Fantasma da Orquestra
Aquela figura negra que se senta no fundo da orquestra, o violino que se ouve ao longe na noite de espectáculo. Os bastidores da alma e do concerto que se leva nos ouvidos já bem depois de ter sido tocado. E treze fogos fátuos em cima da corda Lá.
10 de Abril de 2012

   Há notícias que nos dão um murro no estômago. Uma chapada na cara, arrancam-nos gradualmente as entranhas quando nos apercebemos que não éramos tão alheios à situação quanto se mostrava. A morte de uma pessoa. Uma pessoa que até era próxima. Isso põe um vidro entre o presente e o passado, e agora só podes olhar o teu tempo passado com essa pessoa com as mãos e a cara encostadas ao vidro, sem o transpôr. De repente, tenho medo, um medo insano. Não sabia que o tinha porque nunca tinha pensado nele a sério. Perder um conhecido para a morte.

 

   A Associação foi a minha primeira casa, o meu primeiro passo. A tímida rapariga de franja vermelha entrava lá porque as aulas de violino eram mais baratas, falara com aquela senhora, fizera a inscrição, esperava pelo professor. A rapariga passou a frequentar aquele edifício tosco, de cartaz gasto do sol, as paredes descascadas, as salas simples, com defeitos, com o aquecedor quase sempre ligado, as cadeiras para nós, as cadeiras para os violinos, o teclado. Aquele mundo. A senhora sorria. Sorria sempre, ou quase sempre. Também a ouvia reclamar, falar de outra forma, como outra pessoa qualquer comum, viva, humana. Foi sempre simpática comigo, e não era só por eu lhe despachar dinheiro para as mãos por mais um mês de aulas de violino. Lembro-me de a ouvir cantar. Lembro-me daquele concerto que dei, eu como solista de violino, e eles num grupo vocal. Com essa imagem feminina prendem-se memórias minhas, de sonhos, esperanças. De um início de eu com o violino, de um início de um eu que começava agora a levantar. Não me viu ir embora quando fui, quando percebi que se calhar estava na hora de ir para buscar algo mais. Tinha recibos de meia dúzia de meses que paguei e não tinha tido oportunidade de ir buscar os papéis. Parece-me que agora não os vou mesmo ter. Foram-se. Foi-se.

 

   Morreu na quinta. Eu, que estou afastada agora daquele espaço, sou apanhada de surpresa. Soube por ele, que gostou das publicações do professor que estava com a senhora, professor que eu conheço, às vezes falava (o como eu sou uma stalker de primeira água, as actualizações dele, mesmo as mais mínimas e idiotas, aparecem-me na dashboard). Soube tarde. Quero deixar uma mensagem de apoio lá, mas como? O professor não me conhece no Facebook, e eu também faço o favor de não ter nome de gente lá. Não somos tão próximos quanto isso. Tenho medo de soar mal. Deixo, ou não deixo? Escrevo, ou não escrevo? Por favor ajudem-me. Porque apesar de ter deixado a Associação, eu não me desliguei de todo destas pessoas.

 

   Eu costumo inventar histórias na minha cabeça. Histórias em que uma ex-amiga, uma inimiga ou uma estúpida qualquer chegava àquela Associação para se apoderar de algo musicalmente mágico. E matava as pessoas. Matava a senhora que sorria e que era a grande cabeça do lugar. Matava o professor. Matava o professor de violino. Matava-me. Eu regressava como fantasma, para ajudar a pessoa que restava a restaurar a paz naquele lugar. Todos voltavam. Todos voltavam vivos. Não sei qual é a inimiga. Talvez tenha que esperar até morrer, para descobrir isso, e ajudar todos a voltar. É uma fantasia. Um dia morrerei, sim, mas depois de morta não serei mais fantasma do que sou agora.

 

   A morte da senhora abriu a porta para o meu maior receio. A morte de conhecidos. A morte de amigos. Não suportarei se algum amigo se for para o outro lado e eu ficaar só com o passado envidraçado, estático.

 

   À senhora Maria João. Que encontre paz na alma. Que se torne una de novo com a natureza, respire o mais puro dos ares, seja a mais pura das terras. E um dia, talvez, nos voltemos a encontrar.

Orquestrado por Violinista às 20:31
No momento, estou: Tenho das mais duras dores.
Música do momento: Marcha Fúnebre de Chopin, Adagio de Albinoni, uma dessas
27 de Março de 2012

   Aquilo de há dias... conto-vos, deve ter sido o Prozac a falar.

 

   Porque hoje, depois de uma desilusão que quase me atirou para o chão, e de mais conversa que se calhar eu devia ter evitado, voltei a achar-me o maior traste que existe na cidade mais merdosa do país mais miserável do universo.

 

   Era suposto eu vir aqui fazer um post em que falava que me fartava das tais ditas actividades de orquestra que prometiam que as minhas férias fossem melhores. Não. Era suposto eu ser uma boa pessoa e ainda assim vir aqui falar que ri, e passei uma tarde fora de casa a tocar. Não sou capaz. As pessoas até agora têm-me visto com a imagem de rapariga boa, paciente, acertada, altruísta. Não sou. Portanto, eu fiquei como se tivesse levado porrada até descer... como chefe de naipe dos segundos violinos, quando as colegas melhorzinhas e com quem mais falava estão nos primeiros e eu estou limitada a aturar crianças. Abomino o lugar, abomino a parte de segundos daquelas músicas, abomino ter de estar a fazer harmonização em vez da melodia, detesto crianças. Eu não tenho capacidade de líder, nem capacidade pedagógica. Pelo amor do Karma, eu odeio crianças, eu não consigo dar-me com crianças, a não ser sendo tão falsa quanto uma boneca de plástico.

 

   Porquê? Porquê? O que é que eu fiz de mal para estar agora a levar com este mau karma todo? Bolas, eu já estou condenada a só sair deste buraco do mundo para Lisboa com muita sorte, porque não há como os meus pais me pagarem o curso, eu sei que muito provavelmente numa orquestra a sério não saio do último lugar dos segundos violinos, custava muito manter-me no lugar que eu já habitualmente ganhei? Ou vou ser despromovida muito em breve? Eu já não percebo nada, a única coisa que tenho feito é andar pela vontade, que até hoje me tem movido em frente. As coisas difíceis, por mais que eu choramingue, levam-me para a frente. A mal ou a bem, vou para a frente. Mas aquilo? Só me manda para trás, e cada vez mais para trás. Não sou capaz de ver o lado positivo disto. Não há lado positivo nisto.

 

   Lá está aquilo que receava sempre antes de uma coisa ainda melhor acontecer, o receio de cair. As quedas, aliadas à minha cabeça já nada segura, são catastróficas. Pensam que eu vejo isto com a mesma cabeça que eles, da mesma forma. Não. Eu vejo isto distorcido. Não devia, diz o psicólogo, não devia. Mas a verdade é que vejo. Não adianta nada todas as tentativas e pseudo-tentativas de tentar andar alegre com alguma coisa, mais dia menos dia gasta-se, evapora-se, regresso á realidade de pessoa mal amada e deslocada.

 

   A verdade é que agora tenho frustração. A verdade é que eu mais me valia ter ficado calada na minha. Não volto a falar com ninguém assim. A verdade é que volto para casa com a sensação que mais me valia ter ficado em casa a estudar do para lá ter ido.

 

   A verdade é que vou e vou calada.

Orquestrado por Violinista às 19:46
No momento, estou: Não quero falar com ninguém
Música do momento: Cantabile - Paganini
18 de Janeiro de 2012

   No entanto, é mentira dizer que eu conseguiria não andar a falar dos concertos que tenho. Até porque tenho andado a ter uns dias de merda, literalmente, e hoje foi uma tarde melhor. Deu-me para rir, deu-me para tocar, resolvi, num acto assim saído do nada, ir de saia. Aquela saia preta longa, até aos pés, flutuante, com uma camisa e uma blusa de malha preta. Sim, ia tão bem vestida que foi uma sorte eu não ter encontrado a Komandante cá de casa à porta ou na sala antes de sair.

   Foi uma coisa pequena. Mas teve a sua graça.

 

   É precisamente por estas coisas, que acabo a ganhar força para mais um dia, quando isto anda tão negro.

Orquestrado por Violinista às 22:22
No momento, estou: Now I'm calm
Música do momento: Quarteto de cordas nº3 - Michael Nyman
13 de Janeiro de 2012

   "Na sexta-feira, treze de Janeiro..."

 

   E desta vez é mesmo sexta-feira 13.

 

   Este blog é uma parte significativa de mim. Não pelos pouquíssimos comentários que tenho, ou da sua fraquíssima qualidade que nunca fez dele ponto de referência para ninguém, nem nunca mereceu destaque. Porque desde aquele 13 de Janeiro, que este blog tem sido uma extensão de mim, da minha alma e consciência, para o bem ou para o mal. Em dias menos bons, venho aqui. Em dias bons, também. Já cá apanharam as minhas mágoas, as minhas felicidades, os meus rasgos meio geniais e as ideias não tão boas assim.

   Ainda me lembro, como se fosse ontem, do dia que precedeu a abertura deste blog, e que praticamente foi o estopim para o criar. Parecia um dia normal. Tinha uma das minhas aulas no conservatório, no primeiro ano em que lá estive, e apanhei uma das maiores vergonhas da minha vida lá, que foi o telemóvel tocar a meio da aula. O toque (ainda hoje é o mesmo telemóvel e o mesmo toque) era, muito originalmente, o Capricho nº13 de Paganini. O professor de violino aproveitou para comentar, tocar, e brincar com a situação. Sim, senhora, excelente toque de telemóvel.

   Nesse Natal tinha visto o Fantasma da Ópera.

   Ainda hoje me vejo assim, como um fantasma da orquestra. Nessa altura, estava a dar os meus primeiros passos na orquestra, hesitante, e sentia-me assim: apagada num grupo que se conhecia muito bem e no qual eu era a estranha, a pessoa à parte, ao fundo, na sombra. Hoje as coisas não estão muito diferentes. Sinto-me mais separada, mais de lado. Mantenho conversas algo amigáveis com algumas pessoas, incluindo uma das violoncelistas, respeito toda a gente, lá está, mantenho-me simpática para todos. No entanto, continuo a afastar-me, a sentir-me distante. A faltar a almoços de convívio, a desaparecer de concertos.

   Não deixo de ser um fantasma.

 

   Não deixo este blog, por nada. Criei o hábito de cá vir, hábito que não largo. Já experimentei outros blogs, ir para outras plataformas, tentar apagar este e as suas más recordações. Não consigo. Não são só as más recordações, mas as boas, o que eu já escrevi, o que eu já vivi. Este blog sou eu, sou eu reflectida nestas páginas, eu com todos os meus defeitos e as minhas poucas virtudes. Eu e o meu violino. Como tal, é um blog fantasma, um blog sinistro, de ideias diversas e em conflito, de embirrações, coisas que me saem dos dedos para fora e nem deviam. A minha música favorita ecoa aqui.

   Este blog começou com uma rapariga triste de dezassete anos, um violino, um telemóvel com o Capricho nº 13 de Paganini, o medo e a busca do talento, um interesse estranho e obscuro numa pessoa que ainda hoje admiro, um carinho absurdo para com o pai e a infância, uns quantos pontapés à sociedade e à humanidade em geral, para além de uns quantos textos. Conta com 382 posts (383 com este) e 153 comentários (thank you!).

   Este blog seguirá com uma jovem de dezanove anos, o seu violino que foi batizado Monstro, o telemóvel com o Capricho nº 13 de Paganini cuja bateria está uma inválida e tem de ser carregado de dois em dois dias, o seu medo avassalador e a sua busca incessante pelo talento e perfeição, o melhor pai que me poderia calhar, uma infância cada vez mais distante mas sempre recordada, e ainda a sua admiração pela mesma pessoa, sempre aquele interesse velado e que dói. Muitos mais pontapés à sociedade e à humanidade em geral, e de quando em quando, uns textos e contos que escrevo nas margens das folhas. A minha imaginação continua. A tristeza do meu cérebro também. Os rasgos de felicidade que o violino me traz, idem.

 

   Há hoje um conto de surpresa, postado mais logo. No dia 24, começo a rúbrica periódica deste ano. Lamento não fazer uma festa maior, eu tentei, mas o ânimo aí desse lado, leitor, foi tanto, tanto...

 

   A mais um ano de blog da Violinista. Ergam os copos de Zubrowka. Brindemos a isto, que é o primeiro blog que tenho com uma vida tão longa, e esperemos que o único.

  

Orquestrado por Violinista às 07:57
No momento, estou: Este estaminé faz anos, bebam.
Música do momento: Tubular Bells em orquestra - Mike Oldfield
31 de Dezembro de 2011

   A conclusão a que chego agora é que 2011 foi um ano mau com pequenos momentos de pura glória. Uma linha torta, com borrões negros ao lado de arco-íris. Uma coisa a ir de um extremo ao outro em questão de segundos.

 

   Tive o meu primeiro Concerto de Ano Novo, primeira experiência de dia de concerto mais a doer. Gostei. Com alguns momentos menos bons, as coisas até pareciam estar a andar. Era chamada para a frente do naipe quando alguém faltava. Tinha as minhas pequenas confusões e ataques de nervos antes das aulas, mas parecia tudo normal. Apesar de tudo, eu já estava a começar a ficar meio cinzenta. Sorriso apagado. Fui aprender a arte da guerra. Descobri, entre outras coisas, que tenho boa pontaria, sou potencialmente perigosa com uma pressão de ar nas mãos, e ultimamente deu-me para andar com um cinto militar (do pai). Fiz merda na audição, e fui-me abaixo. Creio que desde esse ponto que iniciei uma espiral descontrolada e vertiginosa para baixo. Recebi a proposta que poderia ter sido um autêntico raio de sol, e por meu medo e impossibilidade de uma parte, não aconteceu. Depois, o negrume. O que me aconteceu nesse tempo levou-me a perder por completo a confiança nas pessoas, levou-me a perder o pé por um largo tempo. Vivi um pequeno inferno nesse tempo. Acreditei que realmente só seria aquilo: eu merecia era um futuro onde não teria nada e seria mal olhada. Voltei a entrar em estupor. Julguei que sua excelência me tinha ódio. As coisas correram muito mal nos últimos dias, mesmo muito. Ouvi e li palavras que não queria, que me racharam por dentro de uma forma que eu acredito que não se cura. Mesmo assim, no exame em que fiz merda, tive 96%. No de passagem de grau que pensei que pudesse estar melhor por não ter tido brancas a meio, desci vergonhosamente para os oitenta e tal por cento.

   As coisas eventualmente regressaram a uma aparente normalidade, que se mantém. Aliás, neste momento parece que esse momento negro só existiu na minha cabeça, e mais ninguém toca nele. Estive um verão inteiro a lembrar-me do mau que foi, e agora desapareceu.

   Tive muitos e bons concertos. Tive a minha primeira experiência nos primeiros violinos. Estive no lugar de concertino durante parte de um ensaio (coisa que não deve nunca mais voltar a acontecer-me, acho).

   Vibrato! Supostamente, neste ano consegui dominar essa coisa (pelo menos, está melhor e já se parece com qualquer coisa de jeito).

   Finalmente tive direito a ter o canal Mezzo na televisão. Julguei que começava mal este ano lectivo, mas ao que parece sua excelência deu-me o desconto e tem vindo a amenizar um bocado as coisas. Não sei como. Fiz a passagem de grau para o 5º grau de violino e orquestra.

   A Cantata do Padre Cartageno, tocada duas vezes, dois dias que acho que me vão ficar na memória até ao dia em que eu entre na cova.

   Foi também o último ano com Mestre P. Apesar de tudo, vou ter saudades do tempo que lá estive, das aulas, dos pequenos momentos. Houve dias em que eu fui a única aluna a aparecer-lhe lá. Há coisas de lá que eu também não vou esquecer. Afinal, foi ali que eu me vim a encontrar a mim mesma. E ao violino.

   Mas o negrume não se foi embora. Agora estou a braços com ele. O meu cérebro apodreceu, é a única coisa que posso dizer aqui e agora, porque me enfiei num belo de um buraco negro, e há coisas que não posso ainda dizer, certezas que ainda não tenho. Há parte de mim que já não se recupera. Tão depressa posso estar bem, como ir-me abaixo num momento qualquer.

 

   2012. O ano do apocalipse, o ano do fim de qualquer coisa. Quem sabe, do meu fim? Quem sabe, talvez o mundo fique melhor sem pessoas nele. Tlvez melhor se eu não estiver cá. Não sei. Mas vai ser fácil pedir os desejos nesta passagem de ano. É uma frase já pensada. E vai ser repetida doze vezes, pode ser que resulte. Bom ano.

 

Orquestrado por Violinista às 23:59
No momento, estou: Not so confident
Música do momento: The End - The Doors

Violinista, C. S. L. Stradivaria. 19. Nº 5. Nº 13. Pseudo Violinista. Estudante. Nerd. Chapeleira. Vitoriana. Dandy Lolita. Incerta. Inconstante. Sonhadora. Inteligente. Invisível. Tímida. Imprevisível. Intelectual. Estranha. Deprimida. Lacrimosa. Egoísta. Respondona. Obcecada. Cínica. Anti-social. Teimosa. Orgulhosa. Calada. Perfeccionista. Louca. Baixinha. Ridícula. Original. Solilóquio em Celulóide. Violino. Música. Letras. Notas. Pautas. Relógios de Bolso. Cartolas. Magia. Paranormal. Roxo. Vermelho. Raposa. Coruja. Melro, Corvo e Pêga. Cisne. Pássaro de Fogo. Chocolate. Chuva. Quinta Dimensão. Submarino Amarelo. Petrushka. Viajante do Tempo. Extraterrestre. Fantasma.
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