Estava já longe demais para poder pedir ajuda ou para que alguém o ouvisse. Seria abatido ali por quem o tinha financiado e aproveitado todo o lucro que lhe pudera dar.

   Rodolfo não se arrependia de nada do que tinha feito. Não se arrependia de ter encontrado Cassandra, de a ter ajudado e de ter tido um vínculo mais especial com ela. Nem se arrependia de ter começado a ser independente, e de ter sentido a realidade para lá das garras do Conde. Mesmo que por pouco tempo. Fechando os olhos, sentiu apenas pena por não ter confortado Cassandra, nem a ter conseguido tirar de todo o esquema do homem à sua frente. Esperava o choque da bala, e se isso lhe permitisse salvar alguém ou alguma coisa no mundo, então já teria valido a pena.

   Ouviu o estampido seco da pólvora, mas nenhum projéctil em brasa lhe chegou ao peito. Abriu os olhos, e deparou-se com o Conde a agarrar a mão direita, estraçalhada. Onde antes havia uma palma lisa e dedos, restava apenas carne disforme e ensanguentada. E, a alguns metros deles, Achilles segurava um outro revólver, ainda fumegante.

   – Da próxima vez, Rodolfo, agradeço-te que não saias a correr disparado para lado nenhum. Não com esta simpatia de pessoa à solta.

   O Conde não esperou que lhe surgisse uma oportunidade mais propícia, e desapareceu nas sombras. Achilles tinha a intenção de o seguir, mas o amigo impediu-o, a abanar a cabeça em sinal de negação. Não valia a pena. Tal como não o conseguiam desmascarar e tirar da sua posição extremamente confortável, também lhes seria árduo matarem-no, e se o conseguissem, vir-se-iam a braços com um processo que os encerraria na cadeia até ao resto das suas vidas.

   – O veneno não era suficiente…

   – Nós sabemos disso. Afonso conseguiu descobrir isso pouco tempo depois, e deixou-a numa das salas.

   Algo semelhante a um cubo de gelo desceu-lhe até ao estômago.

   – Deixaram-na sozinha?

   Achilles ficou paralisado por alguns segundos, com os olhos abertos e fixos na escuridão do corredor à sua frente. Aquele edifício era grande, e tinha imensos corredores que se cruzavam, e ligavam todas as salas. Era como um labirinto intrincado, inundado de sombras pela noite. Nem as paredes, brancas, os quadros com paisagens suaves e os cortinados verdes e claros lhes ofereciam segurança.

   – Oh, não…

   De algum lugar distante, vinha fumo e um aroma pungente a coisas queimadas. Um choque percorreu-lhes o corpo quando se aperceberam que alguma parte do edifício estava a arder.

 

~~~~~~~~~~~~~~~*

   Olá fatalismo! E asseguro desde já que alguém vai morrer. E não é o Conde.

Orquestrado por Violinista às 00:12
No momento, estou: Ahmmmmmmmmm...
Música do momento: Marche Funebre - Chopin
07 de Agosto de 2010

   O concurso realizava-se no anfiteatro, onde um burburinho excitado percorria as bancadas. O público já tinha visto alguns dos participantes, e agora dividiam-se em opiniões e no gosto por este ou aquele. Mais à frente, os directores e o júri perscrutavam o palco iluminado apenas pelas velas, em silêncio. Ou melhor, além da directora que ainda se conseguia manifestar de uma forma ou de outra, sem abrir a boca, e mostrar as suas preferências, era impossível saber o que corria na cabeça dos outros todos, sentados direitinhos como postes.

   Já tinham lá entrado alguns francamente excelentes, outros mais mauzinhos, e a maioria andava na média do bom e agradável. Aguardavam agora o próximo. O nome que se seguia na lista era Charles Faust.

   Em passos leves, uma figura baixa anunciou-se à frente de tanta gente, sem evitar um arrepio que, felizmente, passou despercebido. Algures nas bancadas de cima estavam os irmãos e Afonso, prontos a transmitir-lhe algum apoio que se dissiparia no ar frio e na distância que os separava. No entanto, eram aqueles ouvintes lá do fundo que mereciam ser agraciados com o que tocaria, e era esse propósito que tentaria alcançar. Depois de ouvir os outros do lado de trás do palco, percebera que poderia não ser a pior, mas perdia a esperança de figurar entre os primeiros. Assim, restava-lhe contentar-se com um bom trabalho para quem lá estava a assistir, porque menos do que o seu melhor não mereciam.

   Ao menos começava com a música de carácter mais alegre. Fora uma boa opção deixar Mozart no início. Se a empreitada lhe corresse mal, sempre podia compensar a tristeza no Vivaldi que tinha a seguir. Se terminasse bem, nem tudo estaria perdido.

   O Conde vigiava-a também do fundo. Conseguia distinguir, no burburinho, quem se questionasse se aquela cara não era familiar. Claro, era a cara de Cassandra. E ele, com atenção, era capaz de ver, mesmo debaixo de todo o artifício para a mascarar de homem, quem ela era na realidade. Era necessário saber do que se estava à procura para se encontrar o que se pretendia.

   Uma pena. Cassandra não era, de todo, feia. E conseguia perceber perfeitamente o que é que nela havia que tanto atraía o seu protegido. Eram os reflexos misteriosos que os seus olhos dourados tinham, aliados a um cabelo tempestuoso, era o seu conhecimento e o valor que trazia por dentro. Não tinha nada em comum com as mulheres que se viam em Lisboa, que tanto investiam em pó de arroz, penteados e perfumes, e por dentro esvaziavam-se até de valores. Aquilo que Cassandra era, impedia-a de alguma vez aceitar submeter-se a ele. Ainda assim, não era ela a destinatária da bela garrafa que deixara nos bastidores, apesar de desconfiar que a sua acção não seria do agrado dela. Mais uma vez, era uma pena, porque a música que dela crescia era tão sincera que lhe dava vontade de estender a mão e, por um artifício desconhecido, aprisioná-la só para si.

   Quando saiu do palco, mais leve após tudo o que tinha extraído de si, com uma vénia suave, não ouvia mais as vozes das pessoas nem outro som. E à sua frente estava Rodolfo, encostado à parede à espera. Também não o ouviu, nem reparou no aceno de cabeça que ele lhe fez. Logo ele era chamado ao palco, e era a vez dela ficar encostada, a suster a respiração para o ouvir.

   Lobato não era só dos melhores. Era ousado. E tal como ele já contava, conseguia até chamar as lágrimas aos cantos dos olhos dos membros do júri, investindo numa peça nova de um compositor contemporâneo. Era certo o que lhe diziam, no século XIX poucos eram os que investiam em compositores ainda vivos, mesmo quando estes tinham trabalhos óptimos. Quem lhes reconhecesse o valor e investisse nisso, dando o seu cunho especial à peça, conseguia resultados surpreendentes. E após aquela execução, tinha-os no papo. Sorriu, o que fez com que a directora se derretesse toda no seu lugar, com suspiros longos e de tal forma exagerados que já todos a olhavam de lado.

   Cassandra tinha escorregado pela parede abaixo, estranhamente sem lhe sair uma única lágrima.

   – Lamento, meu bom amigo. Eu fiz o que podia para ter aquele relógio. Eu não desisti… mas o caminho acabou aqui.

   Os seus olhos acabaram por pousar na garrafa de vinho ao seu lado. Era um vinho do Porto de aspecto bastante caro e, se a imagem da garrafa correspondesse à sua idade, bastante velho e valioso. Tinha fortes probabilidades de ser um requinte para as papilas gustativas. Não lhe resistiu, e uma vez que não estava ali ninguém, tirou o selo de lacre e a rolha. Não deu importância ao bilhete, que dizia que a garrafa era um presente para Rodolfo. Ele já tinha, decerto, muitos presentes, já que tinha o primeiro lugar mais que garantido. Levou o gargalo à boca, e sorveu o líquido fresco. Bastava um bocado para que um calor reconfortante lhe chegasse até à ponta dos dedos.

   – Charles?

   Rodolfo já tinha voltado, e estava à sua frente. Não tinha vontade nenhuma de o ver, muito menos de lhe falar.

   – Bom trabalho. Acho que nos saímos bem, não? Pelo menos, melhores que muitos que por aí apareceram.

   – Ah. – Estava sem vontade. E aquele vinho estava a entorpecê-la ainda mais do que o normal. Também tinha largas bagas de suor a escorrerem-lhe na testa, apesar do frio que ali estava.

   – Passa-se alguma coisa? Não estás com boa cara.

   – Sinceramente? Deixe-me em paz. Tem o seu prémio, não tem? Então aproveite-o, e não perca mais o seu tempo com a minha pessoa, que de certeza tem coisas mais importantes a tratar.

   Estava a começar a perder o controlo das pernas. Estas tremiam-lhe e não estavam a obedecer à simples ordem de lhe susterem o corpo. Conseguia sentir, porém, o efeito das suas palavras no outro. Aquilo, pensou ela, devia ser raiva. Ou qualquer coisa parecida.

   – Estás parva? Depois deste tempo, eu já estou envolvido. Nunca te perguntaste se eu não sabia de quem era o relógio, e o valor que ele representa? Posso não saber tudo, mas não sou burro. Faço uma ligeira ideia do que possas já ter passado, pelo pouco que me conta Isabella.

   No entanto, Cassandra já não o estava a ouvir. As forças falharam-lhe, e a garrafa soltou-se dos seus dedos dormentes, no mesmo instante em que a irmã e Afonso desciam ao lugar para a felicitar. Mais uma vez, perdia os sentidos à frente deles, sem os ouvir a chamar. Mas, desta vez, havia um gosto ardente na boca que lhe parecia o fogo do inferno.

Orquestrado por Violinista às 18:36
No momento, estou: Detestável.
Música do momento: Sentinel - Mike Oldfield

Violinista, C. S. L. Stradivaria. 19. Nº 5. Nº 13. Pseudo Violinista. Estudante. Nerd. Chapeleira. Vitoriana. Dandy Lolita. Incerta. Inconstante. Sonhadora. Inteligente. Invisível. Tímida. Imprevisível. Intelectual. Estranha. Deprimida. Lacrimosa. Egoísta. Respondona. Obcecada. Cínica. Anti-social. Teimosa. Orgulhosa. Calada. Perfeccionista. Louca. Baixinha. Ridícula. Original. Solilóquio em Celulóide. Violino. Música. Letras. Notas. Pautas. Relógios de Bolso. Cartolas. Magia. Paranormal. Roxo. Vermelho. Raposa. Coruja. Melro, Corvo e Pêga. Cisne. Pássaro de Fogo. Chocolate. Chuva. Quinta Dimensão. Submarino Amarelo. Petrushka. Viajante do Tempo. Extraterrestre. Fantasma.
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