As chamas estavam agora extintas, mas tinham deixado marcas da sua pesada violência sobre o edifício, assim como o fumo ainda teimava em existir, como traços leves de carvão numa imagem a escurecer. A multidão à sua frente gritava, entre a histeria e a cólera. A maioria era o público, que antes estivera na plateia, e agora já discutia histórias rocambolescas sobre o incêndio, em que cada um deles era uma vítima, um alvo a abater, por serem o início de um escândalo qualquer. Todos se achavam uns injustiçados, uns desprotegidos, que tinham escapado à morte agonizante e não eram mais que uns mártires daquela sociedade que não olhava pelos seus.
Mas mais enraivecidos que a plateia estavam os participantes do concurso, por causa dos resultados que ainda não tinham sido divulgados e, principalmente, por causa da verdade descoberta. Uma mulher entre os participantes. Isso era mais que um problema, era quase um ultraje. Uns queriam repetir tudo novamente, outros queriam apenas deixá-la de lado e serem eles os vencedores, ou ter direito a, pelo menos, alguma indemnização pelo incómodo.
Estavam todos alheios à pessoa em questão. Cassandra, sentada e afastada do resto do mundo, já não chorava. Apenas olhava a direito o espaço vazio que tinha à sua frente, sem ouvir ninguém. Fora para ali arrastada por Rodolfo, e ali se deixou ficar, como uma boneca de trapos caída.
Teria dado tudo para ainda ter o irmão ali. Para não lhe ter visto o sangue escorrer do corpo e a alma a esvair-se no fumo denso do fogo. Para não ter ouvido o grito e o choro de Isabella quando Afonso lhe contou, nem quando ela se agarrou ao peito dele a esmurrá-lo. Essas imagens e sons entravam-lhe na cabeça e fragmentavam-se, lentas de súbito. Misturavam-se com as outras, tornavam-se intermináveis, vezes e vezes e vezes sem conta. Não queria saber do Conde, do incêndio. Nem do prémio. O que importava tudo isso, quando lhe tinham tirado um irmão? Sangue do seu sangue, carne da sua carne. Era família.
– Cassandra.
Só ouviu quando ele lhe pousou a mão no ombro. O rosto, antes com um aspecto jovial, estava coberto de negro, com os óculos sujos e olhos ainda brilhantes atrás deles. Não sabia dizer se tinha estado a chorar ou não. Ela tinha. Os sulcos das lágrimas estavam marcados na face, longos traços entre as cinzas e a pele seca. Queria afastá-lo, torná-lo numa mera lembrança, distante no tempo, ou nunca o ter conhecido sequer. Mas agora não podia, e Rodolfo Lobato era demasiado real, a puxar-lhe o braço para se levantar. Lá, distantes, os júris já tinham decidido o que fazer em relação aos vencedores do concurso.
Que importava? Tinham-na descartado de imediato.
– O vencedor da categoria Violino é Rodolfo Lobato. Por favor... oh, o prémio. – A directora estava afogueada, contudo, nem mesmo assim dispensou o sorriso meloso quando se voltou para ele e entregou aquilo a que tinha direito, apesar dos protestos. Entre tudo, o relógio, reflectindo tudo e todos no seu brilho dourado e fosco.
O sorriso resvalou pela cara gorda abaixo quando ele segurou Cassandra com um braço, e com a outra mão lhe enfiou o relógio nas mãos, afastando-se dali sem uma palavra.
Aquele relógio já segurava as vidas de duas pessoas, talvez de mais, que tivesse sugado ao longo da sua existência. Com elas, tornava-se frio de pesado nas suas mãos dormentes. Parecia que tinha um preço alto, que lho estava a cobrar aos poucos e poucos. Cassandra sentia-se fraca. Por ela, tinha chegado ao fim da linha.
– O relógio é seu. Porquê? – Falava num fio de voz, irreconhecível.
– Não. O relógio é teu. Eu conheci-o. Não tanto, ou tão bem quanto o teu irmão, mas conheci-o, e sei o quanto esse relógio tem para ti. Achilles era mais que um amigo, era uma pessoa excepcional. Conhecem-se poucas pessoas assim. Era capaz de resolver qualquer problema, ser um bom aliado e mover-se em qualquer círculo social. E via. Via o que havia de melhor nas pessoas, redimia os nossos erros. Foi ele que me redimiu depois de ter sido manietado pelo Conde. E agora...
– Não, por favor, cale-se... e leve o relógio. Já foi capaz de me tirar tudo. Não sei se acredita em magia, mas eu acredito que esta maldiça peça de ouro matou o meu amigo, e o meu irmão. E tirou-me a música. E tirou mais e mais, até não restar mais nada...
Antes de terminar a frase, recebeu uma estalada na cara. O suficiente para lhe arregalar os olhos, e abrir os ouvidos ainda mais, quando aquelas palavras a feriam por dentro e por fora.
– Só te tiram aquilo que deixas tirar. Eu não sei o que tens na cabeça, além desse perfeccionismo doentio, mas o teu irmão não te quereria assim. Ele ficou até ao final para te voltar a ver um dia, como tu eras. A Cassandra. Com o violino. A viver.
Apertou o objecto metálico e frio nas suas mãos, e este já não lhe parecia tão frio quanto antes. Mas estava longe de estar quente. Talvez fosse ela a ficar cada vez mais gélida, até ser pouco mais que uma estátua de gelo.
– O meu violino?
– Está guardado. Vem. Tenho uma proposta.
Os meses passaram-se. Já não havia memória do Conde. Não havia corpo queimado entre as cinzas, ao contrário de Achilles D'Addario, cujo funeral fora invulgarmente grande. Muitos eram aqueles que guardavam memórias dele, fossem respeitosas ou, pelo contrário, de festanças, bebedeiras e coisas tão banais como uma aposta que ninguém ganhara. Tudo indicava que o Conde tivesse fugido com a fortuna que tinha para algum país como o Brasil, e apagado as suas pegadas.
A mansão de Achilles fora vendida pelas irmãs, e comprada por Afonso como proposta de casamento, o que gerou uma discussão tremenda. Terminou no altar, altura em que Isabella não se atreveu a lançar mais olhares provocadores ou irados. E, mesmo assim, o padre encolhia-se de medo de cada vez que se voltava para ela.
A Casa Napolitana continuou aberta. Isabella reservou um pequeno cantinho atrás do balcão para o irmão, com uma fotografia a preto e branco para a qual olhava. Os seus velhos amigos, os que eram mais requintados, apareciam lá de quando em quando para um chá, uns bolinhos e música. Aquela casa de chá estava agora completa. Tinham contratado algumas empregadas, para ajudar ao negócio. Eram jovens, nervosas, que trabalhavam para pagar estudos ou ajudar a família.
O quarteto de cordas tinha sido batizado com o nome do falecido, Achilles. Rodolfo, Cassandra, um violista que tinham descoberto recentemente, chamado Cornélio, e o velho amigo violoncelista, Sergey Petrov. Olhava agora para a irmã, totalmente imersa no que tocava, com um sorriso sereno. Agora, sim, podia dizer que havia vida a pulsar nela, uma vida que tinha esquecido os choques e as dores a que fora constantemente forçada.
E então ouviu. Claramente, como se o tivesse encostado ao ouvido, o tiquetaquear do relógio de ouro, no bolso da irmã. E no vidro da entrada, o fantasma do irmão acenava, o fantasma de um velho amigo fitava Cassandra, e uma figura alta e escura exibia um sorriso familiar.
FIM



