Fantasma da Orquestra
Aquela figura negra que se senta no fundo da orquestra, o violino que se ouve ao longe na noite de espectáculo. Os bastidores da alma e do concerto que se leva nos ouvidos já bem depois de ter sido tocado. E treze fogos fátuos em cima da corda Lá.
20 de Abril de 2012

   Por favor, se alguém conseguir pensar numa coisa pior que ficar sem arco num ensaio da orquestra e ainda por cima num dia em que termino por aterrar lá à frente, aterrada, escreva isso num papel e depois queime-o que eu não quero saber disso. Seja como for, ainda devo de encontrar algo pior que isso, algum dia.

 

   Para já, fico-me a choramingar que não quero ir para o lugar de concertino e aquela gente hoje conspirou contra a minha pobre pessoa.

Orquestrado por Violinista às 23:54
No momento, estou: Perdi a paciência para
Música do momento: preencher estas coisas. Estou a ouvir clássica. Ponto.
19 de Abril de 2012

   Quando vou tocar para o museu de arte sacra e acabo, sabe-se lá como, a tocar na presença do padre que me baptizou, fez a primeira comunhão, acompanhou-me na catequese e gostava de me pôr a ler, porque pelos vistos tinha jeito e voz para ler passagens da Bíblia e sermões. Detalhe: já há cinco ou seis anos que não ponho os pés numa igreja, a não ser para tocar, e já há nove anos que não pratico catolicismo nem nada que pareça.

   Mas não me preocupo muito. Quando morrer, morri e desintegrei-me na natureza. Se houver inferno, não pode ser pior que isto.

 

   Encontro toda a espécie de pessoas, mesmo quem eu não quero encontrar. Em alturas que não quero encontrar. Jutem a isso o dom de saber informações sem querer e quando menos quero. Se calhar podia trabalhar para uma agência de espionagem.

 

   Também tenho andado muito saída da casca. Bom, pelo menos se neste ano der merda para o final, e já estou a prever, porque matricular para o curso complementar de música é o que se vê, a prova é melhor nem falar nela, já sei que a culpa é definitivamente minha. Ao menos desta tenho a fama e o proveito. Não que eu goste. Mas já estou farta de andar apoquentada anos a fio e no final ainda as levar porque sou introvertida e não falo com ninguém. O amigo que eu quero não quer ser meu amigo. Com os outros, já disse, não confio em humanos.

Orquestrado por Violinista às 22:50
No momento, estou: Hoje fiz merda
Música do momento: Concerto para piano nº1 - Tchaikovsky
Palavras soltas: ,
29 de Março de 2012

   Acho que mais me vale agora parar com esta ideia de Workshops. Tenho azar crónico.

 

   Desculpem, dão-me o lugar que me deram e agora esperam que eu não esteja a sentir-me mal, ou pior, que toco mal, ou pior ainda, que sinta que fui usada? Esperam ainda que eu peça desculpas por estar assim? Prontos, eu sou má e não aceito nada disso, além de que depois disto eu não vou voltar a ter mais confiança. Aliás, eu não devia ter acreditado naquele discurso todo, parecia bom demais. Se foi uma lição para o futuro? Então não foi? Aprendi que simplesmente não vou ter direito a nada de muito bom, que tenho que aprender o que é a desilusão e que não devo ter mais confiança em ninguém.

 

   Só era bom numa coisa, ao menos estava fora de casa, longe deste inferno de merda.

 

   Mal me aguento para acabar esta treta de férias e voltar ao meu lugar habitual e adorado. Apenas.

Orquestrado por Violinista às 21:22
No momento, estou: Cansada
Música do momento: Clocks - Coldplay
Palavras soltas: , , ,
27 de Março de 2012

   Aquilo de há dias... conto-vos, deve ter sido o Prozac a falar.

 

   Porque hoje, depois de uma desilusão que quase me atirou para o chão, e de mais conversa que se calhar eu devia ter evitado, voltei a achar-me o maior traste que existe na cidade mais merdosa do país mais miserável do universo.

 

   Era suposto eu vir aqui fazer um post em que falava que me fartava das tais ditas actividades de orquestra que prometiam que as minhas férias fossem melhores. Não. Era suposto eu ser uma boa pessoa e ainda assim vir aqui falar que ri, e passei uma tarde fora de casa a tocar. Não sou capaz. As pessoas até agora têm-me visto com a imagem de rapariga boa, paciente, acertada, altruísta. Não sou. Portanto, eu fiquei como se tivesse levado porrada até descer... como chefe de naipe dos segundos violinos, quando as colegas melhorzinhas e com quem mais falava estão nos primeiros e eu estou limitada a aturar crianças. Abomino o lugar, abomino a parte de segundos daquelas músicas, abomino ter de estar a fazer harmonização em vez da melodia, detesto crianças. Eu não tenho capacidade de líder, nem capacidade pedagógica. Pelo amor do Karma, eu odeio crianças, eu não consigo dar-me com crianças, a não ser sendo tão falsa quanto uma boneca de plástico.

 

   Porquê? Porquê? O que é que eu fiz de mal para estar agora a levar com este mau karma todo? Bolas, eu já estou condenada a só sair deste buraco do mundo para Lisboa com muita sorte, porque não há como os meus pais me pagarem o curso, eu sei que muito provavelmente numa orquestra a sério não saio do último lugar dos segundos violinos, custava muito manter-me no lugar que eu já habitualmente ganhei? Ou vou ser despromovida muito em breve? Eu já não percebo nada, a única coisa que tenho feito é andar pela vontade, que até hoje me tem movido em frente. As coisas difíceis, por mais que eu choramingue, levam-me para a frente. A mal ou a bem, vou para a frente. Mas aquilo? Só me manda para trás, e cada vez mais para trás. Não sou capaz de ver o lado positivo disto. Não há lado positivo nisto.

 

   Lá está aquilo que receava sempre antes de uma coisa ainda melhor acontecer, o receio de cair. As quedas, aliadas à minha cabeça já nada segura, são catastróficas. Pensam que eu vejo isto com a mesma cabeça que eles, da mesma forma. Não. Eu vejo isto distorcido. Não devia, diz o psicólogo, não devia. Mas a verdade é que vejo. Não adianta nada todas as tentativas e pseudo-tentativas de tentar andar alegre com alguma coisa, mais dia menos dia gasta-se, evapora-se, regresso á realidade de pessoa mal amada e deslocada.

 

   A verdade é que agora tenho frustração. A verdade é que eu mais me valia ter ficado calada na minha. Não volto a falar com ninguém assim. A verdade é que volto para casa com a sensação que mais me valia ter ficado em casa a estudar do para lá ter ido.

 

   A verdade é que vou e vou calada.

Orquestrado por Violinista às 19:46
No momento, estou: Não quero falar com ninguém
Música do momento: Cantabile - Paganini
10 de Fevereiro de 2012

   ~ Vamos tocar a Passacaglia mais vezes do que as outras. Lixei o dedo e acho que ainda vou ganhar aversão ao raio da peça. Quando no final nos disse que íamos ver a Passacaglia mais uma vez, em vez das que não tocámos, ou das outras, estive para chorar.

 

   ~ Corda Ré PI usada sei lá eu quanto tempo. Durou duas semanas. Bolas, pá, porque é que não nasci com conservador de cordas nos dedos? Ou mais financiamento para as comprar.

 

   ~ Ontem não tive aula, tive prova. Acho que passei, mas fui um desastre. Tremia tanto que me era difícil escrever. Ainda pensei que me dissesse alguma coisa, iludi-me completamente. Passa por mim e não me liga peva. E hoje, peva foi o que me ligou. Sou um fantasma. Bonito.

 

   ~ Odeio quando me dizem uma coisa, que eu achava que estava a fazer bem, me explicam aquilo de uma maneira que eu não percebo, passo uma semana a tentar mudar, para chegar lá e afinal fazia bem à primeira vez e não era daquela forma. Porra pá, odeio passar por estúpida duas vezes. Ainda por cima, nem o do lado percebeu bem e foi escrever o mesmo erro nas minhas folhas.

 

   ~ Uma certa pessoa resolveu partilhar um vídeo que me dá arrepios de pavor. Ele acha-lhe muita graça. Todos lhe acham muita graça. Eu só sei que desde então não acho que vá conseguir ficar fechada numa sala com ele e sozinha. Marquês Machiavel de Sade.

 

   ~ Quem é que quer ser meu namorado no dia 14 de Fevereiro, para comer chocolates comigo, ouvir-me a tocar e dizer-me que eu sou muito bonita e toco maravilhosamente bem (ou seja, eu procuro um guloso que seja pacato e saiba mentir com todos os dentes que tem na boca)? Por favor. Eu até vos pago. Só precisam de passar um dia comigo, dar uns abracitos de quando em quando, comer chocolate comigo (claro que são do vosso bolso), e mentirem para que eu fique contente por um dia? Vá lá. Não custa. Pelo amor de Deus, alguém faça isso.

 

   ~ Porque, como é que eu vos explico, eu gosto muito de uma pessoa que me odeia, gosta de outra e que é mázinha como as cobras, e queria não ter de pensar nisso durante o pior dia do ano, coisa que é uma tarefa muito árdua.

 

   ~ Não sei se rio, se choro.

 

   ~ Ia ficando sem arco.

 

   ~ Porra, fiquei sem uma aula de violino, no me gusta.

Orquestrado por Violinista às 23:34
No momento, estou: Sei lá, sei lá
Música do momento: At the craddle - Grieg

Violinista, C. S. L. Stradivaria. 19. Nº 5. Nº 13. Pseudo Violinista. Estudante. Nerd. Chapeleira. Vitoriana. Dandy Lolita. Incerta. Inconstante. Sonhadora. Inteligente. Invisível. Tímida. Imprevisível. Intelectual. Estranha. Deprimida. Lacrimosa. Egoísta. Respondona. Obcecada. Cínica. Anti-social. Teimosa. Orgulhosa. Calada. Perfeccionista. Louca. Baixinha. Ridícula. Original. Solilóquio em Celulóide. Violino. Música. Letras. Notas. Pautas. Relógios de Bolso. Cartolas. Magia. Paranormal. Roxo. Vermelho. Raposa. Coruja. Melro, Corvo e Pêga. Cisne. Pássaro de Fogo. Chocolate. Chuva. Quinta Dimensão. Submarino Amarelo. Petrushka. Viajante do Tempo. Extraterrestre. Fantasma.
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